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CABIDE MENTAL A classe média, que malvada!

04/06/2013 por René Zamlutti Jr.

Nas últimas semanas, a internet foi bombardeada por críticas ferozes (e defesas pueris) à classe média brasileira, capitaneadas pelo chilique da professora Marilena Chauí no lançamento do livro 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma, ocorrido em 13 de maio em São Paulo.

 

     O chilique, que pode ser visto aqui, deita por terra qualquer pretensão de levar a sério os argumentos da professora. Depois de definir "classe média" por um critério algo confuso, mas de natureza claramente  marxista ("o que define uma classe no modo de produção capitalista é a maneira pela qual ela se insere na relação entre os meios sociais privados de produção da força produtiva"), e de afirmar que o acesso aos bens de consumo não transforma a classe trabalhadora em classe média, Marilena Chauí - convenhamos, de forma muito honesta - explica: "E por que eu defendo esse ponto de vista? Não é só por razões teóricas e políticas. É PORQUE EU ODEIO A CLASSE MÉDIA! A classe média é um atraso de vida! A classe média é a estupidez! É o que tem de reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista! É uma coisa fora do comum! Então, eu me recuso a admitir que os trabalhadores brasileiros, porque galgaram direitos, conquistaram direitos, esses direitos foram conquistados com 20 anos de luta, fora os 500 anteriores de luta e desespero, e dizer que essas lutas e essas conquistas fizeram a gente virar classe média? De jeito nenhum! De jeito nenhum! A classe média é uma abominação política, porque ela e fascista; ela é uma abominação ética, porque ela é violenta; e ela é uma abominação cognitiva, porque ela é ignorante!"

     O ataque histérico da professora foi saudado com compreensíveis gargalhadas e aplausos que só se explicam porque, como se sabe, Marilena Chauí tem um séquito que aplaude qualquer bobagem que ela disser. Curiosamente, não parece ter ocorrido a ninguém da plateia que ao berrar histrionicamente que odeia a classe média, a professora já deixou clara a ausência de uma objetividade mínima para que, na qualidade de "filósofa" (as aspas se justificam, pois a considero muito mais uma professora do que uma filósofa stricto sensu), ela fosse capaz de analisar o fenômeno da tal "classe média".
     Segundo o site oficial do Governo Federal, "o conceito de Classe Média foi definido pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República em conjunto com o Ministério da Fazenda, Ministério do Desenvolvimento Social, IBGE, IPEA, FGV, IPC/Pnud, IE/UFRJ, Insper, USP, MCM Consultores e Instituto Datapopular com base na ascensão e queda de renda dos brasileiros". Esse conceito, como se vê, não foi ditado unilateralmente por um órgão, um governo ou uma pessoa, mas construído com base em parâmetros e dados trazidos por setores distintos da sociedade.
     O Governo Federal - do qual Marilena Chauí discorda - dividiu a sociedade brasileira em três classes: classe alta, classe média (com renda familiar per capita entre R$ 291 e R$ 1.019) e classe baixa. Ainda segundo o governo, 104 milhões de pessoas compõem a classe média. São, segundo a professora, todos trabalhadores subitamente endinheirados (se é que se pode chamar de "endinheirada" uma família cuja renda per capita seja de R$ 291), ou todos reacionários, conservadores, ignorantes, petulantes, arrogantes, terroristas, abominações políticas, éticas e cognitivas?
     O pensamento de que a classe média é uma consciência coletiva intrinsecamente má foi replicado nas redes sociais, em blogs, em artigos et alii. Até mesmo o jurista Márcio Sotelo Felippe adotou a premissa, ao afirmar, em seu artigo Fascismo no Brasil de hoje, que "a inculta e selvagem classe média brasileira tem horror à diferença. Não gosta de negro, não suporta homossexual, não quer pobres por perto a não ser para limpar suas privadas. Quando é de direita - quase sempre - tem ódio da esquerda. Não é apenas contra. Não é que discorda. Odeia. A classe média brasileira é a favor da pena de morte, da redução da maioridade penal, da execução sumária de transgressores, repete frases como 'bandido bom é bandido morto' e seu ideal de política é tal qual o 'volkisch' da Alemanha nazista, mas isso, claro, quando o acusado é pobre, negro, puta, gay, etc".
     Nem vou me dar ao trabalho de refutar os autointitulados expoentes da classe média que se rebelaram contra o chilique de Marilena Chauí, porque os argumentos usados, na maioria dos textos que li ("a classe média sustenta esse país", "a classe média gera empregos" etc.) são tão rasos que nem vale a pena iniciar qualquer debate nesse sentido. Também não creio que Marilena Chauí deva ser levada muito a sério (e nem me parece que ela seja, fora do seu círculo de fãs). Não sei se procede a crítica, feita nos anos 80 pelo diplomata José Guilherme Merquior, de que Marilena Chauí plagiou Claude Lefort (segundo li, ela não negou, limitando-se a invocar contra o diplomata o, a meu ver sempre inútil, argumento ad hominem). Também não sei se é verdade que ela plagiou Julián Marías - o capítulo 3 da Unidade 3 de Convite à Filosofia, de MC, é de fato praticamente idêntico ao ponto 24 do capítulo II do Introdución a la Filosofia, de JM, e MC, ao menos na edição que li, não faz qualquer menção a JM, embora a obra deste date de 1947 (não sei quando Convite à Filosofia foi lançado, não achei edições anteriores a 1994, mas como MC nasceu em 1941, creio que o livro de Julián Marías seja anterior). Mas não conheço filosofia o suficiente para acusar MC de plágio nesse caso, porque ambos podem ter bebido da mesma fonte. Ou não.
     Em suma, não considero Marilena Chauí uma grande pensadora, e me parece que seus admiradores apreciam mais sua verve político-ideológica (e seu talento inato para a stand-up comedy) do que suas ideias filosóficas. Então, se ela quiser berrar para seu fã-clube que o que ela entende por classe média é tudo aquilo que já transcrevi, arrancando aplausos e gargalhadas, não creio que isso deva ser levado muito a sério. O próprio Lula, que subiu ao palco depois da professora, parece não levá-la a sério, já que afirmou (suponho que jocosamente): "Depois de anos que lutei para chegar à classe média, vem essa mulher e esculhamba com a classe média..."

