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CABIDE MENTAL Ser de direita é um luxo

31/10/2012 por René Zamlutti Jr.
Vamos imaginar, apenas por um momento, que aquelas categorias de "direita" e "esquerda" ainda são adotadas pela classe política brasileira.
Para não nos perdemos em detalhes, adotemos como premissa geral que ser de direita significa optar pelo neoliberalismo, pelo Estado mínimo, pelo laissez faire, laissez passer, e ser de esquerda significa querer um Estado mais atuante, mais forte, mais presente na solução de problemas sociais da vida privada que levam à manutenção do status quo e à desigualdade social. Não é só isso, evidentemente, mas foquemos nesse aspecto.
Sob essa ótica, temos de reconhecer que a atuação do Estado para reduzir as desigualdades sociais, o desemprego e a pobreza só interessa às vítimas da desigualdade, aos desempregados e aos pobres. Em outras palavras, quem já tem um bom emprego, casa, patrimônio, plano de saúde e educação paga (ou condições para obter tudo isso por conta própria) não precisa do Estado. E se não precisa do Estado para nada, pode, perfeitamente, defender a teoria de que o Estado deve ser mínimo e interferir o menos possível na vida privada da sociedade. Por outro lado, quem não tem nada disso, nem encontra na sociedade condições de alcançar por conta própria esses benefícios, precisa do Estado e – pelo menos em tese – compreende (porque sente na pele) a sua relevância para a superação das desigualdades.
Conclusão: ser de direita é um luxo. É como ter o último iphone, trocar de carro a cada seis meses ou viajar para a Europa três vezes por ano. Ser de direita é para quem pode, não para quem quer.
Daí sucede que, com a evolução da humanidade e a superação das mazelas sociais, no futuro todos seremos de direita. Quando ninguém mais precisar do Estado para obter moradia, saúde, educação, alimentação, emprego etc., quando o Estado retomar seu perfil liberal, não haverá mais ninguém de esquerda, e todos nos regozijaremos entre brindes de Romanée-Conti, lembrando, sem saudade nenhuma, de quando ainda havia gente de esquerda no mundo.
Até que isso ocorra, continuaremos a testemunhar a ascensão do novo direitista, a versão anos 2000 do “novo rico”. Como a socialite que comenta com a amiga que “enfim a empresa do Oswaldinho decolou e saímos daquele apartamento minúsculo, horroroso. Agora estamos bem e finalmente – finalmente! – entramos para a Nova Direita. Um alívio, querida, um alívio!”

Para o novo direitista, é absurdo e ilógico que o Estado dê moradia e saúde de graça (“o Oswaldinho se esforçou tanto, agora o vagabundo quer ganhar isso na moleza?”). Faz sentido. Depois de tanto esforço para alcançar um status que lhe permita o luxo de ser de direita, nada pior do que o pavor de retroceder e ter de “recair na esquerda”, e precisar pensar no que o Estado precisa fazer para reduzir as desigualdades.
No futuro, ser de esquerda será démodé. Será como a gravata de teclas de piano ou a macarena, um anacronismo do qual os neodireitistas caçoarão.  Nenhum anjo torto procurará um poeta para lhe dizer: vai ser gauche na vida. Ser de esquerda será vintage. Será, na melhor das hipóteses, uma extravagância divertida e (principalmente) inofensiva. 
É evidente que no futuro neodireitista os pobres não desaparecerão. Afinal, alguém precisa preparar a mesa, estender as toalhas, lavar os pratos e talheres! Mas serão muito bem remunerados para isso – os neodireitistas mais otimistas preveem índices salariais estratosféricos, na casa dos 5% dos salários dos patrões – e, o que é mais importante, receberão, desde pequenos, a adequada educação da cartilha neodireitista, aprendendo que o mundo é assim mesmo e que cada um tem o seu lugar, sendo todos, é claro, igualmente importantes no desempenho de suas funções sociais.
É certo, também, que um ou outro desavisado pode não enxergar as benesses de um mundo tão evoluído. Mas isso não será problema para o projeto neodireitista. À medida que o Estado se enfraquecer, as forças policiais, destinadas a manter a calma e a ordem, serão fortalecidas. Eventuais tentativas de perturbar a paz social serão reprimidas com o rigor que a situação exigir.
Mas tudo isso pressupõe a superação da pobreza e das desigualdades, que precisará da colaboração do Estado. Expoentes do pensamento neodireitista já estão elaborando um Manifesto Capitalista que demonstrará que a “ditadura da burguesia” é uma consequência inevitável da história, que levará ao encolhimento do Estado e, quem sabe, à sua supressão.
Enquanto o sonho dourado neodireitista não se torna realidade para todos, temos de admitir que apenas um esquizofrênico conseguiria ser de direita sem ter garantidos seus direitos (à saúde, à moradia, ao pleno emprego etc.). Por outro lado, apenas um ingrato alcançaria todas essas benesses e não migraria alegremente para a direita.
Mas vivemos no Brasil e, como já dizia Tim Maia, “o Brasil é o único país onde, além de puta gozar, cafetão ter ciúme e traficante ser viciado, pobre é de direita”. Por outro lado, felizmente, há muita gente ingrata no Brasil: gente que estuda, se prepara, ascende na vida e mesmo assim não se “endireita”. Talvez isso ocorra porque, quanto mais se estuda, se investiga e se reflete, menos o simplismo burro das direitas convence. Quanto mais se pensa, menos razoável parece o raciocínio (também típico do neodireitismo) segundo o qual se EU estou bem, VOCÊ é um problema só seu.

Pois é, talvez hoje em dia ser de direita seja mesmo um luxo. Mas não ser um completo idiota é mais.

Comentários

  • osvaldo gomes da silva junior
    15/11/2012 17:40:20

    Parabéns, expetacular !

  • valéria Medeiros
    09/11/2012 16:18:40

    fascinante o texto!

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RENÉ ZAMLUTTI JR.

René Zamlutti Jr.

 

Procurador do Estado de São Paulo, especialista, mestre e doutor em Direito Constitucional pela PUC/SP e professor da USJT e da EBRADI - Escola Brasileira de Direito. 

Autor do Blog: CABIDE MENTAL

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