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Entrevista A Era das Juristas

01/03/2007 por Ada Pellegrini Grinover

A Era das Juristas

 

 

Carta Forense - Qual foi a reação de seus amigos e familiares quando decidiu optar pela Faculdade de Direito? Houve alguma advertência pelo fato de ser mulher?

 

Ada Pellegrini Grinover -Venho de uma família de juristas. Meu bisavô foi desembargador na Itália. Meu pai, advogado e professor de Direito Constitucional e de Economia na Faculdade de Direito de Nápoles. Tinha uma biblioteca de 5000 volumes, que infelizmente foi em parte destruída por um incêndio em Roma, onde morávamos. O que restou, está hoje comigo. Meu irmão é advogado, formado na Itália. Minha opção foi natural e apoiada por todos. O fato de ser mulher foi absolutamente irrelevante.

 

CF - Havia alguma forma de preconceito por parte dos amigos e professores na faculdade?

 

APG - Na minha turma, que se formou em 1957, as moças atingiam o percentual de apenas 10%. Sempre fomos muito respeitadas pelos colegas e pelos professores. Houve alguns fatos curiosos ligados ao gênero: o professor de Medicina Legal, quando ia começar as aulas sobre sexologia, pediu às moças que se retirassem da classe. Perguntei se a matéria ia cair na prova e, diante da resposta afirmativa, falamos em coro: "então ficamos". E ficamos. O Centro Acadêmico XI de Agosto só era freqüentado por rapazes, enquanto as moças tinham à sua disposição duas salas, no segundo andar, chamadas "Departamento Feminino". Resolvemos utilizar o bandejão do Centro Acadêmico e avisamos a Diretoria que iríamos descer para o almoço. Um deles ameaçou que tirariam a roupa. Respondemos: "Fiquem à vontade", descemos e ninguém tirou a roupa. A partir daí as moças passaram a freqüentar o XI de Agosto e o tal de Departamento Feminino morreu de inanição.

 

CF -  É verdade que muitas moças entravam na faculdade para arranjar um casamento? Havia este tipo de ideal em algumas estudantes?

 

APG - Era o que alguns rapazes diziam, mas se isso ocorria se tratava de uma exígua minoria. É verdade que algumas delas casaram com colegas de turma, mas mesmo essas seguiram a carreira jurídica. Minha turma deu duas professoras titulares para a Faculdade: Ivette Senise (que casou com um colega de turma e foi estudar na França com ele), que chegou a Diretora da Faculdade, e eu.

 

CF - O fato de ser mulher naquela época limitava alguns de seus sonhos?

 

APG - De forma alguma. Sempre quis advogar e ser professora. Comecei a advogar no terceiro ano da Faculdade, ainda como estagiária ("solicitadora acadêmica", à época). Casei enquanto cursava o 5º ano e continuei advogando. Formada, montei meu escritório com uma colega de turma. Fiz a especialização, doutorei-me e segui a carreira universitária. Tudo como sempre quis.

 

CF - Os costumes machistas faziam com que algumas operadoras do Direito tendessem a alguma área específica?

 

APG - Não. Mesmo naquela época, havia uma advogada que era uma fera em matéria falimentar e a Esther Figueiredo Ferraz era uma sumidade em direito penal. Eu trabalhei no ramo securitário. Algumas foram para a área trabalhista, inclusive como juízas. O único obstáculo era a magistratura estadual, que efetivamente excluía as mulheres nos concursos públicos. Enquanto em outros Estados já tínhamos desembargadoras de carreira, em São Paulo demorou anos para que as mulheres se tornassem juízas estaduais.

 

CF - Como procuradora do estado a senhora se sentiu alguma vez subestimada pelo fato de ser mulher?

 

APG - Jamais. Quando entrei na carreira, em 1970, já havia nela muitas mulheres. Sempre fui prestigiada na Procuradoria.

 

CF -  E como professora e jurista?

 

APG - Quando prestei concurso para professor titular, em 1980, só havia outra professora titular: Nair Lemos Gonçalves, de Direito do Trabalho. Enfrentei nesse concurso a adversidade de ser acusada de plágio pelo meu concorrente. Foi uma época muito amarga e sofrida. Mas não acredito que a resistência se deveu ao fato de eu ser mulher. O mundo acadêmico tem freqüentemente episódios de verdadeira ferocidade. A resposta foi ganhar o concurso, com cinco indicações.

 

CF - Qual a diferença mais marcante que o sexo traça em relação à atuação do homem e da mulher no Direito?

 

APG - Não há diferenças no plano técnico. Antigamente, a mulher, para se impor, tinha que demonstrar sua competência, enquanto do homem se considerava que ela fosse natural. É que a mulher (advogada, juíza, promotora, jurista) ficava sob os olhos de todos, sob os holofotes. Hoje a profissional do direito é tão comum, que não chama mais a atenção. Mas certamente a mulher traz ao mundo do direito a sua cosmovisão: seu humanismo, sua sensibilidade, sua tenacidade, sua valentia. A mulher está acostumada a enfrentar e superar dificuldades, tem que conciliar a vida profissional com a doméstica (a famosa "dupla jornada") e isso a torna mais forte: a mulher, na profissão e fora dela, é uma guerreira.

 

CF - Quais são as conseqüências futuras deste fenômeno de "feminilização" do Direito no Brasil?

 

APG - Simplesmente que haverá mais mulheres nas profissões jurídicas. Um exemplo marcante são as mulheres delegadas de polícia, que certamente a estão humanizando.

 

CF - Qual a mensagem que a senhora gostaria de mandar a estas moças que estão atuando neste campo, hoje, sem as barreiras de outrora?

 

APG - Que estudem, estudem e estudem ao longo de toda sua carreira profissional. Que se preocupem com a dimensão social e política do direito. Que não se conformem nunca. Que vivam o direito não como uma simples técnica, mas que operem como verdadeiras engenheiras sociais, incidindo sobre a realidade, para transformá-la.

Mas isso serve para homens e mulheres. Todos, homens e mulheres, somos responsáveis pela sociedade em que vivemos.

 

 

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ADA PELLEGRINI GRINOVER

Ada Pellegrini Grinover
Advogada. Professora Titular da Faculdade de Direito da USP. Autora de diversas obras dentre as quais: O controle jurisdicional de políticas públicas, Editora Gen- Forense.

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