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ENTREVISTA CONCURSOS Minha trajetória nos concursos - Delegado de Polícia

01/12/2017 por Thiago Garcia Ivassaki

Em que momento decidiu se enveredar pelos concursos públicos?

Algumas pessoas escolhem as suas batalhas. No meu caso, fui escolhido pelas minhas. Aos sete anos de idade, durante uma viagem, meu pai faleceu. Desse modo, já na infância, tive que me transformar no homem da casa para cuidar da minha família. Foi uma época bem difícil, quase passamos fome. Percebi que a única saída era vencer pelos estudos. Comecei a estudar firme desde esse período, mas os colegas da escola achavam isso incomum. Passei a ser vítima de “bullying”. As agressões verbais e físicas eram constantes. Resultado: as minhas notas eram quase todas “10”, mas repeti de ano por faltas. Depois veio a fase “depressiva”. Não tinha vontade de sair de casa em razão de tudo que ocorreu. Com muito esforço, comecei a cursar Direito. Trabalhava em dois lugares (inclusive vendi revistas como ambulante), quase tive que trancar a matrícula por falta de grana e tive apenas um livro durante os cinco anos: um Vade Mecum totalmente desatualizado! Nesse período, meus avós - morávamos com eles - ficaram doentes. Tive que ajudar minha mãe nos cuidados com eles. Em diversas situações, estudei nos hospitais. Com o término da faculdade, o contrato dos meus estágios acabou e fiquei desempregado. Além disso, meus avós faleceram e a namorada que estava comigo há quatro anos terminou nosso relacionamento por telefone. Mesmo com todos esses problemas, graças a minha força de vontade e a Deus, consegui dar a volta por cima. Estudei sozinho - não tinha dinheiro para fazer cursinho – e passei no concurso de Delegado de Polícia de São Paulo aos vinte e cinco anos de idade. Ganhei homenagens, escrevi livros, comecei a fazer palestras, passei a dar aulas no CERS e atualmente sou o Delegado/Professor mais seguido do Brasil, com quase quatrocentos mil seguidores nas redes sociais (@deltathiago). Por isso, caro (a) leitor (a), fica registrado meu conselho: acredite em você, tenha fé, lute e realize seus sonhos! Passe o trator nos obstáculos! Vale a pena!

Quando iniciou seu preparo? Qual metodologia usou?

Eu sempre estudei sozinho (desde o início da faculdade), pois não tinha dinheiro para fazer cursinho. Usava doutrinas (os famosos “tijolões”) para ter uma base de conhecimento sólida. Usei muito pouco sinopses. Fazia resumos, revisões periódicas, exercícios, assistia à TV Justiça e lia acórdãos. 

Quanto tempo demorou para ser aprovado no primeiro concurso?

O edital do concurso de Delegado de São Paulo foi publicado cinco meses após a minha formatura no Direito. Estudei bastante e consegui ser aprovado graças a Deus. Foi o meu primeiro concurso de carreira jurídica. Ter sido aprovado na primeira tentativa e sem cursinho é uma conquista que me deixa muito feliz e orgulhoso. Antes disso fui aprovado também em outros exames e concursos: SAP, MPF, TRF1 e OAB.

Como traçou seus focos em relação às carreiras?  

Eu sempre quis fazer Direito para exercer uma atividade com transcendência social. Fazer o bem, aplicar a lei, buscar Justiça, esses foram os meus parâmetros na escolha da carreira.

O senhor sofreu alguma cobrança de familiares e amigos pelo resultado pretendido?

Não sofri esse tipo de cobrança, porque sempre fui muito responsável e esforçado. Nunca precisei ouvir de ninguém que o estudo é o melhor caminho para a pessoa vencer na vida.

Depois de aprovado, como foi sua rotina de Delegado de Polícia recém empossado?

Foi bem difícil. Minha vida mudou muito! Tive que sair do interior para a capital. Nossa turma de Delegados não teve sequer um dia de estágio. Aprendi tudo sozinho, na prática.

Quais as principais funções de um Delegado de Polícia?

