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CABIDE MENTAL A voz da fome

14/02/2013 por René Zamlutti Jr.

 

Carolina de Jesus: a personificação
de um mundo de anônimos.

Ontem, 13.02.2013, a morte de Carolina Maria de Jesus completou 36 anos. Infelizmente, hoje em dia pouca gente se lembra desse nome. Carolina de Jesus, no entanto, escreveu uma das obras mais importantes da literatura brasileira - Quarto de despejo - diário de uma favelada, publicado originalmente em 1960.

     Quarto de despejo não figura em praticamente nenhuma lista das principais obras da literatura brasileira, mas - repito - é um dos livros mais importantes já escritos no Brasil. Porque, ao contrário dos autores da segunda fase do Modernismo brasileiro, que se notabilizaram por uma literatura marcada pela denúncia social (dos quais Graciliano Ramos, com o fundamental Vidas Secas, é o mais emblemático), Carolina de Jesus foi, simultaneamente, autora e personagem de sua obra.
     Nascida em 1914 em Sacramento (MG), negra e pobre, teve na infância uma professora (dona Lanita Salvina) que a aconselhou a ler e a escrever tudo o que pudesse. Embora só tenha chegado ao segundo ano do primário, Carolina apaixonou-se cedo pelos livros. 
     Ao chegar em São Paulo, em 1947, Carolina foi morar na favela do Canindé, na beira do rio Tietê, perto de onde fica o Estádio da Portuguesa. Trabalhou por algum tempo como doméstica, mas logo se tornou catadora de papel. Fechada, séria e circunspecta, criou sozinha três filhos, e nas horas vagas escrevia um diário, no qual registrava seu cotidiano e a realidade que a cercava.
     Em 1958, o jornalista Audálio Dantas visitou a favela para escrever uma reportagem sobre a comunidade que se expandia. Conheceu Carolina e esta lhe mostrou seu diário, que então já ocupava 20 cadernos. Dantas leu todos os cadernos e percebeu que a história que ele buscava já estava escrita. Trechos do diário foram publicados no jornal Folha da Noite em 1958 e na revista O Cruzeiro em 1959. No ano seguinte, o livro Quarto de despejo, editado pelo próprio Audálio Dantas, foi lançado.
     O livro foi um sucesso imediato. Numa época em que as edições eram lançadas em dois ou três mil exemplares, Quarto de despejo teve tiragem inicial de 10 mil exemplares, esgotados na primeira semana. As edições que se sucederam alcançaram 100 mil exemplares, e o livro foi traduzido em 13 idiomas.
     Carolina tornou-se celebridade, conseguiu sair da favela e deixar a miséria - mas não a pobreza - para trás. Mas suas obras posteriores - Casa de alvenaria (1961), Provérbios (1963), Pedaços da fome (1963) e Diários de Bitita (1982, póstumo) - não tiveram a mesma recepção de público e crítica. De "excitante curiosidade" (como a chamou o escritor Luís Martins), Carolina foi sendo deixada de lado. Morreu pobre e esquecida, em 1977, num sítio em que vivia na periferia de São Paulo.
     Embora seja um diário narrado em primeira pessoa, o personagem principal do livro não é Carolina - é a fome. A fome está, literalmente, em todas as páginas da obra, e cada página é um soco no (alimentado) estômago do leitor.
     Carolina trava uma luta diária, incessante e quase sempre perdida contra a fome. Sua principal preocupação é alimentar a si mesma e a seus filhos, o que nem sempre consegue. O fato de alguém nessa situação arrumar tempo para ler e escrever é absolutamente impressionante. A edição preserva os muitos erros ortográficos, o que só confere mais força e realismo ao texto. 
     Uma leitura puramente racional é impossível, tamanho o impacto de certos (e muitos) trechos: "Como é horrível ver um filho comer e perguntar: 'Tem mais?'. Esta palavra 'tem mais' fica oscilando dentro do cérebro de uma mãe que olha as panela e não tem mais"; após tentar convencer um jovem a não comer uma carne estragada que lixeiros haviam jogado no local, escreve: "Esquentou-a e comeu. Para não presenciar aquele quadro, saí pensando: faz de conta que eu não presenciei esta cena. Isto não pode ser real num paiz fertil igual ao meu. (...) No outro dia encontraram o pretinho morto. Os dedos do seu pé abriram. O espaço era de vinte centímetros. (...) Ninguém procurou saber seu nome. Marginal não tem nome."; "Fui no Frigorífico, ganhei uns ossos. Já serve. Faço uma sopa. Já que a barriga não fica vazia, tentei viver com ar. Comecei desmaiar. Então resolvi trabalhar porque não quero desistir da vida."; "Era 6 horas quando apareceu um carro. Era um senhor que havia casado e veio nos dar os sanduíches que sobrou. Eu ganhei alguns. Depois os favelados invadiram o carro. Os moços foram embora e disse que iam jogar os sanduiches no lixo que gente de favela são estúpidos e quadrupedes que estão precisando de ferraduras."
     A miséria está toda lá, em sua crua realidade: nos bêbados, nas brigas, nos assaltos, no racismo (sim, ele também se faz presente na obra), nos políticos oportunistas (que aparecem na favela quando há eleições) nas crianças precocemente amadurecidas ("Já que o meu filho já sabe como é o mundo, a linguagem infantil entre nós acabou-se"). Não há um único momento de alívio para o leitor. A brutalidade do que fizemos (e fazemos) a nós mesmos é exposta de forma avassaladora. Carolina não está só; ela é uma voz, mas é a voz de todos os anônimos que a rodeiam, irmanados na miséria.
     A verdadeira literatura é a que não nos permite passar incólumes. A leitura de Quarto de despejo é assim, transformadora. Não se termina o livro do mesmo modo como se começou. Ainda mais diante da realidade atual, e da (inevitável) conclusão de que conseguimos piorar o terrível quadro exposto no livro (em 1960, as drogas, o tráfico e o crime organizado ainda não tinham dominado as favelas, que eram muito menores do que hoje em dia).
     Em 1958, Carolina escreveu: "O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora". Palavras proféticas. O Brasil teve um presidente que já passou fome, e que se mostrou obcecado com a erradicação da miséria (a fome se mostrou, de fato, uma professora eficiente). Mas ainda falta muito a avançar. "A favela é a nova senzala", cantava Lobão nos anos 80, antes de se tornar reacionário. Ainda somos prisioneiros da nossa miséria e, mais de meio século após Carolina escrever "Isto não pode ser real num paiz fertil igual ao meu", boa parte da população brasileira continua a subsistir com o suficiente apenas para se manter em pé.
     Por isso Quarto de despejo continua a ser tão relevante. Por isso Carolina não pode ser esquecida. Porque, apesar de todo o avanço da última década, a fome ainda é uma realidade nacional - para vergonha de todos nós. 

Comentários

  • julio chaves de mello
    14/02/2013 17:50:46

    Estou chocado com a retratada "brutalidade" exposta nos trechos do livro de Carolina. Pensar que uma senhora simples e humilde pudesse retratar de forma tão verdadeira seu cotidiano é realmente impensável. Nunca passei, mas imagino o que deva ser passar fome. Num pais de tantas roubalheiras, o mínimo que se poderia garantir é comida e saúde. Vejo com tristeza a dura realidade de tantas "Carols" nesse nosso "fértil país".

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RENÉ ZAMLUTTI JR.

René Zamlutti Jr.

 

Procurador do Estado de São Paulo, especialista, mestre e doutor em Direito Constitucional pela PUC/SP e professor da USJT e da EBRADI - Escola Brasileira de Direito. 

Autor do Blog: CABIDE MENTAL

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