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ENTREVISTA Minha trajetória nos concursos

03/09/2013 por Silvio Pettengill Neto

Em que momento decidiu se enveredar pelos concursos públicos?

A escolha por uma carreira pública surgiu no momento em que comecei a fazer estágio no Ministério Público do Estado de São Paulo (3º ano da faculdade). 

 

Quando iniciou seu preparo? Qual metodologia usou?

O preparo direcionado exclusivamente para aprovação em concurso público somente ocorreu após a graduação. É preciso perceber que a prepação para concursos públicos exige um foco diferenciado com relação ao estudo acadêmico. Durante a graduação, o correto é o aluno dedicar-se à formação acadêmica, sem concentrar sua atenção à aprovação em concursos públicos. Na graduação, o aluno deve buscar agregar conhecimentos de diferentes áreas do saber. Essa etapa é indispensável e não pode ser desprezada. Depois de ter reunido  conhecimentos abrangentes, é que se deve aprofundar no estudo de conhecimentos específicos. Muitos não acreditam, mas eu sempre estudei diariamente. Evitei me tornar um “estudante de véspera de prova”. Na faculdade, conseguia rendimento satisfatório em todas as disciplinas e pude assimilar com facilidade as noções gerais de todos os temas principais. Depois de formado e aprovado no exame da OAB, passei ao estudo aprofundado das matérias específicas.  Como durante a graduação fiz a leitura da bibliografia regular, depois de formado dediquei-me ao aprofundamento na bibliografia complementar. Não fiz cursos preparatórios regulares. Optei por ler as principais obras jurídicas, os informativos de jurisprudência e fazer simulados das provas dos principais concursos. Muitos amigos me acompanharam na jornada de estudos e debates. Todos, indistintamente, alcançaram o sucesso.

 

Quanto tempo demorou para ser aprovado no primeiro concurso?

Eu fui aprovado no meu primeiro concurso depois de 1(um) ano e 6(seis) meses de preparação. Fui aprovado no concurso para advogado da PETROBRAS. Na sequência, fui aprovado para o cargo de Advogado da União e Defensor Público do Estado de São Paulo.

 

O Ministério Público Federal sempre foi seu foco principal?

Eu fui estagiário no Ministério Público Federal durante o último ano de graduação. Tive a convicção de que era exatamente o que eu buscava. E hoje me sinto realizado pela escolha. Desde que me tornei Procurador da República enfrentei casos desafiadores e me sinto motivado a continuar meu trabalho.

 

O senhor sofreu alguma cobrança de familiares e amigos pelo resultado pretendido?

Nunca sofri qualquer tipo de cobrança para alcançar resultados. Venho de uma família em que o estudo sempre foi uma pauta importante. Desde muito cedo, eu e meus irmãos (médicos) adotamos o hábito do estudo diário. Tive acesso a bons colégios, frequentei cursos de língua estrangeira e cursei uma excelente Faculdade de Direito. Convivi com amigos e colegas que mantinham ritmo de estudo parecido e, assim como eu, foram aprovados em concursos públicos ou já conquistaram algum sucesso na advocacia.  Na minha turma de faculdade, há muitos juízes, membros o Ministério Público, advogados públicos e privados de destaque e registradores/ notários.

 

Depois de aprovado, como foi sua rotina de Procurador da República recém empossado?

Depois de aprovado, fui lotado na Procuradoria da República no Estado do Amazonas. Trabalhei no Estado do Amazonas por 3 (três) anos e meio, na área criminal.  Nesse período, fui coordenador da área criminal na Procuradoria da República no Estado do Amazonas. Atuei como substituto no Conselho Penitenciário do Estado do Amazonas, como coordenador substituto de controle externo da atividade policial e como Procurador Regional Eleitoral Substituto perante o Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Amazonas. O trabalho foi árduo desde o início. Minha jornada diária era de mais de 10 (dez) horas e ainda ia trabalhar nos finais de semana. O volume de trabalho naquela unidade do Ministério Público Federal era assustador. Posso dizer que consegui realizar um bom trabalho. Penso que agi com imparcialidade em busca da promoção da justiça e, em muitos casos, vi a justiça se materializar.

 

Quais são as atividades que um Procurador da República exerce? Como é a rotina profissional?

