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Medida de Segurança Trocar o certo pelo incerto

02/10/2015 por Antonio José Eça

Estava pensando sobre o como é frequente que as pessoas tenham receio de fazer as coisas na vida, simplesmente pelo fato que se tem muito medo da troca do “certo pelo incerto”.

 

Mas afinal, o que é o certo? e o que é o incerto?

 

Normalmente isto é alguma coisa que se fala de uma maneira automática, sem muita reflexão sobre a propriedade do pensamento.

 

E na maioria das vezes, isto se amolda muito facilmente no relacionamento a dois das pessoas: é quase sempre em relação ao casamento que se vê demais as pessoas abdicarem da possibilidade de serem felizes, apenas pelo “certo” ou “incerto” das situações.

 

É bem aquela situação de se estar vivendo uma vida altamente questionável, seja porque o relacionamento está desgastado, seja porque não se vê mais prazer na companhia das pessoas.

 

Mas, vou bulir com isto para que? afinal, bem ou mal, esta pessoa está comigo e vai ficar comigo sempre; bem ou mal, ela me aguenta, eu a aguento, e como diz a música, a “gente vai levando”.

 

Não se discute a possibilidade de que está ruim estar com ela ou com ele, até porque não nos permitimos parar para pensar nisso; afinal, como é que vou falar para todo mundo que esse “casal 20, não era bem um 10 + 10, e sim um 18 + 2, onde eu fazia 18, e ele (ou ela) só o “2”; como eu vou falar para meus familiares que tanto aguardaram esse casamento, que eu não vou mais ficar com ele, porque eu não gosto mais dele? Como não gostar? um rapaz tão bom, que faz tudo para você, sua ingrata!

 

Mas será que ele faz mesmo tudo para você?

 

Será que tudo o que ele faz, não é, em primeira instância, para ele mesmo? Claro, ele também, atrás de uma “capa” de bonzinho não está querendo assumir que deve lutar por alguém adequado, que realmente o queira, o admire, o respeite, e principalmente, que esteja feliz de estar com ele.

 

Ou ainda, aquele casamento maravilhoso do “casal 20” descrito atrás, onde a acomodação é a grande mola propulsora de “deixar as coisas como estão para ver como ficam”; afinal, se nos depararmos com isso, temos que “começar tudo de novo”; então, pode ser que eu não ache alguém que me queira, que se proponha a suportar minhas esquisitices.

 

É exatamente neste momento que corremos o risco de encontrar certas pessoas em situações muito delicadas, nas quais, por pura insegurança, acabam mantendo “um pé em cada canoa”. Tais situações, não contribuem de forma alguma para o engrandecimento de ninguém e de nenhuma relação, uma vez que, além da angústia própria da indecisão em si, há o problema de que, a não perceberem que exista por parte do companheiro uma intencionalidade real de crescimento, normalmente o que ocorre é que as pessoas acabem por se afastar.

 

Talvez nunca tenhamos parado para pensar no que querem dizer os provérbios, se contentando, na maioria das vezes em saber sobre seu significado direto; mas neste caso, é interessante pensar sobre isto: quando se coloca “um pé em cada canoa”, se elas estiverem na água, o que vai acontecer é que elas vão aos poucos de afastando com o peso e a pressão exercida, até que... você cai na água e se afoga, ou no mínimo, vai ter que sair molhado, sujo e sozinho! Entendeu porque não dá certo manter ‘um pé em cada canoa’?

 

Desta forma, talvez devêssemos considerar que o única solução é pular de vez em uma única canoa e remar dentro dela. Não é fácil remar em canoas, mas muito mais difícil em duas! Em uma única, pelo menos, você pode tentar manobrar a situação para que ela, ao menos, não vire.

 

Mas alguém ainda poderia dizer: e se eu “embarquei em uma canoa furada”? Se a canoa é furada, só resta remar para a margem e saltar fora dela! Por outro lado, se a argumentação na base do “troquei por uma canoa furada, e me dei mal”, ao que talvez se possa responder que provavelmente não se deu mal, uma vez que pode chegar à margem e descer, limpo, seco e sem se afogar e principalmente, em condição de procurar outro barco para com ele descer o rio da sua vida.

 

Mas também sempre existe a ‘saída’ de se enganar e dizer que ‘bem ou mal este companheiro (ou esta) está aqui, quietinho, disponível...’; não é lá “aquela” maravilha do mundo, é bem verdade, mas também não me faz ter que parar para pensar, para lutar, para viver e ser feliz.

 

Pois é, e assim se acaba levando esta vida sem graça mesmo, do tipo “esperando a morte chegar, no colo de um apartamento”, como diria Raul Seixas, só para não ter que correr o risco da incerteza da batalha da própria possibilidade de ser feliz, já que esta vida com certeza, não tem em sí embutida felicidade, só uma pretensa segurança.

 

Será que talvez não fosse caso de pensar um pouco mais nas possibilidades que se tem de efetivamente correr o risco de ser feliz, e com isto, correr o risco de viver a vida em toda sua plenitude?

 

Talvez fosse o caso de parar para pensar também que vai estar na nossa própria mão a possibilidade de trocar o certo, pelo certo!

 

Porque pensamos que o que não se está acostumado é ‘incerto’? Qual certeza que se tem realmente na vida? Nenhuma, a não ser da morte!

 

Então, se alguém efetivamente quiser, vai poder mesmo “trocar o certo pelo certo” até porque, não devemos esquecer, que isto que está aí, em termos de relacionamento, só está certo (se é que está) porque você mesmo o fez assim; se não está bom, também foi você que o fez assim, ou seja, de qualquer forma, foi você que construiu a sua vida do modo que ela está.

 

Desta forma, também vai estar na sua mão a possibilidade de trocar o “certo pelo certo”, desde que você trabalhe para isto, se empenhe e principalmente, se permita correr o risco de acertar.

 

Pense nisto!

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ANTONIO JOSÉ EÇA

Antonio José Eça

Médico psiquiatra; Mestre em psicologia. Professor de psicopatologia forense, medicina legal e criminologia. Autor de Roteiro de Psiquiatria Forense, Editora Saraiva.

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