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CABIDE MENTAL Morrer em Santa Maria

31/01/2013 por René Zamlutti Jr.

Como não há desfecho possível, o circo depravado da mídia
percorre sua própria fita de Moebius, voraz e desorientado,
dando voltas e mais voltas sem chegar a lugar algum.

 

Não se fala em mais nada. Não se pensa em mais nada. Não se discute mais nada.

     E talvez seja o momento em que o silêncio se faz mais necessário.

     Paradoxalmente, diante do indizível, parece que todo mundo tem algo a dizer. Ou a gritar, porque nessas horas a histeria mostra todos os seus dentes.
     O seu filho/vizinho/namorado/irmão/primo/melhor amigo sai para uma balada e diz "até amanhã, porque vou chegar tarde e você vai estar dormindo". E da próxima vez que você o vê, ele está carbonizado ou num saco plástico e não é mais uma pessoa, é um número, uma estatística, um nome citado numa reportagem de televisão. E enquanto você tenta assimilar que uma parte sua também morreu em Santa Maria, um repórter imbecil enfia o microfone na sua cara e pergunta "como você está se sentindo?"
     E porque mais de 200 jovens morreram e é preciso racionalizar o que, no fundo, não tem sentido, a tragédia é destrinchada, revirada, dissecada e analisada por "especialistas" que, até o dia anterior, nunca tinham visto nada igual. E o sono da razão gera os monstros de sempre.
     Mas não há o que explique. As causas podem ser encontradas. A falha, as falhas. Mas isso não consola, não esclarece e, principalmente, não dá ao drama o desfecho que permite superá-lo. É isso o que se busca: a conclusão, o final. E ele não existe.
     Como o desfecho não é possível, o circo midiático percorre sua própria fita de Moebius, voraz e desorientado, sem chegar a lugar algum. Diante do vazio que se segue à tragédia, só resta aos jornais e à televisão repetir o fato ad aeternum et ad nauseam, realimentando-se dele como se fosse o fígado de Prometeu. Não explica, não justifica, não redime e não consola. Mas prende a atenção, que é o que interessa.
     Um site divulga as fotos do local após o incêndio; um advogado vocifera num programa de TV, delirando de forma quase ininteligível; um cartunista idiota faz uma charge infeliz e insensível; um jornal relembra "os piores incêndios da história". O sofrimento de parentes e sobreviventes é explorado à exaustão. Não ajuda em nada, mas movimenta as engrenagens desse absurdo teatro do patético. Ou desse patético teatro do absurdo.    
     E a cada notícia vazia, a cada "relato de sobrevivente", a cada "análise de especialista", a tragédia se repete, os mortos morrem outra vez, e aos amigos e parentes, que também morrem de novo, o luto é negado. Em Santa Maria a morte é plural, um gerúndio interminável.
     As autoridades cumprem seu papel no sinistro valdeville. Prometem investigar, empurram a responsabilidade de um para outro, reclamam da politização do fato. E, claro, começam a fiscalizar todas as outras boates do país, como se fosse uma grande novidade o fato de que praticamente todas estão em condições idênticas ou similares às da casa incendiada. A fiscalização, como sempre, não vai dar em nada. Tudo ficará regular pelos próximos meses, até a próxima tragédia - que não ocorrerá numa casa noturna, mas num barco (alguém lembra do Bateau Mouche?), num jogo de futebol, num grande show ou numa igreja. E o ciclo se reiniciará.
     Completando esse circo depravado, os onipresentes desocupados que veem no local do incêndio a Meca do mês fazem sua já tradicional romaria. Acendem velas, levantam cartazes, choram compulsivamente pelos desconhecidos (principalmente se há um repórter por perto), exigem providências das "autoridades", embora não saibam exatamente quais. Eles são uma confraria à parte, uma comunidade imersa em seu próprio mundo, "puxa, eu não te encontrava desde o julgamento dos Nardoni!". Porque, para eles, só há vida na presença da morte.
     E porque a mídia, as autoridades e os desocupados não vivem sem que o sangue corra, porque a história a ser contada precisa ser cheia de som e fúria, é preciso prender os vilões. Mesmo que não haja fundamento jurídico para as prisões, é necessário que a sociedade veja os donos da boate e os membros da banda algemados, atrás das grades. O estardalhaço é fundamental. E como ocorre em toda prisão midiática, o bom senso fica de fora e ninguém pergunta: "Mas e os bombeiros? E o prefeito? E os seguranças que, no início, não deixaram as pessoas saírem da boate? Eles não vão presos? E por que é mesmo que esses outros sujeitos estão presos?" - porque o que vale para Chico deveria valer para Francisco, mas não é assim que as coisas funcionam nessa ópera farsesca.
     É um sórdido cabaré de iniquidades armado em torno das vítimas, que, na sabedoria dos mortos, guardam seu silêncio. Enquanto nós, os vivos, ruidosamente reviramos as cinzas do incêndio, sem nada encontrar, nelas ou em nós.
     Caetano estava certo.
     Nós somos uns boçais.

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RENÉ ZAMLUTTI JR.

René Zamlutti Jr.

 

Procurador do Estado de São Paulo, especialista, mestre e doutor em Direito Constitucional pela PUC/SP e professor da USJT e da EBRADI - Escola Brasileira de Direito. 

Autor do Blog: CABIDE MENTAL

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