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Ensaio Sobre os advogados e seus ídolos

 

            Escritório de advocacia. O sócio mais velho, já de seus setenta anos, com terno azul, está de costas para a porta de entrada, na recepção. Nesta, a pequena mesa de mármore e duas poltronas de couro negro, para espera. Tudo vazio. A porta de entrada abre-se de repente, entra a segunda sócia, de seus cinquenta anos, muito maquiada, com saia bege. Ela ri ao surpreender o sócio ali na recepção:

            _ Boa noite, sócio! Que surpresa vê-lo aqui a estas horas! E mexendo na árvore de Natal!

            Ele se volta para ela, surpreso, e retira as mãos do enfeite. Fala um tanto consternado:

            _ Pois é, sócia. Como já é janeiro, eu estava começando a desmontá-la.

            _ O quê?

            O velho sócio gagueja:

            _ Eu não tinha o que fazer, pensei em desmontar a árvore. Mas então fiquei com medo de quebrar alguma coisa. Já estava voltando pra minha sala.

            A mulher segura o sócio pelo ombro, sinalizando para que ele não deixe o recinto. Olha para a árvore de Natal e arruma a estrela prateada que pende em seu ápice. Vagarosamente, encaixa bem a estrela, que estava caída, como para sinalizar que não se deve mexer ali. O sócio então não se move, “Espere aqui”, ela diz, “não vá embora porque acho que precisamos falar”. A advogada entra pela sala de reuniões, abre algumas janelas e volta com um pequeno cinzeiro de bronze nas mãos, e o cigarro aceso na boca. Senta-se na poltrona de couro.

            _ Sócio, o que ocorre? Sente-se e me conte o que passa, porque o senhor está há dias meio perdido. Desde que começou o ano, na verdade. E eu te conheço muito bem pra saber que não é normal o senhor queira desmontar esse trambolho. Em seu estado normal, acreditaria que o senhor sequer reparasse que temos uma árvore de natal.

            Ele senta-se com um sorriso, para falar:

            _ Eu sempre tão distraído, não é? E você tão observadora, o que é bom para nossa profissão. Realmente, se me perguntassem onde vocês guardam essa árvore durante todo o ano, eu não vou saber. Estava só refletindo, então fui mexer em algo pra ocupar as mãos. Quase cortei o dedo, daí desisti.

            _ Ah, agora as coisas se encaixam. E o ilustre doutor quer me contar o assunto da reflexão quase-norturna? Faz bem falar, pra não guardar nada aí dentro.

            Ele se recosta mais na poltrona, e assopra levemente, para que a fumaça do cigarro da sócia mude de direção.

            _ Eu lembrava do meu primeiro chefe agora. Porque, dentre tantas coisas que ele me ensinou, uma delas era como abrir um pacote de papel sulfite. “Se você escorrega o dedo pela lateral, um papel deslocado vira uma lâmina .  Já vi cada ferida”, ele me dizia, toda vez que eu abria um papel. O que era mais raro porque, naqueles tempo de máquina de escrever,  uma resma de papel durava muito.

            _ Mas o senhor cortou mesmo o dedo? _ ela interrompe.

             _ Eu disse que quase cortei. O que eu lembrava, que tem a ver com o que dissemos, é como nossa carreira ocorre na advocacia: ídolos que colocamos em pedestais, mas que aos poucos perdem sua atração mítica. _ Afasta a fumaça com a mão, de modo mais veemente, para depois perguntar _ Sócia, quem foram teus ídolos na advocacia?

                        _ Muitos., ela responde, reflexiva _ Meu primeiro chefe também, por exemplo. Eu o admirava mais que tudo.

            _ Então, sócia, era nisso que eu queria chegar. Eu idolatrava esse meu primeiro como se ele fora um grande gênio. Quer dizer, mesmo quando ele me ensinou a abrir uma resma de papel, eu tomei a mensagem como uma revelação, como um mestre das ciências que dita uma grande fórmula alquímica a seu discípulo.