Na Procuradoria da República no Estado do Mato Grosso do Sul minha atuação profissional é na área criminal, execução penal no Presídio Federal de Campo Grande, além de integrar grupo de controle externo da atividade policial. Conduzo investigações criminais; acompanho e supervisiono investigações criminais da Polícia Federal; proponho ações penais e medidas cautelares penais; faço audiências criminais; apresento recursos judiciais em relação a decisões judiciais que entendo equivocadas; apresento pareceres e manifestações em incidentes de execução penal de presos recolhidos na Penitenciária Federal de Campo Grande; realizo visitas e inspeções na Penitenciária Federal de Campo Grande e em unidades policiais federais (Polícia Federal e Polícia Rodoviária Fedeeral) no Mato Grosso do Sul.

 

Qual foi o momento mais engraçado ou curioso da sua carreira até agora?

O mais engraçado eu não sei, foram muitos. O momento mais curioso eu tenho bem fácil na memória. E nem era do meu gabinete. Como eu estava à noite trabalhando na Procuradoria da República no Amazonas, acabei atendendo uma ligação telefônica de uma indígena chorando dizendo que a sobrinha dela havia sido picada por cobra e que, contra a vontade dos familiares, teria a perna amputada na manhã seguinte. Naquela noite, fui com a Procuradora da República com atuação em matéria indígena e um outro colega ao hospital. No local, estavam familiares e um pajé (Sr. Avelino, me lembro o nome dele) que me jurava curar o veneno da jararaca. Senti confiança nas palavras do pajé. A Procuradora da República Lucina Portal Gadelha era a responsável pelo caso e soube conduzir muito bem a questão de conciliar o tratamento médico com o respeito aos conhecimentos tradicionais indígenas. O fato é que a menina se recuperou.  Antes  disso, jamais tinha imaginado atuar em uma situação dessas. Esse caso tornou-se referência e rendeu até publicações em revistas científicas mundo afora e em revistas semanais no Brasil.

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,, EMI62314-15228,00-JUNTOS+MEDICOS+E+PAJE+EVITAM+AMPUTACAO.html 

 

E o mais triste?

O mais triste eu vivenciei quando era Defensor Público. Vi o drama da família de uma vítima de um assalto em um supermercado. A moça era caixa do supermercado e foi alvejada com um tiro na região cervical. A lesão foi grave e a vítima passou a usar cadeira de rodas e fraldas. Na audiência, deu para ver que era uma moça muito jovem, com a vaidade própria da idade. Nesses casos, a dor é agravada pela falta de recursos econômicos da família que, premida pela necessidade do trabalho, fica impedida de prestar cuidados adequados em tempo integral.

 

Quando um acadêmico ou bacharel toma a decisão de ingressar numa carreira pública, qual o primeiro passo a ser dado?

O primeiro passo é procurar conhecer exatamente a função que pretende desempenhar. O ideal é ingressar em um estágio para se inteirar dos afazeres dos ocupantes do cargo público. Em seguida, o sujeito deve avaliar sua disposição para enfrentar os rigores das exigências da aprovação nos concursos públicos e do exercício da função. Muita gente crê que o mais difícil é ingressar em uma carreira pública. Pelo menos no Ministério Público Federal, quem pensa assim está completamente enganado.

Por fim, o candidato deve dar início aos estudos, traçando um projeto de longo prazo. Para alguns, frequentar cursos preparatórios será absolutamente necessário. Para outros, nem tanto. O importante é manter a firmeza nos estudos com a certeza de que o caminho à aprovação é longo, mas possível.   

 

O que deve esperar o concursando na hora de optar pela carreira na Ministério Público Federal?

Se quiser se tornar um Procurador da República, o candidato deve ter a consciência de que terá muito trabalho pela frente. O concurso público é dificílimo, pois exige conhecimetos muito aprofundados em muitas matérias jurídicas, inclusive direito internacional. No exercício do cargo, o sujeito deverá enfrentar grandes desafios para cobrar o efetivo cumprimento da lei. Invariavelmente, terá muito trabalho e responsabilidade. Por outro lado, terá a seu favor um ambiente institucional acolhedor; respaldo institucional à atuação com independência funcional; colegas com grande disposição para prestar ajuda; incentivo para atualizar e aprofundar conhecimentos. Muitos miram o Ministério Público Federal na busca por status e remuneração alta. Esses quase nunca conseguem aprovação. Quando conseguem, logo se frustram. 

 

Tags: Concursos

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SILVIO PETTENGILL NETO

Silvio Pettengill Neto

Procurador da República.

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