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ENTREVISTA CONCURSOS Minha trajetória nos concursos

04/06/2018 por Luiz Flávio Gomes

 

Como decidiu enveredar para a área jurídica?

Confesso que mesmo no final do segundo grau eu tinha muitas dúvidas se faria faculdade de Administração ou Direito. Sempre gostei muito de gestão, mas a escolha foi influenciada pelo pai, um migrante nordestino que sonhava em ser advogado e nunca teve nenhuma oportunidade na juventude. Acabei optando pelo Direito e logo na primeira semana percebi o acerto da minha decisão.  

 

Prestar concurso sempre foi seu foco?

Venho de uma família muito humilde; somado a isso, meu pai foi assassinado logo que eu estava no início do curso de Direito, de forma que eu precisava arranjar uma fonte de renda para custear meus estudos a qualquer preço. Logo após a tragédia, conversei com o Diretor da minha faculdade, explicando minha situação. Meus colegas de faculdade chegaram a pagar algumas mensalidades do curso. O Diretor me concedeu uma bolsa de seis meses, período que eu tinha para me restabelecer. Foi neste tempo que engoli os livros e fui aprovado no meu primeiro concurso, ingressando na carreira de Investigador de Polícia, o que além de proporcionar estabilidade financeira, me proporcionou concomitantemente o contato prático com o Direito Penal, que viria a ser minha grande paixão na faculdade.

 

O senhor passou em vários concursos. Quantos prestou? Alguma carreira foi seu foco principal?

Ao todo eu prestei somente quatro concursos, em todos eu passei, em nenhum em primeiro lugar, mas todos nos primeiros lugares. Aos 19 anos prestei e passei no primeiro, o de Investigador de Polícia; aos 21 anos, pouco depois da colação de grau passei no de Delegado de Polícia; aos 22 para o cargo de Promotor de Justiça e aos 25 anos de idade, Juiz de Direito, todos no Estado de São Paulo. Passei por todas estas carreiras, aprendi muito em todas elas, mas a magistratura sempre foi meu foco, de forma que nesta fui juiz por 15 anos.


Qual metodologia o senhor usou para lograr êxito nos seus objetivos?

Não há nenhuma vitória sem sacrifício. Em todos os concursos que prestei eu tinha um foco bem definido e comprometimento comigo mesmo em assimilar o conteúdo do edital. Não existem grandes segredos, tem que estudar as matérias, compreendê-las e revisá-las. Somos aquilo que guardamos na nossa memória. Costumo dizer para meus alunos que a fórmula do sucesso está nas letras HBB, que significam “Horas de Bunda no Banco”, ou seja, quanto mais o candidato aumenta seu banco de horas estudadas, mais se aproxima de seu objetivo, sendo certo que depende do grau de dificuldade do certame algumas carreiras exigem mais “HBB” do que outras. Tem toda lógica a frase dos colegas professores de cursos preparatórios quando falam que não se estuda para passar, mas até passar. Quanto maior o banco de horas acumulado, as probabilidade de aprovação vão aumentando exponencialmente. É uma questão matemática.

 

O senhor sofreu algum tipo de pressão por parte dos seus familiares?

Como disse, sou oriundo de uma família muito humilde; entrar na faculdade de Direito, por si só, já foi uma vitória familiar. Fui a primeira pessoa a fazer um curso superior em minha família. Com o tempo e a aprovação nas carreiras, só aumentou a alegria da família. No entanto, minha carreira acadêmica tomou muito mais meu tempo que a institucional por si só. Com a imersão em estudos aprofundados de Direito, que tiveram como fruto mais de 60 livros, foi um processo natural que muitas horas de convívio familiar fossem sacrificadas, de forma que tive uma vida inteira dedicada à leitura e à escrita, exigindo uma compreensão fora do comum de meus familiares.

 

Há um certo preconceito da comunidade acadêmica com os professores de cursos preparatórios, no entanto o senhor conseguiu reconhecimento nas duas áreas. Como o senhor observa este fenômeno?

Este preconceito foi maior no passado, hoje está cada vez mais superado. Obviamente que na academia a atenção é voltada muito mais para a pesquisa; no caso do Direito na elaboração de novas teses do que na aprovação em um certame, no entanto, é preciso compreender que as técnicas de absorção de conteúdo e memorização tão repudiadas pela comunidade acadêmica são úteis para os candidatos somente na primeiras fase dos concursos, já que na segunda (dissertativa) e terceira (oral), a cultura jurídica mais abrangente e aprofundada é o diferencial do candidato; é míope a alegação de que a boa doutrina e os debates são negligenciados nos cursos preparatórios. Particularmente, nos meus muitos anos como professor em cursos preparatórios sempre trouxe os grandes debates para as salas de aulas.

 

Como foi seu início de carreira? Sua “primeira vez” como operador do Direito? Lembra de algum fato inusitado?

Bom, levando em consideração que fui Delegado, Promotor, Juiz e Advogado, devo confessar que foram muitas primeiras vezes; de uma carreira para a outra eu acumulava experiência jurídica; mas cada uma era sempre nova. Lembrando de alguns fatos inusitados, eu poderia citar os seguintes:

Como Delegado de Polícia, num determinado dia me deparei com uma situação inusitada: no plantão apareceu um homem com um saco plástico afirmando que lá dentro havia um feto. Foi uma experiência chocante, mas isso fazia parte da profissão. A Polícia é a porta de entrada das tragédias humanas.

