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ENSAIO Um diálogo que desconstrói a sociedade.

 

            A câmera mostra em close sapatos femininos, de salto alto, negros, que repousam sobre um carpete lilás, muito felpudo. Abre o foco e se nota, ao lado, a mulher a quem pertencem, com os pés descalços sobre o mesmo carpete, mas com meias-calça escuras. A câmera acompanha seu corpo pernas acima, enquanto abre ainda mais o foco: vê-se que ela está de costas, mirando o anoitecer pela janela de um andar alto de um prédio da Av. Paulista. Abre-se mais o foco e as estantes de livros jurídicos denotam que o ambiente é a biblioteca de um escritório de advocacia. Uma mesa de centro, onde repousam papéis e uma caneta feminina, com um rubi encravado. Mas a advogada continua à janela. Entra seu sócio (B), também de meia idade e trajando gravata e abotoaduras.

 

Sócio B: Os operários lá em baixo indo ao metrô, e nós ficamos aqui até não sei que horas. Mas, para os sindicalistas, os “trabalhadores” são só eles.

 

Advogada: [ainda mirando pela janela]: Eu confesso que já tive muita motivação pra ficar aqui até altas madrugadas. [virando-se para o sócio]: Mas hoje tenho inveja desses que saem às 18h. Nem todos vão direto pro metrô: vão pra aula de zumba, pro inglês. Pra outro emprego.

 

Sócio B: [Senta-se à mesa e toca a caneta com o indicador. Supira]: Estamos numa quinta-feira especialmente difícil pra você. Quer dizer, eu te conheço e sei que você é mais sensível, então foram dias duros: eu tinha audiência, daí tiveste que ir ao DP para, digamos assim, relaxar um flagrante; nos jornais, o ministro da Justiça cai no grampo pedindo pra darem um jeito nas fiscalizações dos amigos; recebes no meio da tarde a visita de um colega nosso, sem qualquer aviso, que somente se apresenta como “sobrinho de Sua Excelência”. Tudo isso, de uma vez, foi uma overdose pra você.

 

Advogada: Pra você não?

 

Sócio B: Eu acho que caí no caldeirão disso aí quando era criança, como o Obelix. Já não me afeta.  Se aceita conselho, esqueça a semana e planeje tua sustentação oral.

 

Advogada: E fará diferença o que eu vou discursar? Se já sabemos...

 

Sócio B [interrompendo]: O futuro pertence a Deus, não sei de nada. Ou sei que, se você não prepara tua fala agora, trabalhará no fim de semana. E precisas de descanso.

 

Advogada: Acho que a sociedade ruiu de vez.

 

Sócio B: Lá vem teu discurso comunista. Como se na tua utopia não houvesse...

 

Advogada: Falo da nossa sociedade. De advogados.

 

Sócio B:  De quê? Nosso Sócio C deveria estar aqui pra ouvir isso.

 

Advogada: [Só agora ela se senta à mesa, mirando nos olhos do sócio]: Deixa ele, e escuta o que tenho pra te dizer. Há tempos noto que não suporto mais este trabalho. Não sei, não quero ler os livros, acho a jurisprudência chata. Ouça bem. Não me compare a você, me compare a nosso sócio C [O interlocutor se levanta rápido e vai à janela, retira um cigarro do bolso e o acende, ela aguarda para continuar, e tem de falar mais alto:] Nosso sócio C lê todos os periódicos jurídicos, a biografia dos ministros. Sai gritando pelos corredores quando a internet lhe avisa de uma nova súmula, como se fora outro atentado às torres gêmeas.

 

Sócio B: É o jeito dele. Ele gosta.

 

Advogada: É a profissão dele, que deveria ser a nossa. Pra gente, ele é um baita dum chato, mas ele é quem está certo. Isso é a profissão que escolhemos. Ele está agora no computador, mapeando por sua conta os julgados do Tribunal-alguma-coisa, como quem assiste a uma série dos Sopranos. E eu aqui, pensando nos meus desenhos.

 

Sócio B: Desenho?

 

Advogada: Seria melhor você sentar de novo. Eu sempre quis desenhar roupa. Penso nisso o dia todo, mesmo quando há autos na minha frente, como este. Se você começar a reparar, vai ver que meu cérebro vive nos desenhos. Como não tenho dom pra estilista, fico pensando em criar estampas para camisetas, cultura pop, sabe? Frases de efeito, incentivos pra não se matarem animais, ou contra o racismo, ou pra não comprarmos carros grandes e poluentes.