De acordo com a Carta Magna, o Delegado comanda a Polícia Judiciária, apurando infrações penais e auxiliando o Poder Judiciário. Na minha visão, o Delegado é o primeiro garantidor dos direitos fundamentais. O pensamento obsoleto de que o Delegado serve apenas para prender pessoas merece ser sepultado, juntamente com outros ranços que afetam essa carreira. O Delegado deve buscar a justiça, seja prendendo culpados, seja liberando inocentes. No momento da prisão em flagrante ou no curso do inquérito, por exemplo, é fundamental que tal autoridade reconheça provisoriamente as excludentes do crime, como o princípio da insignificância e a legítima defesa, sob pena de inegável injustiça.  Obviamente, a palavra final será dada pelo Judiciário, após a análise do Ministério Público. O Delegado tem que se basear no Garantismo Integral (proibição de excesso e proibição de proteção deficiente), jamais no Garantismo Hiperbólico Monocular, responsável por várias das nossas chagas.

Qual foi o momento mais engraçado ou curioso da sua carreira até agora?

Eu tenho vários momentos interessantes, mas destaco três que foram bem marcantes. O primeiro ocorreu num 08/12 (Dia da Justiça), no mesmo plantão, atendi duas pessoas que ocupavam posições totalmente distintas na sociedade: uma bem rica (vítima de furto) e uma bem pobre (usuária de droga lesionada pelo companheiro). As duas elogiaram o atendimento. Nesse dia, senti a importância de tratar todas as pessoas de forma isonômica. No segundo, prendi um indivíduo por roubo, a comunicação da prisão foi levada ao fórum e depois surgiu uma prova nova da inocência dele. No mesmo momento, pessoalmente, fui conversar com o Juiz, com o Promotor e com o Defensor. Expliquei tudo e pedi para o flagrante ser relaxado. Deu certo! Nunca vi isso: o Delegado pedir o relaxamento da sua própria prisão. A liberdade da pessoa está acima de qualquer tipo de vaidade. O terceiro aconteceu num 20/11 (Dia da Consciência Negra), data marcada pela luta em prol da igualdade. Tive plantão e um homem pobre que se encaixa no perfil seletivo do nosso sistema (quase nunca pune ricos) foi conduzido à Delegacia, acusado de ter furtado três cuecas. Sem antecedentes, ele falou que queria vender as cuecas para comprar leite para uma bebê (enteada). Apliquei a insignificância, ele foi liberado e ainda dei a ele um lanche e dinheiro para o leite. Não podemos mudar o mundo, mas se cada pessoa fizer a sua parte, ele pode se tornar um lugar melhor para as futuras gerações. Precisamos de mais agentes públicos humanos e justos!

E o mais triste?

Ocorrências envolvendo chacinas e abusos contra crianças estão entre as mais tristes das minhas lembranças.

Quando um acadêmico ou bacharel toma a decisão de ingressar numa carreira pública, qual o primeiro passo a ser dado?

Ele precisa analisar se realmente tem vocação para a carreira escolhida. Lamentavelmente, boa parte das pessoas escolhem o serviço público em virtude de status, estabilidade econômica, poder (usar distintivo, portar arma, andar de viatura etc.), enfim, tais objetivos são colocados em primeiro lugar na escala de desejos, quando, na verdade, deveria ser a vocação a principal motivação, juntamente com o ideal de fazer o bem em prol da coletividade.

O que deve esperar o concursando na hora de optar pela carreira na Polícia Judiciária?

A carreira policial é uma das mais importantes do mercado, já que está ligada à segurança pública. Mas, infelizmente, no Brasil, os Governos e uma parcela significativa da sociedade não valorizam o trabalho policial. Destarte, quem deseja ingressar na carreira policial deve saber que enfrentará muitas mazelas. Ainda assim, a carreira policial é apaixonante, pois é a guardiã das pessoas no combate à criminalidade.

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THIAGO GARCIA IVASSAKI

Thiago Garcia Ivassaki

Delegado de Polícia. Escritor e Palestrante. Professor do CERS. Redes sociais: Instagram/Periscope/Snap/You Tube: Delta Thiago - Facebook: Delegado Thiago

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