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CABIDE MENTAL Ted, o ursinho do mal

03/10/2012 por René Zamlutti Jr.

O deputado federal Protógenes Queiroz parece sentir falta dos tempos em que, delegado federal, ignorava leis e violava direitos a fim de se tornar o grande inquisidor dos bandidos de colarinho branco do país. Parece também sentir saudade dos tempos em que o poder público era mais forte e podia dizer à sociedade o que ver e o que não ver no cinema.


            No final de semana passado, nosso mais novo censor resolveu levar o filho de 11 anos para assistir à comédia Ted, de Seth MacFarlene – um filme classificado para maiores de 16 anos. Papai Protógenes deve ter pensado que, embora seu filho tenha bem menos do que 16 anos, assistir ao filme ao lado do grande paladino da justiça brasileira impediria que o menino se deixasse influenciar por valores contrários à moral e aos bons costumes.


            Protógenes saiu do cinema horrorizado, e afirmou na terça-feira (25 de setembro) que pediria aos Ministérios da Justiça e da Cultura que suspendessem a exibição do filme. Por quê? Porque segundo o deputado, o filme “passa a mensagem de que quem consome drogas, não trabalha e não estuda é feliz”. A reação à infeliz declaração do neocensor foi tamanha, e o ridículo de suas afirmações tão óbvio, que ele já voltou atrás. O surto autoritário, aliás, turbinou a bilheteria do filme, o que não deve ter deixado o deputado muito feliz.


            O curioso é que Protógenes afirmou que tinha lido as críticas e resenhas do filme, portanto, sabia do que se tratava. Mas é preciso ter mestrado e doutorado em idiotice para achar que um adolescente de 16 anos ou mais vai começar a se drogar – ou a fazer qualquer outra coisa – porque viu um urso de pelúcia fazendo isso no cinema.


            Aliás, Protógenes, pelo jeito, não vai ao cinema há um bom tempo. Sorte nossa. Se fosse, era capaz de pedir para fechar todos as salas de cinema do Brasil. Vamos seguir o raciocínio do neocensor: Os Mercenários 2 passa a mensagem de que quem vive de matar os outros é feliz; E aí... comeu? passa a mensagem de que quem cai na farra é feliz; On the road – na estrada passa a mensagem de que quem sai por aí viajando, se drogando e transando com quem topar pela frente é feliz. E por aí vai. Censura a todos, então. Tiremos todos de cartaz.


            Mas por que se limitar ao cinema? Avenida Brasil passa a mensagem de que quem é polígamo é feliz; desenhos como Pica-pau e papa-léguas passam a mensagem de que quem engana os outros é feliz; o livro Cinquenta tons de cinza passa a mensagem de que quem se submete a uma relação sadomasoquista é feliz. Censura, censura a tudo isso, em nome da família brasileira!


            Embora as bobagens do neocensor não tenham chance de sucesso, a mentalidade que elas evidenciam encontra eco em muitos aspectos da atual realidade brasileira. A censura tem nos cercado de forma cada vez mais ostensiva.


            Provavelmente somos o único país civilizado em que não se pode escrever a biografia não-autorizada de quem quer que seja. Ou seja, biografia, no Brasil, só se for chapa-branca, supervisionada e aprovada pelo biografado ou por seus parentes. Prateleiras e prateleiras contando a vida de heróis, pois que personagem ou parente dará autorização para um biógrafo narrar aquela prisão por pedofilia ou aquele escândalo de corrupção? “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”. O poema em linha reta de Fernando Pessoa já prenunciava o atual mercado de biografias no Brasil.


            O diretor financeiro do Google no Brasil, Edmundo Luiz Pinto Balthazar, foi preso por crimes de desobediência, por não excluir textos do Google e vídeos do Youtube ofensivos a alguns candidatos na atual eleição Brasil afora. Aparentemente escapa à percepção dos juízes que deram essas ordens de prisão que os vídeos podem ser colocados e recolocados no Youtube por particulares, sendo impossível que o diretor financeiro, ou mesmo um grupo grande de funcionários, consiga detectar todos os vídeos que indivíduos postam. Claro que nem os juízes, nem os candidatos ofendidos cogitaram tentar encontrar quem de fato postou os vídeos, tarefa bem mais trabalhosa.


            No começo do ano, o Itamaraty e o Palácio do Planalto vetaram a entrada de membros da equipe do CQC em suas dependências.


            Em 2007, a exposição Heróis, com fotografias de Luiz Garrido, foi proibida na Câmara dos Deputados, em Brasília, por conter fotos da transformista Rogéria.
            Em agosto de 2011, o horroroso filme sérvio A Serbian Film teve sua exibição proibida em todo o Brasil.
            Em 25 de setembro, o Tribunal de Justiça de São Paulo anunciou que proibiu a exibição no Youtube do trailler do filme A inocência dos muçulmanos (uma das maiores idiotices da história – não digo do cinema, porque é tão ruim que sequer merece essa classificação – , que deveria ter sido solenemente ignorada pelo mundo, e provavelmente seria, não fossem os protestos dos muçulmanos contra o filme) sob pena de multa diária.


            Os exemplos são inúmeros, e surgem novos a cada dia. Nem a coitada da Tia Nastácia, do Sítio do Picapau Amarelo, escapou. E como já visto por aqui, até um samba-enredo que critica a desocupação do Pinheirinho, como o "Covardia Nacional", pode dar cadeia.


            É claro que a liberdade de expressão não é absoluta e precisa de limites. Mas no Brasil atual os limites vêm se sobrepondo à própria liberdade de tal maneira que, daqui a pouco, até os contos de fada e as canções de ninar vão encontrar um Protógenes que queira proibi-los.

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RENÉ ZAMLUTTI JR.

René Zamlutti Jr.

 

Procurador do Estado de São Paulo, especialista, mestre e doutor em Direito Constitucional pela PUC/SP e professor da USJT e da EBRADI - Escola Brasileira de Direito. 

Autor do Blog: CABIDE MENTAL

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