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CABIDE MENTAL Sociedade e autoridade - parte 2

12/03/2013 por René Zamlutti Jr.

No começo de fevereiro, escrevi um texto sobre a perturbadora experiência de Milgram, realizada no início dos anos 60 na Universidade de Yale pelo psicólogo Stanley Milgram, que demonstrou que a maioria das pessoas "normais" (concordo com Caetano, de perto ninguém é) está disposta a torturar um desconhecido praticamente até a morte, desde que uma autoridade lhe diga que é a coisa certa a fazer.

     Por mais desconfortável que tenha sido o resultado da experiência, poderíamos nos apegar a uma esperança: nossa natureza não é assim tão distorcida, só cometeríamos esse tipo de violência se recebêssemos ordem de uma autoridade, logo, não é nosso impulso natural agir dessa maneira. Certo?
     Errado.
     Poucos anos depois da experiência de Milgram, em 1971, o psicólogo Phillip Zimbardo, da Universidade de Stanford, em Palo Alto, conduziu um experimento de simulação de ambiente prisional, que ficou conhecido como experimento de aprisionamento de Stanford, ou experiência de Stanford. Coincidentemente, Milgram e Zimbardo foram colegas no ensino médio.
     A intenção de Zimbardo era analisar as reações psicológicas causadas tanto em guardas quanto em prisioneiros de um estabelecimento carcerário. Para isso, o subsolo do Departamento de Psicologia da universidade foi transformado em uma prisão. Dos 70 voluntários que responderam ao anúncio publicado num jornal (US$ 15,00 por dia), a equipe de Zimbardo selecionou os 24 considerados psicologicamente mais estáveis.
     A experiência teve início com nove guardas e nove detentos. Os detentos foram mandados inicialmente para suas casas, onde, mais tarde, com a ajuda do Departamento de Polícia de Palo Alto, foram presos, ante o olhar perplexo de seus vizinhos. Da delegacia foram encaminhados para a chamada "prisão de Stanford". Logo na chegada foram submetidos a rituais de humilhação e despersonalização - foram revistados, despidos e desinfetados com spray. Cada preso recebeu um uniforme (similar a uma bata) com seu número na frente e nas costas. Os presos só podiam se referir a si mesmos e aos outros pelos números, nunca por seus nomes. Foram atadas correntes a seus pés. Eles foram obrigados a usar toucas para simular que seus cabelos tinham sido raspados. Segundo Zimbardo, "assim que alguns dos nossos reclusos vestiram estes uniformes, começaram a andar e a sentar-se de forma diferente", e "as celas eram tão pequenas que existia somente espaço para três casacos em cima dos quais os reclusos dormiam ou se sentavam, sem grande espaço para mais."

     Os guardas, usando óculos escuros espelhados o tempo todo, faziam contagens várias vezes durante o dia e a noite, impunham flexões como punição aos detentos e criavam mecanismos psicológicos para impor sua autoridade e minar a resistência dos presos.
     O primeiro dia transcorreu sem incidentes, mas no início do segundo dia eclodiu uma rebelião. Os guardas usaram extintores de incêndio para afastar os presos das portas das celas e, após controlar a rebelião, despiram os presos e passaram a maltratá-los. Como havia apenas três guardas em cada turno, chegaram à conclusão de que táticas psicológicas eram mais eficazes do que as físicas. Os guardas começaram a criar privilégios para alguns presos, sem maiores explicações, deixando os demais perplexos e quebrando a solidariedade do grupo.
     Zimbardo conta que "menos de 36 horas após o início da experiência o recluso #8612 começou a sofrer uma perturbação emocional aguda, evidenciando um pensamento desorganizado e com episódios de raiva e de choro incontroláveis. Apesar disso, já tínhamos começado a pensar de tal forma como autoridades prisionais, que julgamos que ele estava a 'dar-nos a volta' - a enganar-nos com o objetivo de o libertar" - em outras palavras, os "guardas" e o próprio pesquisador começaram a incorporar o papel de autoridade controladora. Posteriormente, diante de rumores de um plano de fuga, Zimbardo, completamente tomado por esse papel, tentou transferir os detentos para a verdadeira prisão de Palo Alto. O Departamento de Polícia se recusou a aceitar o pedido. Isso fez com que o nível de maus tratos aumentasse drasticamente.
     O preso #819 sofreu tamanha perturbação mental que precisou abandonar o experimento (segundo Zimbardo, ao ser informado de que poderia ir embora, o preso, que até então chorava compulsivamente, "olhou para mim como uma criança pequena a acordar de um pesadelo"). Foi substituído pelo preso #416, que a certa altura iniciou uma greve de fome. A resposta dos guardas foi colocá-lo na solitária por três horas, mesmo sabendo que as regras estipulavam o limite de uma hora. 
     No sexto dia, "ficou claro que tínhamos que terminar o estudo. Tínhamos criado uma situação espantosamente poderosa, uma situação em que reclusos estavam a retrair-se e a comportarem-se de forma patológica e em que alguns dos guardas estavam a comportar-se de forma sádica. Mesmo os guardas 'bons' sentiam-se impotentes para intervir e nenhum dos guardas desistiu no decurso do estudo". O estudo, planejado para durar duas semanas, só chegou ao sexto dia.

