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Entrevista A Carreira na Advocacia Internacional

19/03/2008 por Silvia Fazio
Carta Forense - Como surgiu o interesse de advogar em bancas internacionais de advocacia?
Silvia Fazio - Na realidade inicialmente esse interesse surgiu através de uma preferência pessoal e não tanto por razoes ligadas a minha carreira em si. Durante os anos da minha graduação (e até mesmo antes disso) sempre gostei muito de estudar outros idiomas e costumava ir a Europa (durante o verão europeu) para estudar alemão e italiano. Nesse mesmo período, comecei a me interessar por Direito Internacional do ponto de vista acadêmico. Visitei várias vezes o Max Plank Institut em Hamburgo, o Instituto de Direito Internacional Privado em Heildelberg e o Unidroit em Roma. Com essas visitas tive a oportunidade de conhecer pesquisadores e professores que foram extremamente gentis e solícitos e certamente influenciaram as decisões que tomei mais tarde.

CF - Chegou a estagiar nesta área durante a graduação?
SF - Quando fiz estágio (no Demarest & Almeida) acredito que esse gosto pessoal começou a se tornar mais concreto e voltado para o desenvolvimento de uma carreira internacional, pois tive a oportunidade de trabalhar no setor bancário daquele escritório, onde basicamente assistia grandes investidores estrangeiros a ingressar no país e trabalhava com contratos e garantias bancárias internacionais. CF - Ainda na faculdade como foi seu preparo para atuar neste ramo do Direito? SF - Na Faculdade sempre procurei voltar a minha atenção para as áreas internacionais. Durante o quinto ano (no qual temos várias opções de matérias na São Francisco) optei por todas as matérias ligadas ao direito internacional: Direito Internacional Privado, Direito Internacional Público, Direito da Integração Econômica (uma matéria que trata do processo de regionalização do Direito, tais como direito do Mercosul e Direito da EU), Direito das Organizações Internacionais, etc...

CF - Quais são os estudos interdisciplinares para atuar na advocacia internacional com maior êxito?
SF - Acredito que o direito internacional privado seja fundamental para que o jovem estudante comece a entender o funcionamento de mecanismos de conflitos de leis e de escolha de jurisdição (muito importantes em contratos internacionais). Para aqueles que ambicionam um setor ainda mais seleto tais como arbitragens internacionais e direito da OMC (hoje em dia acredito que esses dois setores sejam vistos como a "elite" da advocacia no mercado europeu) é muito importante ter um bom conhecimento de Direito Internacional Público também.

CF - Depois de formada qual foi o procedimento para ingressar neste seleto mercado?

SF - Assim que me formei, resolvi fazer um mestrado em Direito Internacional Privado na Universidade de Heidelberg, Alemanha, no qual obtive excelente resultados. Depois disso, tive um convite para trabalhar em um escritório de advocacia em Bolonha na Itália. Tratava-se de um escritório muito ativo em direito comercial internacional e tive a oportunidade de atuar para importantes empresas italianas que estavam investindo na América Latina, especialmente Brasil, Argentina e México. Em Bolonha não perdi o meu interesse acadêmico, visto que o "sênior partner" do escritório em que eu trabalhava é um professor renomado da Universidade de Bolonha e ele me convenceu a trabalhar como assistente acadêmica no seu curso de direito da propriedade industrial. Com o tempo, o fascínio da universidade mais antiga do mundo me seduziu e eu não resisti a fazer um outro mestrado em Direito Europeu na Universidade de Bolonha. Durante um verão (europeu) resolvi fazer um curso em "English Legal Methods" para advogados estrangeiros na Universidade de Cambridge, no qual conheci muitos acadêmicos e advogados e acabei recebendo um convite para trabalhar em um escritório em Londres. Achei a proposta interessante e resolvi partir para mais esse desafio.

CF - Qual foi o procedimento para a senhora obter a licença para advogar em Portugal, Itália e Inglaterra?

SF - O procedimento foi aquele solicitado pelas respectivas ordens dos advogados dos países em questão, o que envolveu uma enorme burocracia e preparação para exames. Não acredito que seja necessário ao profissional que queria atuar no Brasil obter uma licença para trabalhar em um outro país. A licença pode ser útil somente quando o advogado pretende atuar em um país a titulo permanente ou semi-permanente, como é o meu caso. Eu nesse momento advogo em Londres e tenho clientes ingleses com interesses no Brasil, Portugal e Itália. Ao mesmo tempo, tenho clientes brasileiros, italianos e portugueses que tem interesses aqui em Londres. Viajo muito para todos esses paises e me sinto "quase" uma advogada local, mas trabalho muito em conjunto com escritórios locais, pois não acredito que um profissional tenha condições na pratica de se manter atualizado e atuar em tantas jurisdições ao mesmo tempo. A licença que realmente uso é a inglesa, advogando na maioria dos casos para clientes estrangeiros com interesse na Inglaterra, pois essa é a jurisdição de minha residência.

CF - Qual a maior dificuldade para um advogado brasileiro se adaptar aos outros sistemas jurídicos?

SF - Eu acredito que depende muito da área de interesse do advogado. Eu trabalho com direito comercial e contratos internacionais, um setor no qual o direito anglo-saxão sempre exerceu uma influencia global muito grande, por isso quando comecei a atuar aqui tive a impressão que eu já tinha um conhecimento razoável do direito comercial inglês. Para aqueles interessados em direito processual, acredito que precisam esquecer tudo o que aprenderam no Brasil e começar do zero, pois os conceitos fundamentais são completamente diferentes.

CF - Levando em consideração a globalização e o espaço que o Brasil vem adquirindo no mercado internacional, há um grande interesse das bancas estrangeiras em possuir um advogado especialista em legislação brasileira? Abriu-se uma nova oportunidade para os advogados do Brasil neste sentido?
SF - Eu vejo com muito bons olhos o amadurecimento da diplomacia brasileira e da posição do país no cenário internacional. As conquistas do país na OMC e a boa atuação de empresas brasileiras no exterior estão realmente criando uma nova imagem do país. Eu acredito que oportunidades para brasileiros tendem a crescer, tanto em departamentos jurídicos de grandes multinacionais presentes no país, como em grandes escritórios de advocacia com interesse internacional. Brasileiros têm atuado no exterior como estagiários, assistente e "visitors" já há algum tempo. O importante é que o valor do advogado brasileiro seja reconhecido e que o advogado brasileiro tenha a oportunidade de progredir na carreira em um ambiente internacional. O meu caso é pioneiro nesse sentido e eu espero que possa abrir muitas e muitas portas para jovens estudantes brilhantes, do qual o nosso país está repleto.

CF - Qual o conselho que a senhora daria para aqueles profissionais que querem fazer uma carreira como a sua?

SF - Eu acredito que seja fundamental que o profissional tenha um genuíno interesse por direito internacional e esteja psicologicamente preparado para viver fora desse país maravilhoso que é o Brasil.

Comentários

  • MARCO AURÉLIO BRITO LOUREIRO
    04/04/2014 07:17:40

    Bom dia, fascinante sua carreira, sou bacharel em direito no Brasil e estou residindo em Bolonha neste momento, minha esposa adquiriu dupla cidadania Italiana,é proprietária de uma estética no Brasil e esta abrindo uma aqui em Bolonha, gostaria de trabalhar em um escritório de advocacia aqui com ligações com o Brasil, alguma sugestão? Grato!!!

  • Vin¡cius
    10/08/2011 19:34:09

    Ol ! Gostaria de perguntar se para atuar como promotor no exterior eu teria que revalidar meu diploma?

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