Página Inicial   >   Entrevistas

Entrevista - Concursos Minha trajetória nos concursos - Juiz de Direito

 

Em que momento decidiu se enveredar pelos concursos públicos?

Eu confesso que demorei para decidir se realmente estava cursando Direito por vontade própria ou por vontade [indireta] de meu pai – Ênio Santarelli Zuliani –, que é Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Não que ele tenha me obrigado, mas acreditava que o interesse pelo curso de Direito surgiu em mim pela posição que ele exercia, e ainda, pelo relevante trabalho que prestava. Quando percebi que, na realidade, não fazia por ele, mas para exercer o mesmo relevante trabalho que ele, não hesitei em ser Juiz de Direito Estadual.

 

Quando iniciou seu preparo? Qual metodologia usou?

Eu não me dediquei como deveria na Faculdade, e me arrependo disso, mesmo meu pai  tendo insistentemente me lembrado da importância de estudar na graduação. Me lembro dele dizendo que não é a Faculdade de Direito que faz você, mas você quem faz o curso de Direito. Ele me lembrava que bastava duas horas por dia de estudo para criar uma base sólida para os estudos. Não lhe dei ouvidos e isso atrasou minha aprovação. Pelo fato de ter levado 8 [oito] anos para ser aprovado no concurso da Magistratura do Distrito Federal, experimentei todos os tipos de metodologia, e posso dizer que cada fase do concurso exige uma metodologia diferente. Somente quando comecei a ler a lei seca e fazer questões objetivas é que consegui passar pela primeira fase. Para a segunda fase temos que escrever. Passei a treinar a escrita e ler jurisprudência, o que melhorou minha redação e resultou em minha aprovação para a próxima fase. Para a fase oral, é preciso simular o dia da prova, seja com amigos de concurso, seja através de um curso preparatório para exame oral.

 

Quanto tempo demorou para ser aprovado no primeiro concurso?

Essa é uma história interessante. Meu irmão Guilherme Stamillo Santarelli Zuliani, Juiz de Direito do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, foi aprovado no 180º Concurso de ingresso. Foi esse o primeiro concurso em que logrei êxito na aprovação para a segunda fase. Demorou aproximadamente 4 anos para eu conseguir passar para a segunda etapa. Com frequência digo aos meus alunos, principalmente no perfil do Instagram [@instantejuris], que a primeira fase do concurso é um dos maiores desafios do candidato, porque nessa fase você enfrenta outros concorrentes, já que existe nota de corte. Nessa fase, precisa-se de estratégia de estudo de véspera, de estudo prolongado, de estudo de resumo, tudo isso tem que ser levado em conta. Nas demais fases o candidato compete com ele mesmo, bastando atingir a nota mínima para passar. No concurso do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios demorei 8 [oito] anos para ser aprovado.

 

Como traçou seus focos em relação às carreiras? 

Nos concursos atuais a dificuldade é tão grande que o concurseiro não pode se dar o luxo de focar apenas em uma carreira pois isso pode levar a uma rápida frustração, uma vez que o concurso demora no mínimo um ano. Por isso, aconselho a prestar concurso para outras carreiras semelhantes àquela escolhida, ou então, em outros Estados. No entanto, precisa ter um objetivo principal, como ser Juiz, ser Promotor, ser Defensor, ser Procurador, dentre outros, e traçar sua estratégia com base nesse concurso principal. Assim, quem deseja ser Juiz de Direito precisa conhecer bem direito privado, enquanto que o candidato que deseja ser Procurador do Estado, por exemplo, necessita estudar muito Direito Constitucional e Administrativo. Esse é o foco que o candidato tem que ter em mente, somente mudando o foco se estiver em fase adiantada de outro concurso, por exemplo. Eu mesmo cheguei na fase oral do Concurso para Promotor do Estado de São Paulo, mesmo querendo ser Juiz. Na preparação diminui a carga de Direito Civil e aumentei a carga de Direitos Difusos e Coletivos.

 

O senhor sofreu alguma cobrança de familiares e amigos pelo resultado pretendido?

