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CABIDE MENTAL Pra ver você que lobo também faz papel de bobo...

06/05/2013 por René Zamlutti Jr.

 

entrevista dada por Lobão à Folha de São Paulo na última quinta-feira, 02 de maio, revela até para os mais distraídos certas obviedades que um olhar mais atento sobre os últimos anos do cantor detecta com facilidade.

     Quem, como eu, acompanha a carreira de Lobão desde os primórdios, quando ele era baterista da Blitz (admito, só vim a conhecer a Vímana muitos anos depois), passando pelos Ronaldos e pelo trabalho solo de qualidade dos anos 80 e 90, não consegue reconhecer no falastrão destemperado de hoje o compositor inspirado que deu ao então nascente rock Brasil contribuições tão marcantes quanto Revanche Me chama, o contestador que levou o samba para o rock com Vida bandida, que teve a coragem de colocar a bateria da Mangueira no palco do Rock in Rio II em plena "noite do heavy metal", encarando sem medo uma vaia histórica e que peitou sozinho o mercado fonográfico nacional, criando um método alternativo de distribuição do disco A vida é doce em 1999. Esse Lobão, infelizmente para todos nós e principalmente para ele mesmo, não existe mais.
     Já há muitos anos - mais ou menos a partir do início dos anos 2000 - a postura contestadora e incisiva deu lugar a uma verborragia amarga e reacionária. O rebelde dos anos 80 e 90 é hoje um simpatizante dos militares e um crítico feroz da MPB brasileira, além de um contumaz vira-latista. É quase inacreditável que o artista que teve a sensibilidade de escrever versos como "A favela é a nova senzala, correntes da velha tribo / E a sala é a nova cela, prisioneiros nas grades do vídeo / E se o sol ainda nasce quadrado a gente ainda paga por isso" defenda, anos depois, anistia para os militares que "arrancavam umas unhazinhas".
     Entender as razões dessa guinada para o conservadorismo não é fácil, mas alguns fatos (que a entrevista à Folha, de forma sutil, confirma) são bem significativos.
     Cynara Menezes, autora do blog Socialista Morena, fez uma análise interessante, com a qual concordo em grande parte. Mas especificamente no caso de Lobão, há mais do que o mero retorno aos valores rejeitados na juventude. Como uma versão roqueira do Tom Zé, Lobão sente-se profundamente injustiçado por não ser reconhecido como um gênio nem ter estourado com a mesma força de um Cazuza, de um Renato Russo, de um Herbert Vianna - para não falar dos grandes nomes da MPB como Tom Jobim, Chico, Caetano e Gil. 
     A prova mais emblemática desse recalque foi a recusa em participar do festival Lollapalooza em 2011, sob o argumento de que as bandas nacionais estavam sendo desprestigiadas. Em um vídeo divulgado no Youtube, Lobão chegou a fazer uma "convocação de interesse público", conclamando os artistas brasileiros a boicotarem o festival. Em entrevista à Folha, na época, o organizador do festival, Perry Farrell, mandou a Lobão uma mensagem irrespondível e humilhante: "As escalações de line-up são feitas de forma política. Sempre o nome que atrai mais gente fica por último. Vou dar um conselho a ele: grave um disco muito bom, um que todo mundo ame, e faça as pessoas quererem vê-lo ao vivo. Então, ele poderá ser headliner de um festival".
     Bem, Lobão não gravou nenhum disco muito bom e, é bom lembrar, há muito tempo não escreve uma letra relevante ou minimamente interessante. Mas sua inteligência continua afiada e ele continua a ser, como sempre foi, bastante articulado. Então, porque a polêmica pode ser uma forma de rebeldia - e mais do que isso, um meio de se manter em evidência - Lobão voltou seus ataques, num primeiro momento, para a cultura brasileira e a MPB em geral.
