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CABIDE MENTAL Datena em três atos

04/12/2012 por René Zamlutti Jr.

Primeiro Ato:

 

“... E espero que a imprensa não atrapalhe mais esse caso. A imprensa, não. Alguns, alguns repórteres e apresentadores que se meteram a negociadores da polícia e não são negociadores coisa alguma. São apresentadores, são repórteres, não têm o direito de se intrometer numa negociação policial. Não têm mesmo! Não têm esse direito! Doa a quem doer. (...) E sempre critico quem faz besteira, como a que você fez hoje de novo. Porque isso aí já podia ter terminado, o próprio policial disse isso. Já estava combinado que ele ia se entregar, mas depois de uma entrevista, não quis se entregar mais. De repente está falando em todo lugar, não se entrega mesmo. Então isso é uma insanidade, uma insanidade! Para qualquer pessoa que você perguntar se é uma insanidade uma pessoa que não é capacitada para conversar com um sujeito que está sequestrando duas pessoas, sob fortíssimo stress, com duas armas e um saco cheio de balas... qualquer pessoa que tenha competência para isso vai dizer que é uma coisa errada!”

 

            José Luiz Datena, apresentador do programa Brasil Urgente, em outubro de 2008, quando ainda estava em andamento o sequestro da menina Eloá Cristina Pimentel, que terminou de forma trágica, com a morte da menina, em parte por conta da incompetência da polícia em lidar com a situação, em parte por conta da cobertura irresponsável e sensacionalista da imprensa, especialmente da apresentadora Sônia Abrão, que transformou o sequestrador, Lindemberg Fernandes Alves, numa estrela midiática (veja o vídeo aqui).

 

Segundo Ato:

 

            “...Eu exijo, eu EXIJO uma resposta da Polícia Militar, sob pena de eu não defender mais ninguém aqui! Eu exijo AGORA uma resposta da Polícia Militar! Do comando da Polícia Militar ou de alguém. (...) DEIXA EU FAZER AQUI MEU DISCURSO! (...) Eu EXIJO uma resposta, mas NESSE EXATO MOMENTO, da Polícia Militar! (...) Não é possível! Porque senão eu vou parar de defender todo mundo, e vocês é que se danem! (...) Onde está o comando da Polícia Militar? Tá de folga no feriado? (...) Vem cá, o GOVERNADOR tá de férias também? Tá de folga o governador, que é a principal autoridade do Estado? O Secretário também tá de folga? Nosso cinegrafista foi agredido pelas costas! Quer dizer que é isso o que a gente ganha por defender uma corporação que é gloriosa? Levar uma cacetada pelas costas? É isso o que a gente ganha? É ver uma mulher sendo algemada covardemente? É isso o que a gente ganha? E não tem... ATÉ AGORA ALGUMA AUTORIDADE LIGOU AQUI PRA FALAR? ALGUMA AUTORIDADE LIGOU AQUI PRA FALAR? Isso é uma covardia desgraçada! E se continuar desse jeito, eu não defendo mais porcaria de ninguém! Não defendo mais ninguém!”

 

            José Luiz Datena, em 20.11.2012, apresentando o Brasil Urgente, revoltado porque o cinegrafista do seu programa foi agredido pelas costas por um policial militar enquanto filmava uma operação da Polícia Militar (quem ainda tiver paciência pode ver o vídeo aqui).

 

Terceiro Ato:

 

            “Ouça sua mãe, que é Deus que está falando através dela. Vamos saindo, Joel. (...) Você já ta saindo, Joel? (...) É minha responsabilidade, pode sair. Pode confiar no amigo. Vamos, Joel! Já tá saindo? Isso, Joel, vamos saindo, Joel. Vamos saindo que você vai me fazer o cara mais feliz do mundo e você vai ficar mais tranquilo. Quero ver você sair na porta, Joel.”

 

            José Luiz Datena, em 28.11.2012, negociando a rendição de um homem que mantinha a mãe a esposa reféns numa casa em Diadema, em transmissão ao vivo do programa Brasil Urgente. A negociação, feita, segundo o apresentador, a pedido da polícia, durou mais de vinte minutos. O sequestrador se entregou à polícia (se ainda sobrou estômago depois dos vídeos anteriores, pode-se visualizar a parte final da negociação aqui).

 

            José Luiz Datena e seu programa Brasil Urgente seguem uma linha de jornalismo (ou entretenimento travestido de jornalismo) que mostra o “mundo-cão”, exalta toda e qualquer ação da polícia, seja ela legítima ou não (a não ser quando há provas incontestáveis de ilegalidade, ocasiões em que os programas televisivos dessa natureza, seguindo a lógica da própria PM, criticam o policial contraventor, nunca deixando de ressaltar o caráter de “exceção” do caso) e não vê nenhum problema em humilhar e violar direitos de pessoas detidas, porque dá audiência e o público adora (embora muita gente deteste isso, o fato é que bandidos têm direitos, e a polícia tem o dever funcional de respeitá-los - o que raramente acontece).

