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Ensaio Sobre a OAB, a Comissão e o Grande Cassino

 

Dizem eles que vivo num bunker, mas não é bem isso. Nada mais que estratégia de conduta, não vou nos bares, nada de festas, nada de estar horas e horas no assim chamado local de trabalho só pra cuidar da existência alheia. Poxa, o tempo tá passando rápido demais e tem muita coisa pra deixar pronta antes de mudar de dimensão, tem que aprender a largar o que nos consome esse tesouro.

 

Tipo, meu órgão de classe. Aqueles que pouco falavam comigo agora aparecem como amigos de toda a vida, patrocinam festas, e bebida e jantares, mas quando passar o escrutínio não lembrarão mais de mim. Normal, eleições, mas daí eu falto a essas festas e vem a história do bunker. Também pudera, fui o cara que deu a primeira aula regular na Escola Superior de Advocacia, faz exatos vinte anos, e estava tudo indo bem até que uma rixa de cunho nada institucional me colocou de marionete entre figuras que para mim eram intangíveis, e seus atos nada nobres foram a gota d’agua pra eu virar as costas pra instituição como um todo e nunca mais voltar. Sequer em tempos de eleição. Mas eu tento, em nome do exercício da cidadania advocatícia, ao menos escolher meu candidato e aí vejo o vídeo do debate, droga, só me fixo nos detalhes sórdidos, sou isso, apenas as incongruências me atraem: cinco candidatos brancos e homens, sentados para levantar a bandeira da inclusão de negros e mulheres, Sou homem mas as mulheres que mandam, e há negros em nossa chapa!, parece piada. Ou é piada, mas eu faria o mesmo, porque a tutela das minorias traz o próprio gancho para o discurso manipulador, e se essas minorias são as que agora mais vendem perfumes e produtos bancários, provavelmente são também as que atraem votos. Repito, eu faria igual se fosse candidato e a superficialidade de minha análise advém de minha falta de domínio sobre as matérias de fundo da Entidade, meu olhar dirige-se a relógios oversized e gravatas brilhantes dos debatedores, que invertem o conceito que aprendi de elegância masculina como associada à discrição que só se quebraria com muita, muita intencionalidade. Que talvez seja sim a de mostrar sucesso financeiro, mas suspeito que isso já não funciona como outrora.

 

Meu único desejo é que nosso futuro dirigente seja um homem (não é minha culpa se não há candidatas) culto, erudito, que se livre dos cacoetes, das repetições, das palavras imprecisas para demonstrar não uma oratória anacrônica, mas que nossa profissão é, mesmo, lastreada por cultura e conhecimento de mundo. No coletivo, que ele seja um estrategista independente e feito por si mesmo, e portanto grite menos por uma entidade forte e mais atue pra fazer o que jamais fizemos: denunciar o que é ilegal sem alarde, propor soluções em conjunto para um país melhor e realmente mais inclusivo. Putz, olha eu já fazendo propaganda de perfume.

 

Volta lá, eu não vou às festas mas não estou exatamente num bunker. Entre outras ações de cunho pessoal, que prefiro manter ocultas porque não são nada briosas, um dos ambientes que frequento é minha rua aqui no baixo centro, onde há casas de jogos, os corretores zoológicos fazem suas apostas e quase não perdem a tradição de te indicar, se você fizer um relato do tu sonho da noite anterior, qual o bicho que vai dar. Hermenêutica popular que, essa sim, deveria ganhar apoio da Rouanet.

 

E claro que um semi-jurista não pode questionar outra coisa, no momento de fazer sua fezinha no macaco (já explico), que o dia que vamos legalizar tudo aquilo. Faço exercício de imaginar o momento em que alguém dirá que a proibição do jogo é absurda, e no dia que erguermos seriamente o estandarte da liberdade rugirão os leões famintos, gente armada que se vê à beira de perder a renda extra, a renda para além do salario do funcionalismo público, e desemprego dos seguranças, dos olheiros, dos semi-traficantes, e de muitos dos clientes - porque só a proibição da sentido à contravenção e tal. Ah, e estou poupando os fiscais. Tudo liberado, e eu, se tivesse dinheiro, sairia do bunker pra erguer esse castelo da alegria.

 

Sim, o Gran Cassino do Glicério, como dizia o dramaturgo, “de frente pro fundo da Sede da Ordem” estaria de inauguração marcada. A linda antessala guardada por porteiros desarmados, seguida de um portal mágico pelo qual mulheres são bem-vindas e respeitadas se querem ser gamblers, os homossexuais como tal se assumem, os poetas falam aos microfones, os negros fazem apostas milionárias e não a faxina, os banheiros são limpos eletronicamente evitando a humilhação de funcionários e as brigas são simuladas. Sim, trabalharei como roteirista principal para emocionantes espetáculos de Wrestling, com lutas bárbaras e sangrentas nas quais se pode apostar, mesmo sabendo que o resultado está tão pré-programado quanto o dos caça-níqueis.

 

No Gran Cassino do Glicério não precisa apostar pra se divertir, o jogo está ali para garantir o giro das pessoas apenas, porque há também setores culturais, de música, de literatura, de roda de capoeira – onde obviamente se casa uma grana – e o professor de xadrez é por nossa conta, desde que você consuma da vodca da casa. E, no último andar, o penthouse que coroa meu liberalismo inclusivo: ambiente ao ar livre, onde se pode fumar o que quiser, porque o corpo pertence a cada qual, então vendemos charutos cubanos e uísque para que todos se socializem, advogados, promotores, médicos, políticos, comerciantes e burocratas. O que se conversa ali não é meu problema, nossa Casa apenas servirá comidas e bebidas e tabaco em profusão, como ocorre hoje nas casas ilegais, com a diferença de que os garçons serão elegantes e os juízes pagarão pelo que consomem. Pois é, tem essa. O resto é livre, o policial e o fiscal da prefeitura podem passar juntos no caixa para pegar seu dinheiro, sem segredo, desde que tenham ganho na roleta, porque a mesada acabou.

 

Pra sair nossa lei, tenho tudo planejado já. Criaríamos na OAB uma Comissão da Falsa Moral, um task force de caça a discursos hipócritas que iniciaria policiando os encômios nas falas forenses e acadêmicas, passaria pela vigília aos poetas sem talento do Facebook e desembocaria nas grandes proibições penais que sustentam a corrupção, como as casas de apostas. Só ocultaríamos que nossa Comissão seria uma hipocrisia em si mesma, mas faz parte do jogo.

 

Sim, por essa Comissão eu voltaria à Entidade. Mas enquanto ela não sai, sonhar com Cassino, diz a moça da banquinha aqui, é macaco na cabeça, ptn.

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VÍCTOR GABRIEL RODRÍGUEZ

Víctor Gabriel Rodríguez

Professor Livre-Docente de Direito Penal da Universidade de São Paulo - FDRP; Membro do PROLAM/USP; Autor de “Delação Premiada: Limites Éticos ao Estado”, e do “Caso do Matemático Homicida”, entre outros.

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