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ENTREVISTA Minha trajetória nos concursos

02/07/2012 por Ana Silvia Serrano

Em que momento decidiu se enveredar pelos concursos públicos?

Quando eu cursava a faculdade de Direito, percebi que muitos colegas já estudavam para concursos. Como eu ainda não havia decidido qual carreira jurídica seguir, passei a observar os editais lançados e procurar algo que me interessasse. Meu primeiro concurso foi para Técnico do Ministério Público da União: estudei pouco, a prova foi difícil e o resultado foi um fracasso. Então decidi me empenhar no concurso da Polícia Civil de Santa Catarina, para a carreira de Escrevente Policial, aberto no final do ano de 2005. Passei em primeiro lugar, cursei a Academia da Polícia Civil e decidi: quando me formar, serei Delegada.

 

Quando iniciou seu preparo? Qual metodologia usou?

Assim que eu tomei minha decisão, já conhecendo o órgão, a profissão, os prós e contras, passei a me dedicar ao estudo das matérias do edital para Delegado de Polícia. Primeiramente, estudei e resumi doutrinas, que são mais densas, e depois que formei essa base, passei a estudar por meio de resumos e dos mapas mentais que criei. Quando saiu o edital, eu havia estudado quase todo o programa – então me matriculei num curso preparatório, quando revisei todo o conteúdo e estudei as atualizações jurídicas pertinentes ao concurso.

 

Quanto tempo demorou para ser aprovada no primeiro concurso?

Entre o primeiro concurso que fiz, e a aprovação para Escrevente Policial, transcorreu um ano. Quanto ao concurso para Delegada de Polícia, foram dois anos após meu ingresso como Escrevente.

 

A Polícia Civil sempre foi seu foco principal?

Sim, sempre foi meu foco. Antes de prestar o concurso para Delegada em Santa Catarina, fiz prova no Estado do Paraná, para ter experiência, mesmo sem ter estudado. Ali eu percebi que deveria focar meus estudos antes da abertura do concurso. Assim, acabei prestando o concurso em Santa Catarina e obtendo a aprovação, no ano de 2008.

 

A senhora sofreu alguma cobrança de familiares e amigos pelo resultado pretendido?

Não, nunca sofri pressões externas, porque eu sempre trabalhei no setor privado antes de prestar concursos. Não deixei de trabalhar para estudar, então ninguém dependia diretamente da minha aprovação.

 

Depois de aprovada, como foi sua rotina de Delegada de Polícia recém empossada?

Primeiramente, passei pelo curso de formação, de cinco meses, em período integral, na Academia da Polícia Civil. Naquele período, passei também por estágios supervisionados nas Delegacias e por plantões policiais. Quando assumi as funções, na Delegacia da Mulher da Capital, já me envolvi com todas as atividades inerentes ao cargo.

 

Quais são as atividades que uma Delegada de Polícia exerce? Como é a rotina profissional?

As funções principais da Autoridade Policial, na apuração de infrações penais, estão atreladas à presidência dos inquéritos e condução das investigações, à presidência dos autos de prisão em flagrante e ao arbitramento de fiança nos termos da lei, às representações judiciais por prisão preventiva, prisão temporária e interceptação telefônica. Além disso, o Delegado gerencia administrativamente toda a unidade policial (logística, recursos humanos, bens e instalações). Na minha rotina profissional, na Delegacia de Proteção à Mulher, além das atividades descritas acima, executo um serviço direcionado às mulheres vítimas de violência, tanto nos termo da Lei Maria da Penha, quanto a outras formas de violência: física, moral, psicológica e sexual, em que o agressor seja homem. Assim, realizo atendimentos, orientando as vítimas sobre direitos na área penal e também cível; decido o encaminhamento das denúncias e dos boletins de ocorrência registrados; represento ao Poder Judiciário por medidas protetivas de urgência; determino o acompanhamento das vítimas até sua residência para retirada de pertences e posterior escolta até local seguro; realizo investigações; acompanho os Agentes Policiais no cumprimento de mandados de prisão ou busca e apreensão, entre outros.