            A sócia tosse, antes de responder:

            _ Bonito isso. A lição foi tão importante, que o senhor se lembra dela até hoje. Deve fazer quantos anos que a recebeste? Cinquenta?  Também eu, se começo a lembrar, tenho umas tantas lições gravadas.

            _ Sim, e vários ídolos, não é? Chefes, colegas que nós admiramos como se fossem deuses, porque queremos alcançar sua perfeição, sua inteligência, sua perspicácia, seus idiomas. Só que aí...

            _ Aí?

            _ Aí o tempo passa e nós vemos que aqueles ídolos eram assim,  gente normal e corrente. “Comunzinhos”, você me entende? Esse meu tal chefe, por exemplo, nada mais tinha do que aquilo a que hoje chamaríamos transtorno obsessivo compulsivo com papel sulfite, achando que cada resma era uma bomba terrorista que eu tinha que desativar.

            Ela interrompe:

            _ Mas em seguida encontramos outro ídolo, doutor. Como uma escada, avançamos de degrau em degrau, de ídolo em ídolo, por imitação. É normal.

            _ Porque as pessoas, de perto, são um imperfeitas, né? Minha tia contava uma história, das mãos de purpurina. Você conhece?

            Ela nega com a cabeça, enquanto apaga o que sobra do cigarro. Ele continua:

            _ O ídolo que parece brilhante, até que nos aproximamos dele. Quando chegamos muito perto, se ele nos deixa tocar seu rosto, nossas mãos saem cheias de purpurina. Entende? Quer dizer, quando ele finalmente nos mostra sua face, vemos que seu brilho não é natural, que ele não é de pérolas e diamantes. 

            _ Divertido.  Mas insisto que faz parte do aprendizado. Quero dizer, não sei se estou entendendo aonde queres chegar, mas: como aprenderíamos nossa profissão sem esses ídolos? Sem aquele professores que achávamos o máximo, sem o advogado que parecia o orador das multidões? Imagina a quantos o senhor já formou, e que lhe predicavam como maior dos deuses.

            _ Então, sócia. Teu tempo verbal é perfeito. Aí está o que eu descobri agora. Por isso estou assim, reflexivo. Eu nunca havia me dado conta de que há o reverso da medalha. Que chegaria um dia em que não somos mais ídolos para ninguém.

            Ela tosse de novo, Não diga isso!

            _ Claro, sócia, você já me entendeu. Eu perdi meu pedestal aqui, e já não o recupero. Ninguém me admira neste escritorio, inclusive você. Nem os estagiários me ouvem mais,  talvez esse tal de processo eletrônico me tenha transformado em um relicário aqui. Quando todos vêem que meu brilho é purpurina, já não se pode mais ser líder da equipe  Entende agora?  É essa a minha decisão de começo de ano.

            Ela o olha atentamente, e diz:

            _ Pois bem. Espero que estejas decidido mesmo, porque começaste mal, mentindo para mim. Olhe pra ponta dos teus dedos, sócio: estão cheias de purpurina. O senhor não desmontava a árvore, apenas tocava na estrela, pra ver se ela soltava purpurina mesmo. A metáfora já está feita.

            Uma lágrima cai do rosto do velho.

            _ Não posso mentir para o senhor, sócio. O senhor tomou a melhor decisão de começo de ano. Por favor, recolha-se e se aposente. Os ídolos são mesmo outros. Terás uma sala simbólica aqui, e serás sempre bem vindo para um café. Feliz ano novo.

 

 

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VÍCTOR GABRIEL RODRÍGUEZ

Víctor Gabriel Rodríguez

Professor Livre-Docente de Direito Penal da Universidade de São Paulo - FDRP; Membro da União Brasileira de Escritores, autor de Fundamentos do Direito Penal Brasileiro, pela Editora Atlas, e do livro Caso do Matemático Homicida, pela Editora Almedina. E-mail: victorgabrielr@hotmail.com

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