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CABIDE MENTAL Jesus no Mundo Maravilha

23/10/2012 por René Zamlutti Jr.

“A minha mãe de criação foi vítima de latrocínio. Na época eu tinha de 16 para 17 anos e tentei algumas vezes visitar o sujeito, um deles foi preso, na época no DEIC. Sinceramente, a minha intenção era matar ele lá dentro. Eu ia matá-lo, você não tenha dúvida, meu intuito era pegar ele. Não vou te falar que sou um gênio, mas a gente assiste alguns filmes, você tem algumas ideias, e eu assisti a um filme, tive um ideia lá – e eu fiz. Era um faroeste que tinha uma bíblia e um revólver, e aquilo me inspirou. Eu fiz. Arrumei uma arma, comprei, e fui no DEIC pra matar o cara. E funcionou, até cinco metros da cela dele. Eu sentia o gosto da vingança. Aí o tira tava saindo e me reconheceu. Frustrou meu plano, quase acabei ficando preso, mas como o delegado que atendeu a ocorrência da minha mãe tava lá: ‘Já que você tanto quer caçar bandido, por que não entra pra polícia?’ – e aquilo, eu falei ‘esse delegado tem razão! Vou ser polícia. E bandido eu vou caçar’. E cacei, durante 25 anos. Cacei. Todos que eu vi eu cacei. O que eu deveria e mais por alguém. Eu nunca deixei a desejar, graças a Deus.”

Esse depoimento, dado pelo ex-policial Lúcio, abre o documentário Jesus no Mundo Maravilha (e outras histórias da Polícia Brasileira), de Newton Cannito, que se debruça sobre o cotidiano de três policiais expulsos da corporação.
Lúcio, o “Charles Bronson de Itaquera”, afirma, sem o menor constrangimento, ter matado “mais de 80 e menos 100 bandidos”. Não demonstra qualquer arrependimento por essas mortes e, ao longo do documentário, trata de temas como a tortura e homicídio de marginais com leveza e bom humor.

Jesus, outro policial expulso da corporação, vive deprimido porque o militarismo é o centro da sua existência. A depressão o levou a tentar o suicídio. Ele não entende por que foi exonerado, e luta na Justiça para ser reintegrado à polícia. Enquanto isso não acontece, trabalha como segurança em vários locais, dentre os quais o Mundo Maravilha, o parque de diversões que dá nome ao filme.

O terceiro policial, Pereira, tornou-se pastor evangélico após cumprir pena e consegue enxergar a fragilidade moral do papel de matador que assumiu antes de ser preso.

Paralelamente a essas três histórias, um casal que teve o filho assassinado por um policial (segundo a mãe, por ser negro) tenta conviver com a dor da ausência e com a luta para que o matador de seu filho seja preso.
Completando o quadro, o Palhaço Maravilha, uma presença felliniana que perambula pelo parque enquanto o documentário é feito, transmite uma imagem de inocência quase infantil, até revelar, em determinado momento, uma ambição tão ingênua quanto oportunista.
Essas personagens seguem seus próprios caminhos ao longo do documentário, rumo a um encontro difícil que, embora constrangedor, não traz qualquer espécie de redenção ou aprendizado aos envolvidos. Confrontados com as palavras severas e o olhar duro dos pais do jovem assassinado, os ex-policiais sentem o momentâneo desconforto de enxergar o marginal, o bandido, o outro, não como um alvo, mas como um ser humano.
Mas essa fugaz colisão de mundos não gera nenhuma explosão. Os pais que perderam o filho não passarão a entender melhor o mundo dos ex-policiais, que, por sua vez, não deixarão de ver a “bandidagem” como escória a ser eliminada. No incômodo encontro produzido por Cannito, ao qual não faltaram os “representantes dos direitos humanos” – cujo discurso, tão correto quanto vazio, não alcança as realidades dos envolvidos nas tragédias, sejam as vítimas ou os algozes – não há qualquer troca verdadeira, além do curto momento de amargura e constrangimento que, fica bem claro, não passará disso – um momento.
Que talvez tenha repercutido mais profundamente em uma única pessoa – o hoje pastor Pereira, que, ao ouvir do pai do jovem morto: “Não leve a mal, não, mas eu sei lá por que você está com essa bíblia hoje aqui? De repente você cometeu um erro grave e se arrependeu”, contorce o rosto e baixa os olhos, no que é provavelmente o momento de maior humanidade de todo o filme.
Cannito transmite essa incomunicabilidade, em que todos falam, mas ninguém parece disposto a ouvir, sobrepondo às palavras ora uma sonata de Mozart, ora a abertura da ópera Guilherme Tell, de Rossini. A ironia, por sinal, é a linha condutora da narrativa, e a dissonância entre o humor da forma e a gravidade do conteúdo gera uma intencional sensação de perplexidade. A opção de narrar a quase totalidade da história num parque de diversões pobre e decadente fortalece a sensação de irrealidade.
Cannito explica que usou o humor porque queria despertar o choque, porque a forma do drama social está tão desgastada que perdeu o impacto, e que “para revelar novamente essa realidade cruel era preciso mostrá-la em uma nova forma” (leia a entrevista na íntegra aqui). Sem dúvida, seu objetivo foi alcançado.
“A polícia perdeu a moral totalmente, tudo devido às emissoras de televisão. Ocorrência policial não pode ser filmada. Na nossa época nós impúnhamos moral e ninguém falava nada para nós”, afirma um policial aposentado, defensor enfático da pena de morte e dos esquadrões da morte (enquanto o filme mostra cenas de tortura e abuso policial na Favela Naval, em Diadema, registradas em 1997).
“Foram 25 anos de guerra honesta, e eu nunca desisti”, diz Lúcio. E resume numa frase a convicção de muitos, não só policiais: “Hoje, infelizmente, o Estado não quer que você faça nada mais do que o que está na lei. Por isso que aumenta a criminalidade”.

Feito em 2007, Jesus no Mundo Maravilha é indispensável para quem quer conhecer melhor a mentalidade de uma parte dos membros da polícia, que enxergam a lei não como fundamento, e sim como empecilho à sua atuação. Claro que nem todos pensam assim. Mas o universo mostrado no filme retrata a visão de mundo de muita gente – policiais e não policiais. É o que basta para confirmar a relevância da obra.

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RENÉ ZAMLUTTI JR.

René Zamlutti Jr.

 

Procurador do Estado de São Paulo, especialista, mestre e doutor em Direito Constitucional pela PUC/SP e professor da USJT e da EBRADI - Escola Brasileira de Direito. 

Autor do Blog: CABIDE MENTAL

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