     O estudo foi encerrado prematuramente por duas razões. "Em primeiro lugar, tínhamos constatado, através de vídeos, um agravamento dos abusos aos reclusos no meio da noite por parte dos guardas que pensavam que nenhum investigador os estava a observar e que a experiência estava 'desligada'. O seu aborrecimento levou-os a abusos mais pornográficos e degradantes dos reclusos", conta Zimbardo. A segunda razão foi o questionamento ético feito pela dra. Christina Maslach, com quem Zimbardo viria a se casar.

A experiência de Zimbardo - mostrada em detalhes no formidável site Experiência da Prisão de Stanford -  mostrou que não é necessário que uma autoridade nos leve a abusar de pessoas sob nosso poder. Se nós mesmos formos a autoridade, nossa tendência é esmagar qualquer resistência que se oponha à nossa vontade. Montesquieu tinha razão ao afirmar que "todo homem que detém poder tende a abusar dele". A escalada de brutalidade que fez com que o experimento fosse prematuramente encerrado não se deve a qualquer patologia por parte dos guardas, mas à própria natureza humana e à forma pela qual o poder se estrutura na sociedade. Prova disso são as condutas dos soldados nazistas durante a II Guerra Mundial, dos soldados americanos em Abu Ghraib, no Iraque, e - sim - da polícia paulista na onda de violência que varreu as periferias em 2012 - todas assustadoramente similares ao comportamento dos guardas de Stanford. Assim como a atual realidade carcerária brasileira, por sinal.
      O experimento ainda deu origem ao filme alemão Das Experiment, de 2001, que, embora não seja ruim, se afasta da realidade e descamba para a histeria.

Numa brilhante palestra recentemente divulgada no site TED, Phillip Zimbardo, comentando a experiência, descreveu o que chama de "Efeito Lúcifer", afirmando que "o mal é o exercício do poder". Como Zimbardo afirma, a típica justificativa de que soldados e/ou carcereiros que cometem abusos são "algumas maçãs podres" não convence - "talvez o barril é que seja podre", ele afirma. Talvez.

 

     O "Efeito Lúcifer" é o conjunto de circunstâncias que leva pessoas "boas" (adjetivo usado por Zimbardo; não tenho certeza de que seja o mais adequado) a se tornar más. No centro de tudo está o poder e seu abuso.
     E se Zimbardo está certo, se o problema não são algumas poucas maçãs podres, e sim o barril, talvez precisemos pensar em formas de evitar que o barril apodreça as boas maçãs. Talvez devamos trocar o barril. Isso vale para a Alemanha de 1945, os EUA de 2006 e o Brasil de 2013.

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RENÉ ZAMLUTTI JR.

René Zamlutti Jr.

 

Procurador do Estado de São Paulo, especialista, mestre e doutor em Direito Constitucional pela PUC/SP e professor da USJT e da EBRADI - Escola Brasileira de Direito. 

Autor do Blog: CABIDE MENTAL

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