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FILOSOFIA Tragédia, Terror e Ética

02/12/2015 por Luciene Félix

Horrorizados diante do medo que os atentados terroristas suscitam, convém nos debruçarmos sobre o quê – por força da atualidade da sua presença no presente – ecoa de nossa herança trágica grega.

 

Segundo Aristóteles (384 – 322 a.C.), a tragédia grega é semente do que denominamos ética, ou seja, o embrionário fundamento da ação humana ajuizada, que intenta ao como devemos agir.

 

De início, vale esclarecer que ética (ethos) é constituída do conjunto de costumes acordados (moral) pelos membros de uma sociedade. Costumes esses que se transformam, alterando (e alternando) nosso modus vivendi e, consequentemente, nosso éthos.

 

Assim, uma vez assentados, ainda que provisoriamente, pois a sociedade está em constante vir-a-ser, nossos costumes morais tornam-se habituais, erigindo nosso habitat (ambiente).

 

Obviamente, nossa moral varia conforme os valores – ideias e ideais – da sociedade à qual nos inserimos por “pertença”. Por conta disso, seremos mais ou menos amparados, nutridos, física e psiquicamente aptos e úteis ao desenvolvimento, legando avanços técnicos e científicos.

 

Elegendo por télos (propósito, objetivo) o desenvolvimento, a economia (oikós = casa + nomós = norma, lei) impõe-se, recolhendo, selecionando e respaldando em lógos (ratio) o que estabelecemos como sendo uma moral (costume, hábito) útil ou inútil às nossas aspirações.

 

Resumindo, a economia (“norma da casa”), visando os benefícios da prosperidade (leia-se segurança e conforto) dita os costumes convenientes a serem adotados (moral), sendo que esses costumes, uma vez tornados habituais, constituirão a ética de determinada sociedade, cujo sentido se assenta na noção de hómoios (semelhante).

 

Os ditames econômicos (normas e leis que explicitam os valores de uma sociedade) fluem e desembocam naquilo que em Filosofia considera-se a “cereja do bolo”, a saber, a ÉTICA.

 

Uma vez supridos nossos anseios básicos, primordiais (por alimentos, vestimentas, moradia, educação e lazer, por exemplo), elevamos nosso patamar de necessidades, partindo em busca do domínio (leia-se exploração) sobre os demais.

 

O poder, ou seja, a supremacia de um indivíduo, de um grupo ou até mesmo de uma nação sobre outra se dá através da colonização e imposição de valores (morais e éticos), explicitados na adoção dos signos exteriores das ideias e dos ideais (valores) do conquistador pelo conquistado. Concepção, fabricação e comercialização de equipamentos bélicos servem a esse nefasto propósito ancestral.

 

A recusa (resistência) à adoção dos valores por parte daqueles que se intenta subjugar é tida como subversão, rebeldia, oposição. Assim, sobre todos aqueles que ousam insurgirem-se (contra os pais, o cônjuge, o grupo religioso ou a nação) paira o risco da punição.

 

No entanto, não é somente através da economia que nossos valores emergem. É sabido o quanto as religiões também fomentam ideais e constituem por si só – valor em si. Mais até que a geografia, a língua, a gastronomia, o vestuário e a arquitetura, por exemplo, é àquilo no que acreditamos em comum que respalda e alicerça o mais significativo sentimento de pertença. Através da adesão religiosa comungamos de nada menos que nossa crença, nossa Fé.

 

No caso específico do Islã, a insistência num governo pautado pelo fervor religioso – impondo a soberania de Allah – é absolutamente incompatível com sistemas de governos liberais, digamos, de natureza mais laica e democrática.

 

Sabemos que o medo nasceu com o homem e que esse, frágil e desprotegido, dependeu de precaver-se com três ou quatro pedras na mão para garantir tanto sua própria vida, quanto para assegurar a sobrevivência daqueles que dependiam de si.

 

Antes de evoluirmos ao atual Código Penal, temos nas tragédias gregas o arcaico registro das “leis escritas” respaldando àquilo que entendemos por Justiça (conceito abstrato que abarca harmonia, simetria e equidade), à qual acessamos através das Ideias.

 

A tragédia, segundo Aristóteles, gênero educativo por excelência, explicita uma cadeia de causa e efeito, tem uma conotação cívica e mítica.

 

Buscava-se, através dessas comoventes e catárticas encenações teatrais, instruir a população sobre quais eram os limites que deveriam ser respeitados – evitando assim a desmedida (hýbris) – a fim de não atrair uma mancha (míasma) sobre si, seus descendentes e a comunidade à qual se pertence.

 

Como ainda não havia, na época das tragédias gregas, a consciência de um “eu” individualizado, consciente de suas ações, a penalidade por algum desvio (erro) recaia sobre toda comunidade.

 

O que está em voga é justamente a cegueira (atér), a desmedida (hýbris) e a penalidade à qual estamos sujeitos, ou seja: o sacrifício de inocentes, constituindo a purificação (kátharsis) que, encenada, não redime, mas ensina.

 

Hoje, no entanto, diferente da tragédia grega “experiência emocional-perceptiva e ajuizadora”, não há mais a expiação para retirada da mancha (míasma) da comunidade, pois para tanto, o que a motiva teria necessariamente que cessar. Mas, como interromper a “machina fatalis” de uma ideologia em curso?

 

Amalgamando o social, o político e o religioso em seu éthos, fundamentalistas decepam cabeças, explodem-se matando civis e, excedendo todos os limites, impõem covardemente a barbárie, por ódio a tudo e a todos que rejeitam suas crenças.

 

Infelizmente, não há sequer vislumbre de solução possível para afastar essa “força primordial que sempre permanece, a despeito da mudança das gerações e da história dos povos”. O anseio ancestral de impor a ferro e fogo (a famosa “vontade de potência” nietzschiana) valores morais e, consequentemente, éticos – quer sejam de cunho econômico e/ou religioso – aos demais, torna o mundo cada vez mais desumano, cruel.

 

Talvez por isso “Aristóteles tenha dito, sabiamente, que os homens sempre guerrearão para deixar de guerrear, comerão para deixar de comer, amarão para deixar de amar, no movimento incessante da potencialidade, pois não nos é dado o repouso, pertencentes que somos à ordem do movimento contingente”, como cita a especialista Rachel Gazolla.

 

E, se “Nas antigas comunidades ninguém pode permanecer manchado por um erro sem atingir a si mesmo e a todos”, a atual sociedade liberal, individualista por excelência, rompeu esse olhar para o Todo, pois o culpado nem sempre sente culpa pelo desdobramento de suas ações.

 

Considerando que uma das dýnamis (força, potência) do Oriente está no petróleo, de onde provém a riqueza que azeita a engrenagem da guerra, é possível sim, que detenhamos alguma parcela de participação (mesmo que mínima e à revelia) no financiamento da propagação de todo esse terror.

 

Como membros do Coro das antigas tragédias gregas, indaguemos a nós mesmos: estaríamos dispostos a mudar nossos costumes, nossos hábitos (moral) já comodamente assentados, a fins de erigir uma nova ética?

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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