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ENTREVISTA O Operador do Direito no "Front"

03/04/2017 por Mario Palumbo

 

Como é ser de um Delegado de Polícia com funções operacionais? 

 

O Delegado de Polícia com funções operacionais tem por escopo apoiar e coordenar operações policiais, arriscando na linha do “front”, a sua própria vida e não raras vezes a vida de seu Grupo. O GARRA – Grupo Armado de Repressão a Roubos - é a unidade de recursos especiais mais antiga da Polícia Civil do Estado de São Paulo.  Foi criada em outubro de 1976 e pertence ao Departamento Estadual de Investigações Criminais - DEIC.

 

A Autoridade Policial com funções operacionais do GARRA tem por atribuição realizar ações táticas e estratégicas, com escopo de prevenir e reprimir, preponderantemente, os crimes contra o patrimônio.  Como se não bastasse, realiza atividade de policiamento preventivo especializado, pois atua 24 horas por dia; atendendo a locais de crime e realizando a coleta de informações preliminares, colaborando, assim, para o bom desenvolvimento das investigações, frequentemente empregando táticas policiais de cunho estratégico.

 

Quando o senhor estava na faculdade imaginava que teria sua carreira voltada para este segmento da segurança pública?

Durante todo o meu bacharelado sempre idealizei a carreira de Delegado de Polícia. Depois de formado comecei a me preparar para o concurso de ingresso e, para tanto, frequentava um curso preparatório no centro da cidade de São Paulo. Viajava do interior e quando avistava o pátio de viaturas do DEIC,com toda a movimentação intensa, já naquela época, repetia para mim mesmo que um dia trabalharia naquele prestigiado e importante Departamento de Polícia. O concurso sempre foi difícil, estudei muito, minha dedicação e foco sempre foram à carreira e assim, no ano de  2001 ingressei nos quadros de Delegado da Polícia Civil do Estado de São Paulo.

 

Quais os ramos operacionais existentes na Polícia Judiciária e por que foram criados?

O Delegado Operacional não está afeto diretamente à Polícia Judiciária, pois esta atua de forma específica em investigações policiais. O GARRA, assim como o GER – Grupo Especial de Reação  e o SAT – Serviço Aero tático, pertencem à Divisão de Operações Especiais do DEIC/DOE. Ademais, o DECAP – Departamento de Polícia Judiciária da Capital o DEMACRO - Departamento de Polícia Judiciária da Macro São Paulo e o DEINTER – Departamento de Polícia Judiciária do Interior, também possuem Grupos Operacionais Especiais -  GOE.

 

Como é selecionado um Delegado de Polícia para compor estes grupos de elite?  Quais os tipos de treinamento que são exigidos para o exercício destas funções?

A seleção de um Delegado de Polícia para compor estes grupos de elite é feita, via de regra, pelo seu Delegado de Polícia Supervisor, que leva em consideração a aptidão física e psicológica, o treino, principalmente tiro policial, invasão e confronto tático. Um outro requisito importante, na minha visão, é o perfil de trabalhar em grupo/equipe, saber da necessidade de esforço coletivo para enfrentamento dos desafios diários, principalmente aqueles em momentos de confronto sem qualquer tipo de prévio ou esperado conhecimento.  

 

De que forma o senhor concilia a análise jurídica dos fatos em que opera com a adrenalina provocada nesses conflitos?

A experiência dita essa regra. A Carreira de Delegado de Polícia é jurídica, todos nós temos formação processual/penal/constitucional e somos aptos a subsumir as situações fáticas que vivenciamos aos tipos penais previstos no ordenamento jurídico. Tudo é automático. Autocontrole é um exercício, gerenciamento de crise é o nosso maior desafio. Exige pensamento rápido, amparado inclusive, no instinto natural de sobrevivência e de defesa da sociedade. Não existem situações predeterminadas, via de regra, vamos em apoio à operação de uma delegacia especializada, sem saber o quê e quantos criminosos enfrentaremos. É exatamente essa adrenalina que diferencia o trabalho de um Grupo Operacional frente à nobre e insubstituível missão da Polícia Civil em defesa da nossa sociedade.   

 

Qual o tipo de crimes em que há maior enfrentamento?

O maior enfrentamento hoje reside nos crimes de roubo qualificado, envolvendo instituições financeiras, caixas eletrônicos e transporte de valores e cargas. Como é de conhecimento público, o maior nicho de atuação do crime organizado/facções criminosas reside na busca de dinheiro em pecúnia, até porque, não raras vezes, também estão envolvidas em crime de tráfico de entorpecentes e de armas.

 

Quais os momentos mais críticos para tomar uma decisão?

Como não poderia deixar de ser, o momento mais critico para tomar uma decisão é no confronto com os envolvidos na conduta delitiva. Quando do apoio a uma operação policial, via de regra, como já mencionei, desconhecemos quantos criminosos estão envolvidos e o poderio do armamento por eles usado, entre outros detalhes, situação que impõe perigo iminente. Hoje em dia, principalmente nos crimes de roubo por quadrilhas especializadas, como acima descrito, os envolvidos estão fortemente armados com fuzis e metralhadoras. E tais condições exigem do nosso Grupo preparo específico e diferenciado.

 

Obviamente, que no caso da polícia numa cidade como São Paulo, não devem faltar experiências. Há um intercâmbio de experiências com polícias de outros locais?

Os Delegados de Polícia não só em nosso Estado, mas de toda a Federação, trocam experiências, principalmente, nas investigações interestaduais. O Brasil, que possui dimensão continental, tem características e peculiaridades diferentes de Estado para Estado e logicamente essa situação também reflete no mundo do crime. Quando da realização de uma operação em outra cidade, primeiro por questão de atribuição legal, depois por hierarquia e ainda por especificações jurisdicionais, sempre existe essa prévia troca de comunicação.

 

Como se dá a relação dos grupos operacionais com os de inteligência?

Hoje a investigação, como bem retrata a mídia, está intimamente ligada à inteligência policial. A Polícia Judiciária socorre-se de medidas cautelares como interceptação telefônica e telemática, entre outras tantas, na busca da prova. Via de regra, por determinação legal, os núcleos de inteligência policial estão blindados por sigilo, aliás, respondem criminalmente frente à Justiça pela quebra de tal dispositivo. Nesse contexto, a relação dos Grupos Operacionais com o setor da Inteligência da Polícia Civil, exatamente por respeito à lei, é sempre limitada, intervindo tão somente nas ações táticas e estratégicas quando do confronto com os criminosos.    

 

Em quais setores da Polícia Civil o senhor já trabalhou?

Em dezessete anos de carreira trabalhei em diversos lugares da Polícia Civil, como o 47ºDistrito Policial/Capão Redondo e o 16º Distrito Policial/Vila Clementino. Trabalhei ainda, durante sete anos, inclusive como Supervisor no Grupo de Operações Especiais – G.O.E, 1 ano só Setor de Operações Especiais do Departamento de Narcóticos e desde 2011 integro o GARRA, nos últimos dois anos como Delegado Supervisor.

Para que se tenha uma ideia do trabalho efetuado por esse Grupo, no ano de 2016 atuamos em 447 prisões em flagrante, 75 atos infracionais, 104 armas de fogo e 544 veículos recuperados, 632 criminosos presos e 103 adolescentes apreendidos envolvidos em atos descritos no Estatuto da Criança e Adolescente. 

 

 

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MARIO PALUMBO

Mario Palumbo

Delegado de Polícia do Estado de São Paulo. Supervisor do GARRA – Grupo Armado de Repressão a Roubos.

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