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CABIDE MENTAL O fim do mundo de novo

17/12/2012 por René Zamlutti Jr.

 

No próximo dia 21 de dezembro, o mundo acabará de novo.


            Em razão de uma interpretação qualquer de um dos calendários maias, alguns “estudiosos” conseguiram calcular o fim do mundo com precisão. Ele ocorrerá impreterivelmente na sexta-feira. Não podia pelo menos esperar o feriado?


            Para quem acredita no calendário maia, os sinais – aqueles que sempre prenunciam o final dos tempos – são inequívocos: Silvio Santos faliu um banco; a cantora Sandy deu a entender que aprecia práticas sexuais que, digamos, não combinam com sua imagem pública; o Brasil se tornou credor do FMI. O coronel Telhada, ex-comandante da Rota, orgulhosamente responsável por 36 mortes, será indicado pelo PSDB para integrar a Comissão de Direitos Humanos. Sim, o fim está próximo.


            Não é a primeira vez que o mundo acaba. Pelo visto, ele acaba de vez em quando. Ou deveria, segundo as profecias.


            Na virada do ano 999 para o ano 1000, boa parte da Europa acreditava que o Juízo Final aconteceria. Houve penitências, autoflagelações e caridades de última hora – e nada aconteceu. Quem doou seus bens (muitas vezes para a Igreja) não pôde pedir devolução.


            Em 1910, muita gente achava que a passagem do cometa Halley pela Terra extinguiria a vida no planeta. Não aconteceu nada. Quando o Halley passou por aqui novamente, em 1986, já tinha perdido a moral, não assustou ninguém.


            Numa das muitas interpretações das profecias de Nostradamus – cuja linguagem é tão genérica e simbólica que se poderia encaixar até a vitória do Corinthians em Tóquio em alguma delas – o mundo acabaria em 1987, em razão de uma guerra nuclear. Lembro-me bem disso, eu era criança e passei o ano com a respiração presa (o mundo acabaria como no terrível filme The Day After, e eu morreria carbonizado e virgem) – só respirei aliviado em 1º de janeiro de 1988.


            Na passagem de 1999 para 2000, o “bug do milênio” destruiria toda a rede mundial de computadores, haveria um colapso global. Algum bocó conseguiu divulgar o boato de que na Bíblia constava a frase “A mil chegarás, de dois mil não passarás” (não estudo a Bíblia, mas alguns estudiosos que conheço me disseram que a frase não está lá). Não aconteceu nada.


            Essa história de fim do mundo seria divertida se tanta gente não acreditasse nela de verdade. Em maio deste ano, a BBC publicou um estudo realizado pela Ipsos Global Public Affairs (instituto de pesquisa sediado em Nova York) em mais de 20 países, que mostrou que quase 15% da população mundial acreditam que o fim do mundo acontecerá durante suas vidas, e que 10% acreditam que o fim do mundo acontecerá em 2012. Pelo visto, para essas pessoas, não importa o fato de que todas – TODAS – as previsões anteriores falharam. É incompreensível. Talvez em seus íntimos não faça sentido que o mundo continue após suas mortes.


            Será interessante ouvir as explicações dos profetas do apocalipse no dia 22 de dezembro. Serão, é claro, as mesmas dadas pelos profetas que diziam que o mundo acabaria nas ocasiões anteriores. As explicações – sempre as mesmas – foram sintetizadas brilhantemente pelo astrônomo Carl Sagan, no artigo Um sermão de domingo:

“Uma religião proeminente nos Estados Unidos previu com toda a certeza que o mundo acabaria em 1914. Ora, 1914 veio e se foi, e – embora os eventos daquele ano por certo tivessem alguma importância – o mundo, tanto quanto posso perceber, parece não ter chegado ao fim. Há pelo menos três respostas que uma religião organizada pode apresentar diante da falha numa profecia tão fundamental. A primeira seria alegar: ‘Oh, dissemos ‘1914’? Desculpem, queríamos dizer ‘2014’. Houve um pequeno erro de cálculo. Esperamos que isso não lhes tenha causado incômodos’. Mas não o fizeram. Poderiam ter dito: ‘Bem, o mundo deveria ter acabado, mas nós rezamos muito e pedimos a Deus, de modo que Ele poupou a Terra’. Mas não o fizeram. Em lugar disso, saíram-se com algo muito mais engenhoso. Anunciaram que o mundo havia de fato acabado em 1914, e se o resto de nós não notou é porque não quis ver.”

            É surpreendente que, mesmo diante de um histórico quase interminável de profecias furadas, uma em cada dez pessoas acredite que o mundo terminará em 2012. A base científica para essa crença é, evidentemente, nenhuma. Não há um único cientista sério, ou mesmo algum especialista na cultura maia, que defenda esse despropósito. A “ciência” que justifica essa patacoada é apenas a internet, esse poço de “verdades” compradas, vendidas e espalhadas sem o menor critério ou senso crítico. A única diferença entre este fim do mundo e os anteriores é que o atual gerou um filme horroroso estrelado pelo John Cusack. Aguardemos para ver o que dirão os arautos do fim do mundo da vez no próximo dia 22.


            Enquanto isso, se você for um dos que acreditam que o mundo acabará na sexta-feira, minha sugestão é: não perca tempo! Compre uma Ferrari a prestações (você só pagará a entrada), confesse à esposa que está apaixonado pela vizinha personal trainer de 23 anos, torre suas economias, vá a Paris (passagem na primeira classe, é claro), beba aquele vinho de dez mil reais que você jamais se atreveria a comprar, enfim, viva como se não houvesse amanhã – porque não vai haver mesmo.


            Mas lembre-se que os maias não existem mais – se você acordar no dia 22 endividado e falido, com a esposa pedindo divórcio e pensão e o namorado da vizinha (lutador de MMA) querendo ter uma “conversinha” com você, não haverá a quem reclamar.
         

Comentários

  • Aparecida Ana
    18/12/2012 00:26:44

    Acho que o essencial é evitar aglomerações na data fatídica, porque muitas pessoas estarão com medo e até o estouro de um foguete pode fazer com que entrem em pânico. O pânico, quando generalizado, é deveras perigoso.

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RENÉ ZAMLUTTI JR.

René Zamlutti Jr.

 

Procurador do Estado de São Paulo, especialista, mestre e doutor em Direito Constitucional pela PUC/SP e professor da USJT e da EBRADI - Escola Brasileira de Direito. 

Autor do Blog: CABIDE MENTAL

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