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CABIDE MENTAL Carta a um vira-latista brasileiro

19/11/2012 por René Zamlutti Jr.

 

Prezado vira-latista:

 

            Sei que o vira-latismo brasileiro ganha adeptos a cada dia, mesmo com o Brasil crescendo e melhorando. Como não sou um vira-latista, e como o momento que o país vive não me parece favorável ao vira-latismo, pergunto-lhe se você sabe a razão de tanto sucesso.
            Tentei encontrar nas origens próximas e remotas do vira-latismo um motivo, talvez puramente psicológico, que me explicasse por que, afinal de contas, o número de vira-latistas tem aumentado tanto. Mas confesso que a pesquisa histórica não esclareceu minhas dúvidas.
            A origem próxima está, como você bem sabe, no artigo Complexo de vira-latas, do Nelson Rodrigues, publicado na revista Manchete em 1958 às vésperas da estreia do Brasil na Copa. Claro que o Nelson tratava de futebol ao afirmar que “por ‘complexo de vira-latas’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol” e que “o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia”. Mas ao mesmo tempo não era só sobre o futebol que o Nelson deitava seu olhar crítico. Tanto que a expressão “complexo de vira-latas” se consolidou e o vira-latismo encontrou seu nome de batismo. Ah, e os vira-latas brasileiros ganharam sua primeira copa.
            Sabemos todos, é claro, que, apesar de batizado apenas em 1958, o vira-latismo tem origens mais remotas. Desde o descobrimento, o Brasil tem inúmeros expoentes do movimento, que, embora tenham enriquecido às custas da colônia, não pouparam críticas ao povo, à terra e aos costumes não só dos índios, como também dos brasileiros “civilizados” que vieram após a colonização. Nem falo de portugueses como Carlota Joaquina, que, ao voltar para Portugal em 1821, bateu as sandálias contra um canhão do navio em que viajava para tirar os últimos grãos de pó brasileiro dos pés, dizendo: “Afinal, vou para terra de gente”. A questão são os próprios brasileiros que, desde o início da nossa história, olham para si mesmos com um inexplicável desprezo. O Brasil foi marcado pelo complexo de vira-latas desde seu nascimento, ainda que esse sentimento só tenha sido batizado bem mais tarde.
            Ok, podemos até admitir que nossos primórdios não foram lá essas coisas e que a esculhambação marcou o início do Brasil. Mas parece que a auto-rejeição ficou entranhada no inconsciente de muita gente. E hoje, meu caro vira-latista, já não temos o menor motivo para manter essa autoimagem distorcida.
            É claro que nós temos os nossos problemas, e fechar os olhos para eles, adotando um ufanismo acrítico similar ao que os militares nos tentaram empurrar durante a ditadura, é uma péssima ideia. Somos campeões na desigualdade, nossa carga tributária é altíssima e não vemos retorno algum, continuamos a patinar em áreas essenciais como saúde, educação e segurança, temos níveis de corrupção patológicos e uma estrutura burocrática mastodôntica. Tudo isso – e muito mais – é verdade. Mas ainda assim, amigo vira-latista, estamos vivendo o mais longo período democrático de nossa história, o Brasil cresceu muitíssimo em setores cruciais na última década e meia, nossas instituições vêm se consolidando de maneira até então inédita entre nós, já não somos mais devedores do FMI, melhoramos nosso IDH, temos uma moeda estável e saímos quase ilesos de uma crise que tem devastado os EUA e a Europa. Ah, e nos tornamos a sétima economia do mundo. Não é pouca coisa, convenhamos...