 

Sócio B: [Sentando-se já sem o cigarro, que possivelmente atirara pela janela] Como hobby é interessante, mas o mundo...

 

Advogada: Eu tenho um amigo que é escritor. Advogado também. Semana passada eu perguntei se ele preferia Literatura ao Direito, se não sonhava em ser um roteirista de cinema. Ou de HQ (já que alguém tem que criar uma história pro Asterix que você gosta de ler). Investir tempo na ficção só, porque tem um nome consolidado. Sabe o que ele me respondeu?

 

Sócio B: Isso tem a ver com nossa sociedade? De advogados, eu digo.

 

Advogada: Ele me respondeu que não pensa em futuro. O único que ele acredita é que o texto dele sempre transforma a vida de alguém, a partir de sua inspiração. Segundo esse sujeito, é a única motivação que ele tem para o esforço que a escrita demanda: um espírito (não foi exatamente o que ele disse) que lhe garante que alguém, que ele não conhece e não vai conhecer, necessita aquela mensagem que ele inscreve nos diálogos. Por  imbecil que ela aparente ser. Uma fé vaga, mas que lhe dá força para aguentar as críticas à sua ficção, e meter algum sentido na sua vida. Na dele.

 

Sócio B: Ótimo pra esse teu amigo. É uma defesa mental, pra ele fazer aquilo que gosta. O que lhe dá prazer, no fim.

 

Advogada: Não acho isso. Penso pra mim: eu ficaria até amanhecer bolando minhas camisetas no meu sótão, não porque sinta prazer apenas. Quer dizer, o prazer tem um sentido: eu acredito mesmo que minha camiseta fará alguém deixar de comer carne, ou um indivíduo rever seu preconceito racial. Se influenciar a uma pessoa, valeu minha vida, e portanto não fora só prazer. Foi um feeling, pra agir. Pra exercer meu papel neste grande teatro da vida. E aqui, entre os processos, eu não trilho esse script feito pra mim. Entende?

 

Sócio B: Volta um pouco. O teu “sótão”?

 

Advogada: Aluguei a parte de cima de um estúdio de tatuagem aqui na Augusta. Tenho reservas pra me manter lá dois anos. Semana que vem lanço minha primeira linha de camisetas, que se venderá na internet e nos estúdios de tatuagem. Se der certo, abro depois uma lojinha exclusiva.

 

Sócio [indignado]: Você mantém um negócio paralelo sem nos comunicar?

 

Advogada: [muito pausadamente] Você não teria nada pra me contar, parecido a isso?

 

Sócio B [tosse e tira o isqueiro do bolso, nervoso. Levanta-se]: Bom, você fala da minha casa noturna. Eu não a gerencio, apenas investi meu dinheiro num restaurante, com uns parceiros, que foram nossos clientes.

 

Advogada: Ao que consta é bem mais que uma casa noturna, e teus clientes são sócios ocultos, porque não podem vincular seu cargo ao produto de lá. [pega sua caneta com rubi, que estava à mesa]: Olha só, acabei de ter uma idéia pra uma camiseta, está vendo o que eu digo? Teu restaurante: um “rodízio de carne viva”. No espeto. [Mira o interlocutor e desenha no verso da folha do processo] Não se preocupe, não te censuro moralmente. Só quero mostrar que é minha hora de ir daqui, desde que você...

 

            A porta se abre de repente, o sócio C entra alegre, sem dar-se conta do diálogo, e fala alto aos companheiros:

 

Sócio C: Gente, sabe quem a Ordem vai indicar pro Tribunal, já no mês que vem? [Depois do silêncio dos sócios à mesa, mira a cada um com atenção:] Está tudo bem por aqui?

 

            Close no Sócio B, que acende o cigarro pausadamente e passa a olhar a avenida. A câmera faz um travelling até a ponta caneta da advogada, que desenha no papel o que se percebe ser o corpo de uma mulher.

[Fim]

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VÍCTOR GABRIEL RODRÍGUEZ

Víctor Gabriel Rodríguez

Professor Doutor de Direito Penal da Universidade de São Paulo - FDRP; Membro da União Brasileira de Escritores, autor de Fundamentos do Direito Penal Brasileiro, pela Editora Atlas, e do livro Caso do Matemático Homicida, pela Editora Almedina. E-mail: victorgabrielr@hotmail.com

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