     Neste vídeo, por exemplo, Lobão critica a "inocuidade galopante" de Chico Buarque, chama Nyemeier de "péssimo arquiteto" (por ser comunista), e desanca a bossa nova ("igual a um coral de Ray Coniff") e Gilberto Gil ("babaca", "em cima do muro"). Infelizmente, o entrevistador não lhe perguntou se ele via em si todas as qualidades que ele considera inexistentes nos artistas citados.
     Só que nem mesmo essa investida contra a MPB e a cultura brasileira em geral surtiu o resultado esperado por Lobão - o reconhecimento de sua relevância, se não musical ou cultural, pelo menos, digamos, "intelectual". Então - aproveitando a conquista pela esquerda brasileira dos cargos políticos mais relevantes do país - Lobão redirecionou sua fúria não só para as esquerdas, mas para toda e qualquer mentalidade progressista (logo ele, antes tão inovador) - e se tornou um reacinha ranheta e chorão.
     Daí o lançamento de seu novo livro e a entrevista à Folha, na qual chama Dilma de terrorista e afirma que o PT está preparando um golpe de Estado (aparentemente, Lobão esqueceu que o PT já está no poder). Mas o mais emblemático e revelador dessa entrevista está no seguinte trecho: "Não acredito em vítima da ditadura, quero que eles se fodam. Eu fui perseguido, passei quatro anos perseguido por agentes do Estado. Por que eu tinha um galho de maconha? Me botaram por três meses na cadeia. Nem por isso eu pedi indenização ao Estado. Devo ter sofrido muito mais do que 90% desses caras que dizem que foram torturados".
     Essa afirmação resume toda a realidade atual de Lobão. Negar que vítimas da ditadura existam é inconcebível para qualquer vertebrado alfabetizado, e Lobão - repito - é um sujeito inteligente. Comparar uma prisão por três meses em razão de drogas às barbáries praticadas pelos militares e tão ridículo quanto afirmar que "devo ter sofrido muito mais do que 90% desses caras"  - e é nesta frase que está a essência da amargura de Lobão, a percepção de que ninguém jamais sofreu como ele, que, heroicamente, nunca pediu uma indenização ao Estado pelos três meses que passou preso, sem ser torturado, por conta das drogas que usava.
     Lobão entregou de bandeja ao leitor da Folha a admissão de que sua "rebeldia" não passa de um recalque rasteiro, de invejinha de quem se acha brilhante e se ressente da falta de reconhecimento de sua genialidade. No fundo, foi apenas mais uma dentre tantas oportunidades que Lobão perdeu de ficar com a boca fechada.
     O primeiro disco de João Gilberto (que, apesar da consagração internacional, é considerado medíocre por Lobão), Chega de saudade, de 1959, traz a faixa Lobo bobo, composta por Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli. Canta João: "Era uma vez um lobo mau que resolveu jantar alguém / Estava sem vintém mas arriscou e logo se estrepou".
     Lobão é exatamente isso: alguém que pretende ser um lobo mau, mas não passa de um lobo bobo. E, exatamente como na música, "pra ver você que lobo também faz papel de bobo, só posso lhe dizer, Chapeuzinho agora traz o lobo na coleira que não janta nunca mais".
     Os heróis de Cazuza morreram de overdose. Allen Ginsberg viu os expoentes de sua geração "destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa". Nós, que vimos o rock Brasil nascer, crescer e se tornar essa caricatura patética da atualidade, ainda temos o desprazer de testemunhar os rebeldes de outrora, como Lobão e Roger Moreira, cumprindo a profecia nietszschiana de se tornarem os monstros que buscavam combater. Aos que conheceram a irreverência selvagem de um Lobão e o sarcasmo contundente de um Ultraje a Rigor nos anos 80, resta a dor de "perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais".

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RENÉ ZAMLUTTI JR.

René Zamlutti Jr.

 

Procurador do Estado de São Paulo, especialista, mestre e doutor em Direito Constitucional pela PUC/SP e professor da USJT e da EBRADI - Escola Brasileira de Direito. 

Autor do Blog: CABIDE MENTAL

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