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CABIDE MENTAL Apocalipse Zumbi em São Paulo

07/01/2013 por René Zamlutti Jr.

"Apocalipse zumbi" é uma expressão típica da literatura e do cinema de horror para designar um cenário em que o planeta (ou um país ou região) é tomado por zumbis, que perseguem os (geralmente poucos) sobreviventes que preservaram sua humanidade.

     Paradoxalmente, a própria figura do zumbi, nos dias atuais, é a de um sobrevivente. Os outros monstros do cinema desapareceram. Os únicos, além dos zumbis, que ainda têm algum prestígio nas telas são os vampiros, mas estão de tal modo descaracterizados - agora eles são mórmons, vegetarianos e açucarados - que não podemos mais considerá-los uma forma de horror (a não ser no quesito qualidade).
     Os zumbis, contudo, persistem. Não há ano em que não saia um filme de zumbi. Talvez o sucesso do tema se deva à capacidade do zumbi de ser a perfeita metáfora da apatia e da alienação da vida moderna. No início do filme Madrugada dos mortos, de 2004, a protagonista, ao sair do trabalho, ignora notícias de distúrbios que chegam pelo rádio do carro (troca o noticiário por música), e ao chegar em casa, assiste a um reality show (o marido lhe diz: "Você perdeu, acabaram de eliminar o carteiro"). Quando os zumbis atacam, os sobreviventes conseguem se refugiar num shopping center. Nenhum desses elementos está no filme por acaso.
     Reality shows, shopping centers e zumbis - a síntese perfeita da apatia alienada da modernidade.
     O filme de zumbi é um laboratório sociológico. Embora sem a sutileza de livros como O senhor das moscas, de Willian Golding (prêmio Nobel de 1983) ou de filmes como A Experiência (o alemão Das Experiment, não confundir com o americano Species), os filmes de zumbi, a exemplo dessas obras, sempre mostram os conflitos entre os pequenos grupos humanos em situações extremas. O zumbi, sem personalidade ou identidade, é mero pretexto. Sintomaticamente, as visões da humanidade são sempre distópicas. Ganância, agressividade e egoísmo são características típicas dos sobreviventes nessas histórias. Não há otimismo quanto à natureza humana num filme de zumbi. Todo filme de zumbi é uma aula cínica sobre nossas mazelas.
     Infelizmente, São Paulo não precisa de um filme de zumbi. Temos nossa própria Zumbilândia, nosso Resident Evil nacional, nosso The Walking Dead paulistano. Não precisamos da ficção, temos a realidade. Temos a cracolândia.
     No dia 03 de janeiro, completou-se um ano do início da operação conjunta do Governo paulista e da Prefeitura de São Paulo para acabar com a cracolândia, chamada pomposamente de "Operação Integrada Centro Legal".
     Há um ano, quem passasse pela esquina da Rua Helvétia com a Alameda Dino Bueno, no centro de São Paulo, durante a noite, encontraria um cenário idêntico ao de qualquer filme de zumbi - pessoas esfarrapadas, sujas, vestindo trapos  mal pendurados em corpos esquálidos, cambaleando sem direção certa, devagar, com o olhar perdido. Crianças de 13, 14 anos, prostituindo-se por uma pedra. O crack era vendido e consumido livremente. O poder público havia abandonado a área. Não havia policiamento. A tolerância estatal com o tráfico era explícita.
     De uma hora para outra, atropelando uma agenda que vinha sendo desenvolvida por ONG's e entidades de saúde, Governo e Prefeitura decidiram acabar com o tráfico de crack de uma hora para outra. As razões dessa medida, polêmicas e complexas, não cabem aqui. A lógica empregada na operação foi de uma estupidez inominável - basta tirar o traficante e sumir com a droga, que o viciado procurará tratamento, que será colocado à sua disposição. Esse era o plano.

    Plano fadado ao fracasso, é claro. Apenas um ingênuo pensaria que, com o sumiço da droga, o usuário procuraria tratamento ao invés de buscar a droga em outro lugar - foi o que aconteceu. Como se não bastasse, os poucos usuários que tentaram buscar tratamento não o encontraram. O resultado foi o que qualquer pessoa razoável poderia prever - os usuários (e os traficantes) se espalharam, mas não desapareceram. Segundo levantamento do G1, "depois de a operação começar, o número de vias da região frequentadas por usuários saltou de 17 para 33" (leia a notícia aqui). Ou seja, em termos geográficos, a cracolândia dobrou de tamanho.

Passado um ano e constatado o fracasso da operação, o Governo volta a falar em internação compulsória dos frequentadores da cracolândia. De que adiantará? Depois de "limpo" e devolvido à sociedade, o que impedirá o drogado de voltar à cracolândia, se o que o levou à droga continuar em sua vida?
     O crack suga não só o corpo e a mente do usuário, mas sua própria humanidade, que se reduz ao mínimo. Qualquer política pública que tenha por objetivo combater o crack deve ter por foco principal o resgate dessa humanidade que a droga praticamente destrói. Espalhar os usuários pela cidade ou fazê-los "desaparecer" não resolve o problema, apenas o esconde.

     O drama da cracolândia é complexo e o Estado não pode se abster, como fazia antes. Mas é ingenuidade pretender acabar com o crack na sociedade de uma hora para outra. E, seja qual for a melhor forma de combatê-lo, o uso da força bruta contra o viciado - seja para interná-lo, seja para tirá-lo das ruas, "limpando-as" - não parece ser a solução.     

    Enquanto isso, na mais completa tradução de Sampa (bem mais do que a Rita Lee), a duas quadras da escura Rua Helvétia, a Sala São Paulo resplandece limpa, iluminada e policiada. Os viciados da cracolândia não ousam se aproximar, mesmo quando eventos grandiosos e sofisticados atraem a elite paulistana - alheia ao que se passa naquele canto mal iluminado - para o centro. São dois mundos distintos, separados por uma muralha tão imaterial quanto intransponível. Ambos habitados por seres humanos. Em ambos, cada qual a seu modo, há consciências entorpecidas. Em ambos há zumbis.
     A duzentos metros da cracolândia, os Noturnos de Chopin e Rachmaninov ressoam pelas paredes da Sala São Paulo, longe, muito longe do filme de zumbi que se desenrola na escuridão do entorno.

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RENÉ ZAMLUTTI JR.

René Zamlutti Jr.

 

Procurador do Estado de São Paulo, especialista, mestre e doutor em Direito Constitucional pela PUC/SP e professor da USJT e da EBRADI - Escola Brasileira de Direito. 

Autor do Blog: CABIDE MENTAL

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