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CABIDE MENTAL E agora, José? E agora, você?

17/01/2013 por René Zamlutti Jr.

Você não foi sorteado na loteria da vida. Nasceu no Brasil, negro e muito pobre.
     Felizmente, você e seus irmãos tiveram uma mãe que, embora pobre, se esforçou para dar aos filhos carinho, atenção e o que sua experiência de mulher simples entendia ser uma boa educação. A duras penas, você, que nunca gostou muito de estudar, concluiu o ensino fundamental, numa escola pública que não ensinou muito, porque, quando havia professores, eles não conheciam bem as matérias, eram desinteressados e não tinham o respeito dos alunos.
     Embora você nunca tenha, na infância e na adolescência, se envolvido com o crime, muitos dos seus amigos de bairro viraram aviões do tráfico. Você não deixou de falar com nenhum deles, manteve as amizades, mas preferiu trabalhar como empacotador num supermercado de um bairro chique. Você sempre teve muito medo da polícia, principalmente depois que seu pai, um pedreiro que tinha horror a bandido, foi morto numa chacina num boteco ao lado de casa, com outras seis pessoas. Todo mundo no bairro dizia que foram policiais à paisana que deram os tiros. O crime nunca foi esclarecido. Você tinha 13 anos.
     A polícia parava você com frequência. Durante toda a adolescência foi assim. Você nunca foi espancado, mas sempre foi tratado como "bandidinho" e ouviu muitos gritos, muitas ofensas dos policiais. Sempre de cabeça baixa, apavorado e quieto, com medo de ter o mesmo destino de seu pai.
     Às vezes você acompanhava sua mãe quando ela fazia a faxina em alguns apartamentos caros do bairro chique, embora as patroas claramente não gostassem da sua presença. Você até chegou a fazer amizade com o filho de uma das patroas da sua mãe, um garoto loiro que parecia muito bacana.
     Um dia, enquanto você conversava com o garoto no playground do prédio, esperando a mãe terminar o serviço, ele lhe ofereceu um baseado. Seus amigos de bairro já haviam oferecido antes, mas você sempre preferiu recusar. Dessa vez, sem saber bem por quê, você aceitou. Talvez fosse a tranquilidade do amigo, o ambiente seguro e tão diferente da sua realidade. Mal o garoto acendeu o baseado, o porteiro do prédio apareceu, viu o cigarro e começou a berrar com você. Foi um escândalo. O garoto disse que você tinha lhe oferecido o baseado. Você, é claro, negou e disse a verdade. As mães foram chamadas. Ninguém acreditou em você, nem mesmo o porteiro, também negro, morador do bairro vizinho ao seu. A mãe do garoto ameaçou chamar a polícia. Você disse que tudo bem, mas sua mãe, em prantos, se ajoelhou aos pés da patroa e lhe implorou que não fizesse isso. Você sentiu raiva e pena da mãe, daquela humilhação desnecessária. Você e sua mãe foram embora sob xingamentos. Sua mãe nunca mais voltou àquele prédio.
     A história do baseado chegou ao supermercado (a ex-patroa da mãe fazia compras e viu você empacotando as mercadorias no caixa) e você perdeu o emprego. Logo ficou claro que você não conseguiria outro trabalho naquele bairro.
     Você via seus amigos traficantes com roupas bacanas, tênis novos, as meninas do bairro caídas por eles. Como não aparecia nenhum emprego, você decidiu aceitar o convite dos seus amigos (alguns já haviam ascendido no mundo do crime, eram temidos e respeitados) e se tornar um avião do tráfico. Você nunca segurou uma arma, seu trabalho era vender umas trouxinhas de maconha na boca e só. Uma vez, um carro esporte novinho, cheio de playboys, parou na boca e comprou quase toda a droga. Você teve a impressão de que o filho da ex-patroa estava no carro.
     Você nem pensava em ficar muito tempo nessa vida, era só um bico até arrumar um emprego decente.      Mas você foi preso em flagrante menos de dois meses após começar a vender a maconha. Dessa vez os policiais não se limitaram a xingar, desceram a porrada sem dó nem piedade.
     Você foi jogado numa cela lotada de uma delegacia. O calor era insuportável. Você só conseguiu tomar banho depois de três semanas. Para dormir, era necessário fazer um revezamento, porque não havia espaço para que todos se deitassem ao mesmo tempo. Passaram-se meses até que você fosse transferido para um CDP, onde dividiu outra cela (também lotada) com latrocidas, assassinos e estupradores. Não foi uma convivência fácil. Mas foi um tremendo aprendizado sobre o mundo do crime. Você se tornou um especialista.
     Você só foi interrogado um ano e meio após a prisão. O processo se arrastou por mais dois anos. Você foi condenado por tráfico, e pegou a pena mínima - cinco anos. Mas, depois de cumprir a pena, você ainda teve de esperar quase três anos para ser colocado em liberdade. Você reclamava com os carcereiros, dizia que já tinha cumprido sua pena, mas eles respondiam que não podiam fazer nada.
     Você era outra pessoa quando saiu da prisão - amargo, embrutecido, habituado à violência. Ainda assim, você não quis voltar para o crime, foi procurar emprego. Mas ninguém dá emprego a ex-presidiário. Como você precisava sobreviver, reencontrou os amigos de infância e começou a assaltar. Você não tem mais medo de morrer - nem de matar. Se a sua vida não vale nada, por que a dos outros valeria alguma coisa?
     Numa madrugada, depois de beber e se drogar (agora você é um usuário contumaz, viciou-se na prisão),  você vê um carro de luxo parado no semáforo de uma rua deserta, com o vidro aberto. Você encosta ao lado da janela e aponta a arma para o motorista. Ele olha para você, assustado. É o filho da ex-patroa da sua mãe. Você berra: "Desce do carro!" Ele acelera.

*****

     Usei a palavra "você" 47 vezes no texto acima. Peço ao leitor que retorne ao início da narrativa e substitua "você" por "José". A concordância não se altera - o que vale para você, leitor, também vale para José. Mas a leitura será a mesma?
     E agora, José? E agora, você?

Comentários

  • NATALIA CARVALHO
    18/01/2013 15:25:21

    Fiquei,deveras, impressionada com esse texto. Leva-nos, com certeza, a refletir sobre o outro lado da violência: o lado do bandido. Este, muitas vezes, vítima de uma sociedade hipócrita e egocêntrica,que produz essa situação alarmante e que depois sai clamando que "bandido bom é bandido morto".Devemos olhar mais para o outro, mas não do alto de toda nossa história de conforto, mas usando da empatia e compreensão.

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RENÉ ZAMLUTTI JR.

René Zamlutti Jr.

 

Procurador do Estado de São Paulo, especialista, mestre e doutor em Direito Constitucional pela PUC/SP e professor da USJT e da EBRADI - Escola Brasileira de Direito. 

Autor do Blog: CABIDE MENTAL

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