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ENTREVISTA CONCURSOS Minha trajetória nos concursos - Delegado de Polícia

05/03/2018 por Edson Satoru Sakashita

 

Em que momento decidiu se enveredar pelos concursos públicos? 

 

Fui criado num sistema capitalista muito claro.   Os japoneses idolatram tal sistema e impõem isso a seus descendentes com muita energia.     Como nissei (filho de japoneses genuínos), vi no concurso público o caminho mais curto para a autonomia financeira. E a escolha, meio que intuitiva, ocorreu no final do Curso de Direito na Universidade Estadual de Maringá-PR/UEM - 1993.   Na década de 90, do século passado, a opção do concurso público ainda não era  muito difundida nos bancos acadêmicos como ocorre hoje por conta da profissionalização de cursos preparatórios.

 

 Quando iniciou seu preparo? Qual metodologia usou?

 

Iniciei muito tarde.  Por conta do desconhecimento,  já que oriundo do meio rural e de família sem nenhuma tradição no mundo forense,  o Direito tudo foi novidade para mim,  e o preparo só teve início mesmo depois da colação de grau.  Metodologia infalível do Professor Luiz Flávio Gomes: “bunda” no banco (risos).

 

Quanto tempo demorou para ser aprovado no primeiro concurso?

Veio logo no ano seguinte, em 1994.   Sei que o preparo ideal é aquele que começa desde o primeiro dia de aula da faculdade, mas dei sorte e passei a estudar logo depois da colação.  A coisa  fica difícil quando há hiato grande entre a colação e inicio do preparo.

 

Como traçou seus focos em relação às carreiras?

 Difícil falar em planejamento estratégico naquela época. Não tinha essa facilidade de cursos preparatórios.   Quando dos estágios obrigatórios na Faculdade, desempenhei papel de Advogado, de Promotor em júri simulado e estagiário de Juiz.  O de Delegado de Polícia foi o primeiro que apareceu e deu certo.

 

O senhor sofreu alguma cobrança de familiares e amigos pelo resultado pretendido?

Ainda que de forma velada, pressão da família sempre vai existir.  E achei aquilo até compreensível, mesmo porque, além de querer ver o resultado dos cinco anos que você passa na faculdade, leia-se ganhar dinheiro, ninguém aceita com naturalidade bancar marmanjo com diploma na mão.Mas todo bom e velho concurseiro mesmo é aquele em que a cobrança brota do peito, e faz disso seu combustível para superar todos os tipos de fadiga e  alcançar sua aprovação.

 

Depois de aprovado, como foi sua rotina de Delegado de Polícia recém empossado?

Tudo que é novo gera desconforto, insegurança, frio na barriga, etc.   Sem demérito das demais carreiras jurídicas,  a de Delegado  tem um componente  que certamente  faz o profissional amadurecer mais rápido.   Estou pensando sim naquela situação em que o Delegado precisa deliberar sobre a existência ou não de flagrante delito, com vários autores em concurso de crimes, individualizar o crime e a conduta de cada um dos agentes, com doutrina e jurisprudência cambiantes e com advogados defendendo posições antagônicas.   E isso na calada da madrugada,  período em que o pensamento não  brota com lucidez,  e sem colegas  mais experientes acordados para pedir ajuda.   Não vale também suspender  a sessão e muito menos chamar os autos para conclusão.  Tudo ao vivo.   Essa foi minha rotina aos 23 anos incompletos  nos Plantões de Delegacias do Estado de São Paulo, e continua até hoje.

 

Quais as principais funções de um Delegado de Polícia?

 Para ficar naquelas estipuladas pela legislação, cito a apuração da infração penal e sua autoria, e preservação da ordem pública como as principais funções de um Delegado de Polícia.  A Presidência do Conselho de Segurança de cada Município – CONSEG – é outra função do Delegado que é digno de nota.       

 

Qual foi o momento mais engraçado ou curioso da sua carreira até agora?

Pedido curioso feito para mim na Delegacia.  Cheio de razão,  entra  na Delegacia  gesticulando bastante o Seu Zé (nome fictício), dando a entender pelo nervosismo  que algo de muito ruim tinha para denunciar. Embora tentasse disfarçar, procurando palavras difíceis na mente, um fecho de palha de milho no bolso de trás da calça apontava sua origem.   Enquanto falava, logo deu para perceber que não tolerava abuso sexual e pregava até a castração física de estupradores.  Até compreendi a indignação dele, afinal quem tolera abuso sexual não é mesmo!?,  mas não conseguia correlacionar a cachorrinha Luluzinha, meio que sem raça definida, no colo dele. Pensei, alguém lá do sitio desse senhor foi estuprado. Mania de Delegado, ansioso, logo já querer se antecipar e partir para o registro da ocorrência.   Daí a pergunta.  Sua filha Seu Zé, foi estuprada?  Sim.  Quero que o Senhor tome providência contra aquele vira-lata, cachorro do vizinho.  Aquele “desgraçado pegou e estuprou a Luluzinha sem ela querer....”

 

 

E o mais triste?

Todos aqueles crimes que tem como sujeito passivo alguém de alma pura, leia-se criança, mexe muito com o emocional de qualquer profissional.   Imagina então um menino, 4 anos, aluno de APAE, portanto, portador de necessidades especiais (quase que um anencêfalo), ser vítima continua de atentado violento ao pudor (hoje unificado no estupro), sexo anal.   Imagina ainda que o próprio pai biológico seja o autor.  Pense também que a mãe biológica, não aceitando que com ela o marido praticasse sexo anal, sugerisse o filho para saciar a lascívia dele.   Triste né!! Infelizmente nós Delegado temos de enfrentar isso.

 

Pode nos contar mais sobre sua experiência na criação do Núcleo Especial Criminal/NECRIM? 

 

O acesso à justiça sempre foi pauta de inúmeros debates na comunidade jurídica.   E o grande gargalo para o atingimento substancial desse direito individual é a cultura da litigiosidade, das trincheiras de lado a lado.      Dentro da Política Nacional de Mediação e Conciliação – Resolução 125/2010, do  Conselho Nacional de Justiça, presidido pelo então Min. Joaquim Barbosa, e das  normas insertas na Lei n. 9.099/1995,  a Polícia Civil do Estado de São Paulo, sempre ciente de sua função de pacificadora social, passou a exercer,  sob fiscalização do judiciário,  o papel de mediador de conflito de interesse decorrente de crime de menor potencial ofensivo que demanda, para o início da persecução penal, manifestação de quem de direito.  Surge  NÚCLEO ESPECIAL CRIMINAL-NECRIM. Surge o Delegado de Polícia Mediador, devidamente capacitado conforme exigência da legislação, para esse novo mister.      Tal iniciativa de vanguarda,  cuja raiz encontra solo fértil  nos ensaios do nosso ilustre colega, sempre à frente de todos nós,  Cloves Rodrigues da Costa, em 2003,  então Delegado de Polícia  da cidade de Franca-SP,  ganhou vida de direito por conta do Decreto n. 61.974/2016, de 17.05.2016, do Governador Geraldo Alckmin do Estado de São Paulo.    Com índice fantástico de acordo, destravou a pauta da Polícia Judiciária e da Justiça.   Veja o resultado aí na sua cidade!

 

 

 

 

 

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EDSON SATORU SAKASHITA

Edson Satoru Sakashita

Delegado de Polícia do Estado de São Paulo, especialista em Ciências Criminais pela Universidade Sul de Santa Catarina, especialista em mediação e conciliação pelo Escola Paulista da Magistratura.  Sede Atual - NECRIM/JALES.

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