Trata-se de uma antiga tradição brasileira. Jacinto Figueira Júnior, “o homem do sapato branco”, inaugurou o estilo nos anos 60. Nos anos 70 e 80, Luiz Carlos Alborghetti apresentava, primeiro no rádio e depois na televisão, o programa Cadeia (posteriormente, Cadeia Nacional). Nos anos 90, o jornal Notícias Populares e o noticiário Aqui Agora seguiram a mesma linha. Ratinho, Marcelo Rezende, Gilberto Barros e Datena, dentre outros,  deram sequência ao formato.

Há muito público para programas assim. Não é problema meu. Mas quando apresentadores de televisão começam a negociar a vida de reféns, o problema passa a ser meu. Porque eu posso ser sequestrado amanhã, e não quero que minha vida fique nas mãos do Datena, da Sônia Abrão ou do Marcelo Rezende.

A pedido da PM, a negociação foi conduzida por um sujeito que defende diariamente que a polícia deve agir de forma truculenta com criminosos. Por alguém que ofende diariamente bandidos, chamando-os de vagabundos, sem-vergonha, covardes etc. E a polícia colocou "uma pessoa que não é capacitada para conversar com um sujeito que está sequestrando duas pessoas, sob fortíssimo stress" - para repetir as palavras usadas pelo próprio Datena em 2008. Se o sequestrador fosse um criminoso "profissional" e começasse a gritar para o Datena "me chama de vagabundo agora!", o que ele iria fazer?

O sequestro teve um final feliz por puro acaso. Sorte. Fortuna. Dê-se a isso o nome que quiser. Mas, com toda a certeza, não foi a habilidade de Datena que salvou a vida das reféns.

Repetindo o tempo todo que só aceitou negociar com o sequestrador porque a polícia lhe pediu isso, Datena afirmou, posteriormente, que estava “profundamente arrependido” de ter aceitado o pedido. Disse ainda que não negocia com bandidos, mas que o sequestrador, nesse caso, era uma pessoa honesta, um trabalhador que estava desesperado etc. etc. Isso torna o perigo para as vítimas menor? Ou maior?

A despeito de todas as desculpas, justificativas e supostos arrependimentos, o acontecimento é marcado por erros crassos. Datena sabia-se despreparado para lidar com a situação, mas aceitou fazê-lo. Por vaidade, arrogância ou audiência, colocou em sério risco a vida de pessoas que não conhecia. Se é fato que a polícia lhe pediu que o fizesse, era seu dever, como cidadão, recusar. Como o próprio apresentador afirmou em 2008, ele não tinha o direito de interferir. Se alguém discordar, faça o favor de reler o Primeiro Ato.

Datena não é apenas destemperado. Como muitas celebridades televisivas, ele parece esquecer que existe um mundo para além de seu programa. Embora venham ocorrendo em média dez mortes por noite nas periferias de São Paulo, quando seu cinegrafista recebe um empurrão de um policial, ele quer que o governador, o secretário de segurança pública ou “alguma autoridade” pare imediatamente o que quer que esteja fazendo para telefonar para o seu programa e lhe dar explicações, “sob pena de não apoiar mais ninguém”. Policiais sérios e honestos podem viver perfeitamente bem sem o apoio de Datena. E, por mais que isso possa parecer surpreendente para o apresentador, as autoridades públicas não se reúnem ao fim de cada dia para assistir ao Brasil Urgente.

Quanto à atuação policial nesse caso, deveria render no mínimo a exoneração do comandante da operação. Um policial com uma equipe treinada para negociações atribui a um apresentador de televisão, sem o menor conhecimento técnico sobre o assunto, e conhecido por sua truculência e seu destempero, a tarefa de negociar a vida de duas pessoas com um sequestrador emocionalmente instável. O desfecho importa, é claro. Se as reféns tivessem sido mortas ou feridas, o comandante da operação com certeza seria exonerado. Mas o final feliz retira a responsabilidade do policial pela conduta absurda e pelo risco a que expôs as reféns? De jeito nenhum. Detalhe: questionada pela UOL, a PM se recusou a informar o nome do comandante da operação, afirmando que “não fala mais sobre o assunto”.

Como ninguém se feriu e a PM se recusa a dar explicações à sociedade - numa atitude corporativista e ilegal - , imagino que ninguém será punido. O que significa que agora, além do já natural medo que temos de ser sequestrados, ainda teremos o receio de que, se isso acontecer, a polícia coloque a Palmirinha, o Galvão Bueno ou o Bozo para negociar nossas vidas.

Comentários

  • Junior
    04/12/2012 14:39:21

    Datena era bom quando só trabalhava com esportes. Caiu nessa área policial por grana, uma pena. Quanto a polícia, realmente deveria exonerar este comandante.

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RENÉ ZAMLUTTI JR.

René Zamlutti Jr.

 

Procurador do Estado de São Paulo, especialista, mestre e doutor em Direito Constitucional pela PUC/SP e professor da USJT e da EBRADI - Escola Brasileira de Direito. 

Autor do Blog: CABIDE MENTAL

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