     O problema surge quando essa concepção de "classe média malvada" começa a ser encontrada em textos mais inteligentes e que, além disso, não deixam claro a que classe média se referem.
     Considero um equívoco atribuir a uma classe social - seja qual for o parâmetro empregado para defini-la - tais ou quais características, ainda mais nos termos extremados como os empregados nos trechos que destaquei acima. Primeiro, porque reacionário, conservador, ignorante, petulante e arrogante (deixemos o terrorista de lado) são características de indivíduos e, mesmo que um grupo seja formado por muitas pessoas com essas características, não me parece correto uniformizar todos e cada um dos membros desse grupo sob tais parâmetros. Segundo, porque se parte do muito ingênuo pressuposto de que em outro(s) grupo(s) da sociedade (no caso de MC, a "classe trabalhadora") essas características não estariam presentes. Ou não haverá, parafraseando Márcio Sotelo Felippe, pobres ou membros da "classe trabalhadora" a favor da pena de morte, da redução da maioridade penal, da execução sumária de transgressores, e que repitam frases como 'bandido bom é bandido morto'? Ou a "classe trabalhadora" não é também fascista, violenta e ignorante?

     A piada de Lula contém uma verdade implícita: à exceção de quem (como Marilena Chauí) adota uma concepção de classes fundada primordialmente na ideia da exploração de uma classe por outra, a ascensão social, a escalada do que o governo chama de "classe baixa" para a "classe média" é uma conquista, e antes disso, uma meta. Não há nada mais petulante e arrogante (para usar os adjetivos empregados pela professora) do que um "intelectual" que arvora para si a "sabedoria" de dizer o que o povo (seja a "classe trabalhadora", seja a "classe baixa") quer, independentemente do que esse mesmo povo pense e diga a respeito. Como brincou Joãosinho Trinta: "Quem gosta de pobreza é intelectual, pobre gosta de luxo."

     Caracterizar toda uma classe - seja econômica (critério do Governo), seja social (critério de MC) - atribuindo-lhe características típicas de vilões de histórias em quadrinhos (do que decorre que outras classes seriam os heróis, ou pior, a mocinha da história) - não é o tipo de análise que costuma levar a boas conclusões (basta lembrar que Marx e Engels defendiam a inevitabilidade da extinção da burguesia e a "ditadura do proletariado", duas hipóteses sobre as quais a História sapateou). A realidade social é multifacetada demais para se adequar a maniqueísmos rasteiros.
     A classe média não é, enquanto classe, vilã da história, assim como a classe baixa - ou a "classe trabalhadora" - não é o herói, nem a mocinha. Os defeitos individuais são encontrados em todas as classes. Abordagens simplistas como a de Marilena Chauí certamente não são úteis para levar uma sociedade complexa e plural (como a brasileira) à superação de suas profundas desigualdades. Mas se ela própria afirma que seu ódio pela classe média - e não há nada mais irracional do que o ódio - é a razão pela qual defende seu ponto de vista, a incoerência que se segue a partir de tal premissa não deveria surpreender ninguém.

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RENÉ ZAMLUTTI JR.

René Zamlutti Jr.

 

Procurador do Estado de São Paulo, especialista, mestre e doutor em Direito Constitucional pela PUC/SP e professor da USJT e da EBRADI - Escola Brasileira de Direito. 

Autor do Blog: CABIDE MENTAL

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