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Carreira Minha trajetória nos concursos - Juiza de Direito

04/05/2016 por Cláudia Ribeiro

Em que momento decidiu se enveredar pelos concursos públicos?

Apesar de ter feito estágio, na época da faculdade, em dois excelentes escritórios de advocacia, nos quais aprendi bastante e tive ótimas experiências, sempre sonhei em prestar concurso público por achar que esse tipo de carreira era mais adequado ao meu perfil e às minhas características pessoais. Quando cursava o terceiro ano da faculdade, fui aprovada no concurso de Escrevente Técnico Judiciário do Tribunal de Justiça de São Paulo e comecei a trabalhar na 28ª Vara Cível Central, inicialmente no Cartório, lidando com processos de falência e depois procedimentos especiais. Depois de um ano e meio, no início do último ano do curso de Direito, fui trabalhar na sala de audiência, diretamente com o Juiz, quando tive a certeza de que também queria ser Juíza. Após quase um ano, recebi (e aceitei) um convite de um ex-professor, Desembargador do Tribunal de Justiça, para ser escrevente em seu gabinete, passando a trabalhar na Seção de Direito Criminal.

 

Quando iniciou seu preparo? Qual metodologia usou?

Logo depois da formatura, matriculei-me em um curso preparatório. Os coordenadores do curso já me passaram os tópicos que seriam abordados durante as aulas e recomendaram que eu começasse a estudar antes mesmo de seu início, para já ter um panorama das matérias exigidas no edital e já chegar com eventuais dúvidas. Foi exatamente o que fiz... tirei 30 dias de férias do trabalho no mês de janeiro e fui para o litoral carregando livros, cadernos e códigos. Aproveitava a praia na parte da manhã e passava a tarde inteira estudando. Quando voltei de férias, frequentava o curso preparatório pela manhã, trabalhava à tarde e estudava à noite e aos sábados, deixando os domingos livres para descanso. Para a primeira fase, direcionei os estudos para a legislação (li todos os Códigos e a Constituição Federal, do início ao fim), sem prejuízo da doutrina. Na prova escrita e no exame oral, o foco foi praticar dissertação e seguir com os estudos de doutrina, além da jurisprudência.

 

Quanto tempo demorou para ser aprovada no primeiro concurso?

Foram 10 meses de estudo intenso. O resultado do concurso saiu no dia do meu aniversário. Foi um dos presentes mais incríveis que recebi na minha vida.

 

A Magistratura Estadual sempre foi seu foco principal?

Além da Magistratura Estadual, eu também me interessava pelo Ministério Público Estadual. Até cheguei a me inscrever em um concurso para essa carreira, mas a aprovação na Magistratura veio antes mesmo da primeira fase do concurso de ingresso no Ministério Público para o qual eu estava inscrita. Então não precisei escolher entre uma ou outra.

 

A senhora sofreu alguma cobrança de familiares e amigos pelo resultado pretendido?

Nenhuma cobrança, pelo contrário. Apenas apoio e compreensão. Meus pais achavam até que eu estava estudando demais. É um período difícil, pois o “concursando” abre mão de muitas coisas para se dedicar aos estudos, e comigo não foi diferente. Mas, para minha alegria, a aprovação veio logo.

 

Depois de aprovada, como foi sua rotina de Juíza de Direito recém empossada?

Eu iniciei minha carreira como Juíza Substituta da Circunscrição de Santo André. Como residia na Capital, não houve, nesse primeiro momento, aquele impacto de mudar de profissão e de casa ao mesmo tempo. Eu também carregava comigo a experiência como Escrevente (época em que aprendi muito com excelentes profissionais), e isso com certeza me ajudou bastante nesse período inicial.

 

Qual foi o momento mais engraçado ou curioso da sua carreira até agora?

Certamente as dificuldades com diferentes sotaques e hábitos sempre produzem momentos curiosos e divertidos. No interior do Estado, fiquei surpresa ao saber, em uma audiência previdenciária, que a autora, lavradora, “penteava” e “ralhava” as uvas de sua lavoura. Também tive dificuldades para entender quando uma testemunha relatou que outra autora cultivava “brachiaria”, não tinha a menor ideia do que era isso e o escrevente, percebendo minha cara de espanto e interrogação, digitou a palavra em letras garrafais para que eu pudesse repeti-la, fazendo cara de entendida. Mas acho que o momento mais engraçado mesmo foi em uma audiência criminal em um processo por roubo, cuja vítima, um senhor de idade nascido e criado no Nordeste, muito simpático e falante, relatou que conduzia um caminhão carregado de “bróquis” (eu entendi “brócolis”) quando foi abordado por ladrões. Ele disse que reagiu e entrou em luta corporal com um dos roubadores, até que o outro veio por trás, “deu com um bróquis” em suas costas e ele caiu desmaiado. Achei muito estranho alguém desmaiar por ter sido golpeado com um brócolis nas costas e questionei o caminhoneiro, pedindo que ele explicasse isso, quando então ele falou que na verdade estava carregando “bróquis de cimento”. Tentei segurar o riso, mas não aguentei... aliás, todos na sala de audiência (Escrevente, Promotora, Advogada) caíram na risada. E a vítima também.

 

E o mais triste?

Já os momentos mais tristes envolvem menores em situação de risco. São crianças e adolescentes que, pelos mais variados motivos, perdem a casa, os familiares, todas as referências. Muitos passam longos períodos à espera de uma definição, e não raro o Magistrado, ao tratar dessas questões, se vê às voltas com problemas quase insolúveis, que estão muito além das previsões legais.

 

Quando um acadêmico ou bacharel toma a decisão de ingressar numa carreira pública, qual o primeiro passo a ser dado?

Penso que é muito importante começar obtendo informações detalhadas sobre a rotina de trabalho, com o fim de minimizar o risco de surpresas e frustração de expectativas. De início eu já afastei esse risco por ter trabalhado como Escrevente, tanto em Cartório como em sala de audiência e, ainda, em gabinete. Também acho fundamental identificar suas aptidões e preferências em termos de área de atuação, pois se já é muito difícil estudar com afinco e dedicação as matérias de que gostamos, fica quase impossível manter essa mesma dedicação se o objeto de estudo não é o nosso predileto.

 

O que deve esperar o concursando na hora de optar pela carreira na Magistratura Estadual?

O “concursando” que pretende ser Juiz Estadual deve esperar uma carreira que exige muita dedicação, estudo e empenho, além de uma dose de sacrifício pessoal, dada a própria estrutura da carreira, que demanda seguidas mudanças de cidade. Deve esperar também uma carreira que, ao menos em um primeiro momento, exige conhecimento amplo de vários ramos do Direito ao mesmo tempo, uma vez que, não raro, há um único Juiz em Comarcas menores, nas entrâncias iniciais, ou, ainda que haja mais de um, as Varas são cumulativas. Mas é certo também que todo o esforço, tanto na época do concurso como após a aprovação, já no exercício da Magistratura, é recompensado pela realização profissional proporcionada por essa bela carreira.

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