Nunca fui cobrado pelos meus familiares, incluindo minha esposa Luana Chahim Zuliani, que hoje é Magistrada do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e sempre esteve comigo nessa jornada de estudos. Ao contrário, meus pais sempre me apoiaram. Em todas as dificuldades que enfrentei, e não foram poucas, eles estavam lá. Os pais têm um papel delicado suma relevância nessa jornada de estudo do filho, pois o apoio incondicionado dá força e confiança para que o filho continue acreditando. Minha mãe sempre fez isso. É importante ter em mente que só não passa quem desiste. Em mesmo pensei em desistir. Eu me lembro que após minha reprovação na prova oral, já com 7 [sete] anos de estudos, me encontrei com meu pai na pizzaria Camello,  e ele me disse que tinha comprado duas salas comerciais, na planta, em Ribeirão Preto, e que ao receber as chaves iria aposentar e que iriamos advogar juntos. Eu disse a ele que tinha entendido a mensagem, e que seu eu quisesse continuar prestando concurso era por minha conta. Ele acenou com a cabeça. Passaram-se 1 [um] e veio a aprovação no concurso da Magistratura do Distrito Federal e dos Territórios. Dos 30 aprovados, estava em 20º. Um mês depois da posse ele vendeu as salas. Ainda não se aposentou. Por isso os pais sempre estarão ao lado dos filhos.

 

Depois de aprovado, como foi sua rotina de Juiz de Direito recém empossado?

No primeiro dia de exercício da função jurisdicional você realmente percebe que sua vida mudou radicalmente. No Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, o Juiz Substituto pode auxiliar um Juiz Titular ou assumir a Vara, ficando em exercício pleno. A rotina é puxada, audiências, despachos, sentenças, cumprimento de metas impostas pelo CNJ, e ainda, o administrativo da Vara. No início dessa nova vida tomei para mim a seguinte lição: todas as vezes que ingressava no Fórum eu deveria me lembrar que trataria a aflição de cada uma das partes do processo e, até hoje, ao decidir um processo me recordo que, por traz daquele amontoado de papel, existem pessoas com problemas a serem resolvidos.

 

Qual foi o momento mais engraçado ou curioso da sua carreira até agora?

Durante a carreira certamente o Juiz se depara com momentos inusitados. Lembro-me que estava fazendo uma audiência de instrução e julgamento de uma ação de divorcio litigioso muito conturbado. Para tentar um acordo eu pedi para uma das partes (a mulher) aguardar fora da sala para conversar com marido e tentar um acordo. Nesse momento, o marido começou a desabafar e disse: “Excelência, o sr. é muito novo, quer um conselho? Não case não, é muito sofrimento. Ela já me traiu e eu perdoei, e agora ela está me traindo de novo”. O detalhe é que minha esposa, na época noiva, estava assistindo à audiência.

 

E o mais triste?

O momento mais triste certamente foi presidir uma audiência de instrução e julgamento, na Vara de Violência Doméstica contra a mulher, em que o réu estava transmitindo o vírus HIV, propositalmente, para um grande número de vítimas mulheres. Ouvi-las, narrando o modus operandi do réu e o descobrimento da contaminação foi muito triste.

 

Quando um acadêmico ou bacharel toma a decisão de ingressar numa carreira pública, qual o primeiro passo a ser dado?

As duas grandes dificuldades de se preparar para o concurso público são a incerteza da aprovação e os recursos financeiros. Por isso, ao tomar a decisão de se enveredar para os concursos públicos, faça um planejamento financeiro do quanto se pretende investir em cursos e livros e estude com afinco e persistência. Não desanime com as reprovações, com as questões dúbias e mal formuladas, com os recursos não providos, porque a aprovação na carreira desejada vai fazer você esquecer esses percalços rapidamente. 

 

O que deve esperar o concursando na hora de optar pela carreira na Magistratura?

Não busque aplausos, não espere elogios da imprensa ou dos demais operadores do Direito, não seja Juiz por dinheiro, mas sim por amor, pois, o exercício da judicatura é árduo e trabalhoso, mas muito recompensador.

 

Comentários

© 2001-2017 - Jornal Carta Forense, São Paulo

tel: (11) 3045-8488 e-mail: contato@cartaforense.com.br