            Ainda assim, os vira-latistas preferem olhar para a metade vazia do copo. Mais do que isso, enxergam nos EUA e na Europa o substrato da perfeição. Para o vira-latismo, não importa que o sistema eleitoral americano seja esdrúxulo, que o metrô de Nova Iorque seja uma porcaria (“ah, mas eles têm muito mais linhas e estações do que o de São Paulo”, gritam os vira-latistas), que o sistema financeiro tenha falhas estruturais aberrantes e que os bancos façam o que lhes der na telha. Não importa que, até o ano passado, os EUA não tivessem um serviço público de saúde. Não importa a pobreza endêmica que assola algumas regiões americanas após 2008 (“você está louco? Não há pobreza nos EUA!”, bradarão extremistas do vira-latismo). Não importa que a União Europeia esteja caindo aos pedaços (“ah, mas a Alemanha...”). Não importa nem mesmo que os EUA e os países europeus olhem para o Brasil de hoje com admiração e respeito. Para o vira-latismo, são apenas detalhes, porque o norte-americano e o europeu são pessoas essencialmente melhores do que o brasileiro.
            E aí chegamos ao ponto do vira-latismo que me causa maior perplexidade, meu caro amigo vira-latista, e que eu gostaria que alguém me explicasse. É essa ideia – que me soa esquisita – de que o brasileiro tem algo em seu DNA ou em sua cultura que o torna preguiçoso, indolente, vagabundo, malandro e safado por definição. O problema é que, embora eu conheça muitos brasileiros assim, também conheço muitos brasileiros empreendedores, esforçados, inteligentes, estudiosos e determinados. Também conheço muito estrangeiro vagabundo e malandro.
Então, esse discurso de que “brasileiro é tudo [preencha com seu adjetivo depreciativo predileto]”, que me parece estar na espinha dorsal do vira-latismo, e que sintetiza toda uma história de auto-rejeição (afinal, são brasileiros afirmando que “brasileiro é tudo...”) soa um pouco esquisito. Primeiro, porque os brasileiros com quem convivo não são necessariamente deste ou daquele jeito. Segundo, porque aceitar essa ideia significa aceitar que nossa cultura e/ou nosso DNA nos tornam naturalmente menos propensos ao trabalho e à seriedade. Só que nossa cultura e nosso DNA não surgiram do nada, são o resultado de muitas culturas e DNA’s – americanos, europeus, africanos, indígenas etc. Se o vira-latismo não atribui a esses outros povos as falhas que atribui aos brasileiros, como é que a mistura de tantas qualidades poderia gerar uma criatura feita só de defeitos?
É por isso, prezado vira-latista, que sua teoria não me convence. O Brasil só faz crescer, e a expectativa para as próximas duas décadas é a melhor possível. A ciência ainda não demonstrou que os brasileiros têm alguma característica genética e/ou cultural que os distinga dos outros povos em relação à disposição para o trabalho e à capacidade de se educar. Para o bem e para o mal, não somos melhores nem piores do que os outros – e, principalmente, os outros não são melhores nem piores do que nós.
É também por isso que não entendo como o vira-latismo continua a ganhar adeptos a cada dia. Talvez você consiga me explicar, amigo vira-latista. Agora, caso não consiga, fica aqui uma sugestão: se você não encontrar uma boa razão que justifique o vira-latismo, por que não abandona o clube? Se todos se livrarem dessa síndrome de vira-latas que assola o país, talvez consigamos encarar os muitos problemas que ainda desafiam o Brasil com mais objetividade e, quem sabe assim, com mais chances de encontrar algumas soluções. 
Do contrário, teremos de concluir que, se "brasileiro é tudo" etc. etc., então não há solução possível, pois somos geneticamente (ou culturalmente) destinados ao fracasso. Ficaremos mesmo como uns vira-latas, roendo uns ossinhos magrelos e achando que é só isso o que merecemos. Afinal, se até você, prezado vira-latista brasileiro, achar que o Brasil e os brasileiros não merecem ser levados a sério, por que alguém levaria você a sério?
Pense nisso.

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RENÉ ZAMLUTTI JR.

René Zamlutti Jr.

 

Procurador do Estado de São Paulo, especialista, mestre e doutor em Direito Constitucional pela PUC/SP e professor da USJT e da EBRADI - Escola Brasileira de Direito. 

Autor do Blog: CABIDE MENTAL

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