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FILOSOFIA Um flagrante de adultério e o mito do Hermafrodito

27/12/2013 por Luciene Félix

Um dos maiores trunfos da mitologia Greco-romana consiste na criatividade com a qual os antigos aedos (poetas) transmutam fraquezas e mazelas humanas em poesia, imprimindo em seus relatos uma singela e rara beleza.

 

O estranhamento e, às vezes, até repulsa, de um corpo que porta ambos os sexos, masculino e feminino, na narrativa alegórica torna-se digno de encanto e magia, pois no mito, o que poderia ser tomado inicialmente por aberração, explicita o enlace amoroso entre deuses imortais.

 

Há duas versões para a origem do Hermaphróditos, filho do mensageiro dos deuses, Hermes (Mercúrio, na mitologia romana) e da deusa do amor e da beleza, Afrodite (Vênus). Inspiremo-nos, primeiro, no poeta romano Ovídio, em sua obra Metamorfoses.

 

O ferreiro divino e mestre da techné, Hefestos (Vulcano), legítimo filho de Zeus (Júpiter) e da soberana deusa Hera (Juno), profundamente admirado por todos os deuses e heróis olímpicos, é casado com a estonteante Afrodite, que o trai constantemente com o violento deus da guerra, Ares (Marte), que só não pensa em trucidar um, quando está inebriado em seus braços.

 

Trabalhador incansável, o feioso deus coxo, Hefestos, marido da mais bela e desejada divindade, é disciplinado e extremamente focado em seus afazeres. Diariamente, segue para o vulcão, sua oficina, de onde só sai tarde da noite, já bem exausto.

 

Um belo dia, ao partir para a labuta como de costume, Hefestos é interpelado por Apolo (Hélios) – o Sol, de quem ninguém nem nada se escondem – e ouve a revelação de que sempre que sai, sua mulher recebe o viril deus Ares em casa, com quem fica a sós por horas e horas enquanto um atento sentinela fica de plantão, do lado de fora.

 

Diante da incredulidade do marido, Apolo o desafia a fazer um teste: que no dia seguinte finja que vai trabalhar como de costume, mas que volte algum tempo depois, sem avisar para flagrá-los em adultério.

 

Hefestos, que é exímio artesão, prepara então uma rede de aço inquebrantável e retorna ao lar silenciosamente. Qual não foi o espanto de tão dedicado (ao trabalho!) marido em confirmar a denúncia, surpreendo-os em pleno deleite amoroso!

 

Inconformado, Hefestos joga a rede sobre o casal de amantes e chama todos os deuses para testemunhar a traição protagonizada por Afrodite e Ares.

 

A ala feminina do Olimpo, até por solidariedade ao gênero, se recusa a assistir tamanho constrangimento. Já os demais deuses, correm curiosos para presenciar.

 

Alvoroçados, comentam o quão espetacularmente divinos são os predicados de Afrodite e, uns mais discretos, outros nem tanto, tecem as piadinhas mais infames sobre a cena (confiram o flagrante retratado na belíssima pintura de 1827, de autoria de Alexandre Charles Guillemot, em nosso Blog).

 

Apolo pergunta a Hermes o que ele acha da situação e o tagarela não titubeia em conjecturar sobre o que não daria para ter Afrodite no leito, mesmo que fosse somente uma vez, que para ter o privilégio de estar no lugar de Ares, um vexame desses não era nada, arrancando uma gargalhada geral.

 

Os deuses intercalam o murmuroso lamento devido ao ultraje sofrido pelo competente e talentoso Hefestos, sempre tão honesto e digno e a secreta cobiça pela proeza de Ares, cuja virilidade ímpar, tanto invejam.

 

Irado, pois constata que a lâmina de sua espada é ineficiente às poderosas tramas da rede trançada por Hefestos, Ares amaldiçoa ali mesmo o pobre sentinela que deixava de plantão: penalizando-o por ter cochilado, transforma-o imediatamente num galo e profere que dali em diante ele nunca mais deixará de cantar, alertando sobre a chegada do Sol (Apolo).

 

Afrodite abaixa a cabeça e esconde o rosto com uma das mãos; com a outra, em vão, tenta cobrir o corpo, pois cobiçada por sua estupenda nudez, se sente devorada por todos. Envergonhada, decide se exilar por uns tempos na ilha de Chipre, até a poeira assentar e o episódio deixar de ser o principal assunto no Olimpo (o que demorou um bocado).

 

Mas a deusa do amor e da beleza ouvira as galanteadoras palavras que Hermes dirigiu a Apolo. Tomada de desejo por saber que era assim tão desejada, sente-se envaidecida e, antes de partir, decide se unir a ele.

 

E é assim que, após uma noite de amor, geram o Hermafrodito, que nasce com os dois sexos: masculino por parte de Hermes e feminino por parte dela.

 

Noutra versão, segundo o especialista, Junito de Souza Brandão, o deus Hermes teve muitos amores e vários filhos, mas o mais famoso é o Hermafrodito, criado pelas ninfas, nas florestas do monte Ida, na Frígia.

 

Diz-se que o rapaz era de uma beleza física tão paralisante quanto Narciso. Aos quinze anos, viajou pela Ásia Menor e, um dia, ao avistá-lo nas margens de um lago, a ninfa Sálmacis se apaixonou perdidamente por ele.

 

Repelida, a jovem fingiu conformar-se, mas quando Hermafrodito se despiu e se lançou às águas do lago, enlaçando-o com uma toda a força de sua paixão, Sálmacis rogou aos deuses que os unissem para sempre.

 

Eles decidiram atender à súplica da apaixonada e assim fizeram surgir um novo ser, de dupla natureza.

 

O mito do Hermafrodito, segundo Brandão, explicita uma repetição ou recapitulação do andrógino primordial que, além de contar com as duas versões acima, também já vimos na fala do comediógrafo Aristófanes ”O Banquete”, de Platão (publicado na edição de outubro/2008 da CF).

 

Conta-se que o Hermafrodito também fez um pedido aos olímpicos e foi prontamente atendido: que todo aquele que se banhasse no lago de Sálmacis perdessem a virilidade.

Tags: Filosofia

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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