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Folha do Acadêmico Uma experiência longe de casa...

06/11/2006 por Glauco Hanna

Uma experiência longe de casa...

 

Enquanto estava na Faculdade, por inúmeras vezes pensei em fazer uma pós-graduação fora do país. Um plano audacioso, um desejo ambicioso, uma vontade que me perseguia a cada dia.

Uma coisa era certa: eu realizaria tal sonho, só não sabia quando!

A idéia foi amadurecendo, ganhando vida, surgiu e morreu em diversas folhas de papel, arquivos eletrônicos, rascunhos e rabiscos passageiros.

A faculdade acabou e eu não havia concretizado nada para que ele vingasse.

Comecei, então, uma especialização e com isso o tão sonhado projeto de vida foi engavetado. Logo depois, entrei no mestrado no Brasil e nada de realizar meu sonho!

Um dia, refletindo sobre a vida, fiz uma analogia dos meus planos com os "Contos Peregrinos" de Gabriel García Marques, já que ambos migraram de prateleiras para gavetas, de gavetas para a mesa, da mesa para a sombra, dali para a escrivaninha, de lá para o armário, que seguiu até uma estante, enfim, era um projeto nômade e que ansiava por ser realizado.

Já engajado no mundo acadêmico, acordei um dia disposto a remexer algumas coisas deixadas para trás e lá estava ele. Era hora de realizá-lo!

Horas de pesquisa de cursos na Internet! Longas conversas com amigos! Dicas de Professores! Apoio familiar! Palavras sábias do meu orientador! Informações colhidas aqui e acolá. Palpites escutados.

Enviei e-mails para professores estrangeiros. Recebi materiais de Universidades. Tive muita paciência, perseverança e foco! Naquele instante não poderia perder o foco: tarefa árdua!

O tempo passou e o projeto ganhou peso. As informações foram se encaixando, os lugares surgindo, enfim, percebi que algo ia se materializando.

Parecia irreal, mas o projeto peregrino criou raízes e não saiu mais da minha mesa de trabalho! Tudo estava engatilhado...

Hemisfério norte. Calendário letivo diferente. Tinha tempo para pensar em tudo, mas eu precisava agir rápido.

Uma ótima solução: férias! Era o que eu precisava: conhecer lugares onde eu me sentisse bem para viver e estudar. E fui rodar pela Europa! Portugal, Espanha, França e Suíça.

Surpreendentemente, no meio da viagem, recebo um inesperado e-mail de um professor da Universidade de Barcelona, convocando-me para uma entrevista!

Frio na barriga!

Tracei uma mudança brusca no meu roteiro com um rumo certo: Barcelona, Espanha!

Cheguei somente na noite anterior ao dia da entrevista, exausto, desacostumado com o idioma e um pouco assustado com o porvir!

Viajei totalmente desprevenido, pois sequer tinha um terno. Sinceramente, jamais pensei em ser chamado para uma entrevista tão imediata. Fui pego de surpresa!

Ajeitei a melhor roupa, acordei bem mais cedo do que o horário previsto, estava realmente excitado com aquela chance de concretizar um sonho. O meu grande desafio!

Cheguei antes que o professor. Enquanto caminhava de um lado ao outro, passei o olho nas informações dos painéis do corredor do departamento. Sentia meu estômago doer. Não sabia quem era o professor e tampouco havíamos conversado. Era uma espécie de encontro às escuras. Algo jamais vivido!

Alguns minutos depois do horário marcado surge um homem de estatura média, agitado, um pouco atrapalhado com as coisas que segurava, caminhando e olhando-me fixamente.

Logo percebi que era o tal professor.

Cumprimentamo-nos e entramos numa sala.

Ali começou a entrevista de mais de uma hora que mudou a minha vida!

O começo da conversa foi realmente complicado, pois ele permaneceu mudo quase todo o tempo. Eu, sem saber lidar muito com a situação, insistentemente pensava que tinha que me acalmar.

Contudo, o que consegui foi permanecer um minuto em silêncio na tentativa de provocar algum tipo de reação, mas não adiantou!

Um silêncio estarrecedor. Uma angústia violentadora. Uma tristeza sem igual!

Num piscar de olhos vi meu sonho desfalecer, porém, antes de ouvir o seu último suspiro, consegui me acalmar!

Contornei a situação com uma manobra jamais imaginada, expus tudo o que queria e planejava. Sentia que algo maior me levava naquela conversa, entendi a força de um sonho.

Dali em diante, muito diálogo, livros apresentados, programa de aulas, projetos de pesquisa, curiosidades quanto aos meus interesses etc. Finalmente percebi que eu tinha despertado o interesse daquele homem que até então estava num silêncio sepulcral.

Fim da entrevista! Sai da sala feliz, aliviado e com o sentimento de dever cumprido.

Uma porta se abriu à minha frente. Um senhor peculiar. Um catedrático. Um dos homens mais respeitados da Universidade!

Tão logo aquela figura despontou para fora da sua sala, o professor com quem conversei imediatamente apresentou-me a ele. Dois infindáveis minutos de palavras no corredor e, inesperadamente, o homem mais disputado e sem tempo da Universidade me chama para uma entrevista.

Fui sabatinado! Sai de lá quinze minutos depois, devendo um projeto, um tema de pesquisa e a leitura de um livro.

Voltei para o hotel atordoado, porém, sabendo que eu tinha sido aprovado, pois só dependeria de mim, do meu projeto, do meu empenho, do meu foco!

Cá estou eu, em Barcelona, na iminência de começar meu doutorado e meu sonho de vida. Uma questão de foco!

No entanto, esse sonho começou com um pesadelo: chegar sem malas, não ter onde morar e experimentar uns dias parecidos com o do Xavier, protagonista do filme "Albergue Espanhol".

Mas isso é uma outra história!

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