Já como Promotor de Justiça, aos 22 anos de idade, com a expectativa de um salário mais digno, já depois da posse, fui no antigo Mappin (no centro de São Paulo), onde comprei os ternos que precisaria, levando junto com estes vários “carnês” a perder de vista, tanto é que quando os quitei já era Juiz de Direito. Nesta carreira de promotor eu esperava ansiosamente o dia do meu primeiro Júri; imaginava que familiares e amigos poderiam lá estar. Cheguei na cidade de Bauru e logo fui informado do meu primeiro compromisso: “amanhã você já participa de um julgamento”. Passei a madrugada estudando o processo, fiz a acusação no Júri e o réu foi condenado; embora não tenha tido minha família na plateia como eu planejava, ao menos pude inaugurar um dos ternos novos que comprei à prestação no Mappin.

Na magistratura, tomei posse como juiz no dia 07/03/1983, com 25 anos de idade. Apesar da experiência de ter sido Delegado e Promotor de Justiça, e já com meu guarda roupa de “doutor” montado, chegaria o dia de debutar na Magistratura. Minha primeira audiência foi no dia 08/03/1983, portanto, um dia após minha posse, onde atuei como juiz substituto na Comarca de Santos. Não é segredo para ninguém minha preferência às Ciências Criminais, onde construí toda minha carreira de docente e acadêmica, mas como a vida é repleta de desafios, minha primeira audiência foi no cível. Na demanda discutia-se a devolução de um cachorro pelo comprador ao vendedor; o primeiro questionava a autenticidade da raça do animal, pois acreditava ser incompatível com o discriminado no pedigree. Um caso sem grandes complexidades diante das outras tantas tragédias humanas existentes, mas extremamente extenuante para solucionar, pois de tão atípico, o senso de justiça deveria imperar sobre os procedimentos comuns analisados pelo Judiciário. Tarefa que exigia muito de um jovem juiz, na sua primeira audiência. Um colega mais experiente sugeriu que eu deveria ter feito como o Rei Salomão no julgamento das mulheres que pleiteavam uma criança. Claro que isso foi dito em tom jocoso porque a ética nos impõe respeito aos seres humanos e também aos animais.

Na advocacia iniciei após me aposentar com magistrado, depois de ter passado por outras carreiras, de forma que a inexperiência já não era algo que eu tinha que enfrentar e minha primeira vez foi bem mais suave. Mas no dia que fiz minha primeira sustentação oral no STF não foi fácil.

 

Como foi sua experiência de empresário?

Por mais de 17 anos eu lecionei no curso extraordinário do Professor Damásio, e em um dado momento tive a intenção de criar um curso preparatório telepresencial para que as pessoas pudessem estudar desde as suas cidades. Era um absurdo que os alunos pudessem tivessem que abandonar suas cidades, trabalhos, famílias, para estudar. Mais: o método tradicional, sem a opção do telepresencial, privilegiava determinadas classes que podiam arcar com estes custos. Começamos nosso empreendimento sem nenhum centavo de dinheiro público e chegamos a ter 450 escolas e mais de 2 milhões de alunos em todo país. Conseguimos realizar o sonho de muitas pessoas. Mais do que um empreendimento foi um projeto de sucesso na democratização do ensino. Há oito anos vendi o empreendimento e não tenho mais nenhuma relação com ele, mas de qualquer forma, a ideia expandiu para outros cursos do ramo elevando ainda mais o potencial da nossa sonhada democratização do ensino jurídico, sobretudo agora com a facilidade de uma rede de internet que não tínhamos à época.

 

Diante de tantas conquistas, quais sãos seus novos projetos?

Bom, sou juiz aposentado, vendi meu empreendimento e hoje gozo de estabilidade financeira. Se eu quisesse poderia estar somente me dedicando às minhas leituras, à minha família, sobretudo por que este ano me tornei avô de uma menininha linda, no entanto, como posso me recolher ao conforto que minha carreira me proporcionou e dar às costas ao que esta corja de corruptos está fazendo com o país? Será que é certo abandonar o Brasil para deixar esta gente acabar com uma nação que tem de tudo para ser uma das melhores do mundo? Eu creio que não! Não podemos deixar as coisas fáceis para esta gente! Temos que ir para a luta, porque, como dizia Martin Luther King, “o que impressiona não o grito dos maus, sim, o silêncio dos bons”.

Em 2016 criei um movimento chamado “Quero u Brasil Ético”; por meio de passeatas e sobretudo dos vídeos diários que público na internet procurei denunciar as mazelas feitas pelos maus políticos, bem como, explicar para a população em geral algumas situações que muitas vezes aparecem (quando aparecem na mídia) de uma forma inintelegível aos olhos da maioria do povo. Deste movimento, depois de mais de 53 milhões de visualizações únicas surgiu o chamamento dos nossos próprios militantes para que entrássemos na política. Depois de muita reflexão, decidi encarar o desafio, e hoje estou colocando meu nome a serviço do país, como pré-candidato a Deputado Federal pelo Estado de São Paulo.

Quero dedicar minha vida agora para o país com as bandeiras do combate à corrupção e o ensino integral obrigatório pago pela União, dentre outras. Daqui para frente esta é a empreitada que buscarei ter sucesso como tive nos outros objetivos que tracei na minha vida. Agora é hora de nós mudarmos os rumos do país, e não de alguém, por isto juntos as pessoas preocupadas com a nação temos que tomar as rédeas e fazer o Brasil deixar de ser um país do gerúndio (em desenvolvimento) para ser desenvolvido. Avante. Vamos juntos!

 

 

 

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LUIZ FLÁVIO GOMES

Luiz Flávio Gomes

Doutor em Direito penal pela Universidade Complutense de Madri, Mestre em Direito Penal pela USP e Diretor-Presidente da Rede de Ensino LFG. Foi Promotor de Justiça (1980 a 1983), Juiz de Direito (1983 a 1998) e Advogado (1999 a 2001). Autor de obras pela RT e Saraiva.

Criador do Movimento Quero um Brasil Ético.

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