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FILOSOFIA Volta às Aulas! "Sapientia et augebitur scientia"

03/02/2015 por Luciene Félix

Desde quando iniciei a graduação em Filosofia na PUC-SP (2002), ao final de cada semestre tínhamos que escolher as disciplinas a cursar no próximo. Era praxe, nos intervalos, pelos corredores, sondarmos os veteranos buscando informações sobre os docentes.

 

Sobre a Titular de Filosofia Antiga, a Profª Drª Rachel Gazolla de Andrade, a resposta era unânime e categórica: “Competente, mas muito exigente”. Ao aventar tê-la como orientadora, seja para um TCC, Mestrado ou Doutorado, ironizavam dizendo que isso era buscar “grife”. De fato, por conta da seriedade, seu nome tornou-se paradigma de rigor científico e, até hoje, é essa a fama que a precede.

 

Exigente, sem dúvida, mas também generosa (éramos orientados a cursar o grego ático, custeado por ela mesma aos que não dispunham de recursos), compartilhando seus saberes aos privilegiados discípulos dispostos a ouvir seu “lógos”.

 

O estudo da Filosofia passa, necessariamente, pelo debruçar-se sobre a Filosofia Antiga que, indispensável, constitui a base de todo pensamento filosófico ocidental.

 

Eis que, surpreendentemente, a admirável helenista, com mais de três décadas de “casa”, detentora de vasta e relevante produção acadêmica em pesquisas e docência na área de Filosofia Antiga, editora da Revista Hypnos (classificação B1 no Qualis/Capes, com mais de trinta números publicados), idealizadora e realizadora dos Simpósios Interdisciplinares de Estudos Greco-romanos, evento internacional, promovido anualmente, reunindo os mais renomados helenistas (já na 21ª Edição), fundadora do Grupo de Estudos Platônicos, reconhecida nacional e internacionalmente, a Profª Drª Rachel Gazolla de Andrade, juntamente com outros 49 catedráticos, foi demitida.

 

A notícia nos deixou perplexos, indignados. Incrédulos, pensamos tratar-se de um equívoco, um lamentável mal-entendido, pois à dispensa de uma produtiva acadêmica, de indiscutível dedicação à Cátedra, não encontramos justificativa.

 

Considerando que o espanto é o que desencadeia o pensar, a filosofia, somos levados a refletir sobre a perversidade de nosso sistema de governo que, habituado a socorrer bancos e indústrias em crise – por exemplo –, permanece, no entanto, alheio, desatento à importância do apoio e do amparo às universidades.

 

Dentre os inúmeros ensinamentos, aprendi que “excelência” (cumprir bem àquilo para o qual se destina) em grego é “areté”. Que a “areté” do médico é a cura; a do olho, enxergar bem; a do guerreiro, a vitória e que a “areté” da empresa, é o lucro. Sendo assim, qual é a “areté” da universidade?

 

Seu “télos”, seu propósito basilar é a ciência, a pesquisa, a formação de seres aptos a pensar e trabalhar pela melhoria do mundo, tarefa que a doutora sempre exerceu com maestria, mantendo acesa a chama do verdadeiro espírito socrático, consolidando a excelência do Curso de Filosofia da PUC-SP.

 

A contribuição que uma docente dessa estirpe traz à universidade e, consequentemente à toda sociedade é intangível, inabarcável, ainda mais depois de décadas compartilhando sua “philía à sophia”.

 

Registro meu respeitoso apelo aos dirigentes universitários para que não seja comprometida a qualidade do corpo docente, até porque nesses tempos tão sombrios em que vivemos, não podemos prescindir de brilhantes e dedicados profissionais com os quais a universidade e todos que dela se beneficiam direta e indiretamente, se engrandece.

 

Reduto de liberdade onde se forma a elite intelectual de nosso país, não podemos traficar a “ratio”, compactuando com a deplorável decadência que, há tempos à espreita, bate à porta do ensino superior, atingindo justamente o cerne de um dos mais nobres componentes de nossa constituição político-social: a cátedra.

 

No brasão da PUC-SP lê-se: “Sapientia et augebitur scientia”, que em latim significa: “a sapiência e a ciência serão aumentadas”. Que esse lema norteie a todos, constituindo um legítimo símbolo de resistência, de enaltecimento do entendimento e do humanismo.

 

Desejando a todos feliz “Volta às aulas”, conclamo que não prescindamos de erguermo-nos à luta por nossos ideais. Aliás, sempre foi sobre a relevância do “ideal” que a Mestre tanto nos ensinou. À todos os docentes, especialmente à ela, minha eterna gratidão.

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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