 

Qual foi o momento mais engraçado ou curioso da sua carreira até agora?

Nossa rotina é muito dinâmica, então cada dia é diferente, sempre com histórias tristes e outras engraçadas. Tive o caso de um homem que foi conduzido preso à delegacia, algemado com as mãos para trás e, no momento de tirar a algema, a chave travou. Pedi que buscassem um alicate para retirarmos a chave e, neste momento, o rapaz ficou nervoso, se agitou muito, começou a se debater e gritar, dizendo: “estão me torturando com um alicate!”. Na hora, fiquei nervosa e percebi que ele gritava para impressionar seus familiares que estavam na sala ao lado, então pedi que um policial imobilizasse o rapaz, com técnicas de jiu-jitsu, lhe aplicando um “mata-leão”, enquanto outro abria a algema. Foi muito rápida a ação, conseguiram girar a chave e abrir a algema, mas o rapaz desmaiou com a pressão do golpe. Eu fiquei assustada, levantei a cabeça do preso, dei dois tapinhas leves para ver se ele acordava, então ele acordou e deu um grito: “você me bateu!”. Imediatamente, um dos policiais disse: “não faz drama, cara! Ela só te acordou!”. Vendo que estava sem algemas e que ninguém havia lhe machucado, ele sorriu pra mim, olhou para o policial e disse, com sotaque bem carregado: “ela me deu um tapinha, mas eu gostei, homi!”. Até hoje essa frase é motivo de brincadeira entre os policiais...

 

E o mais triste?

O momento mais triste foi quando soube que alguns policiais conhecidos estavam sendo investigados por suspeita de corrupção. Eu nunca tinha presenciado um caso concreto na Polícia Civil de Santa Catarina, e isso me assustou. Cheguei a pensar em sair da carreira, mas depois percebi que a instituição como um todo, tem mudado sua atitude frente a tais condutas.

 

Quando um acadêmico ou bacharel toma a decisão de ingressar numa carreira pública, qual o primeiro passo a ser dado?

Primeiramente, acredito que o foco não deve ser a “carreira pública”, e sim uma carreira específica dentro das carreiras públicas. Estudar para várias coisas ao mesmo tempo é praticamente impossível – o foco é fundamental. Se o acadêmico tem pressa em ser aprovado para alguma carreira, provavelmente não será aprovado em concurso algum, porque todos exigem um nível de dedicação e concentração. Por isso, a escolha é fundamental. A partir daí, o próximo passo é conhecer o que tem sido exigido, de acordo com os últimos editais. É importante conhecer o concurso que vai enfrentar, em todas as fases, desde a parte teórica até os documentos necessários para posse. Se há exigência de prova física ou oral, a preparação também deve ser planejada.

 

O que deve esperar o concursando na hora de optar pela carreira na Polícia Judiciária?

Primeiramente, não deve buscar satisfação somente no salário, pois dentre as carreiras jurídicas, é uma das menos valorizadas. Deve estar ciente, também, que nosso contato com pessoas é diário – recebemos os problemas dos cidadãos no momento ou logo após sua ocorrência, e precisamos atender! Então, o stress da profissão é bastante alto, as decisões devem ser tomadas rapidamente, às vezes a vida de alguém está literalmente em jogo. Você também lida com o “papel”, mas quem o produz é você, no calor dos acontecimentos, com poucos recursos humanos e tecnológicos. Por outro lado, é exatamente esse desafio diário que nos motiva: existe espaço para a inovação, para o planejamento, para o crescimento profissional daqueles que se propõe a estudar um pouco mais para melhorar os processos e a estrutura da instituição. Além disso, não temos uma rotina entediante: cada dia é diferente e cada ação do Delegado gera uma consequência imediata na vida dos que estão buscando nosso serviço.

 

Tags: Concursos

Comentários

  • aliny
    10/12/2013 13:50:38

    Sonho ser delegada mais pelo visto nao e facil...

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ANA SILVIA SERRANO

Ana Silvia Serrano

Delegada de Polícia no Estado de Santa Catarina.

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