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ENSAIO Sobre a liberdade e o aborto

 

 

            Ele sentou-se à minha frente, no escritório, logo levantou a manga da camisa até o cotovelo e apoiou o antebraço em minha mesa de mármore, para que eu pudesse bem ver o desenho que ali estava. Era uma tatuagem típica de uma carpa, em preto e branco, que se enrolava em algo como uma lança. Traços finos, de profissional. Segui olhando os detalhes: por detrás da carpa entrava algo de colorido, apenas um realce avermelhado, que concedia profundidade, ao mesmo tempo em que impunha um tom de calor. De inferno mesmo.

            _ Bonita arte. Eu amo tatuagens, falei.

            “Faz quatro anos que a fiz, e tem a ver com o que vou contar para o senhor. Sobre a minha filha e o crime. O senhor já viu alguém realmente arrependido de um crime?”

            _ Estou aqui para ouvir.

            “Tem coisas que são como as tatuagens, doutor, só que pior: não só estão marcados, mas passam pras gerações. Como se a minha filha Laura nascesse já com essa mesma tatuagem, entende? Está no sangue, é hereditário”.

            Eu escutava e, claro, me perguntava o que estava no sangue, o que era hereditário. Ele se referia ao caminhão.

            “Minha filha Laura nasceu e eu vivia na estrada, dirigindo meu caminhão. Brasil inteiro, Chile, Paraguai, Bolívia até. Arriscado, claro que eu não queria essa vida pra ela”.

            _ Para uma criança.

            “Um bebê, mas a mãe da Laura e eu sempre na estrada com a menina, foi quando eu aprendi a gostar tanto de ler. Onde eu parava e achava um livro infantil eu comprava pra ler pra Laura, ela ia crescendo, até que não cabiam três na boleia, entende?”

            _ Não.

            “A mãe da Laura não tinha o caminhão no sangue, um dia parou na cidade e disse que ficaria por ali com um amigo (?), que eu não precisava voltar mais. Eu disse que tudo bem, se a menina ficasse no caminhão”.

            _ E a mãe aceitou?

            “Laura viveu comigo, doutor, com fralda trocada, leite ninho, histórias de criança e muita alegria. Até a hora de entrar na escola, que não deu pra segurar mais”.

            _ E aí?

            “Coloquei pra morar com minha irmã, eu pagava tudo e vivia na estrada, quando podia, passava pra ver Laura na cidadezinha. E, claro, as férias eram todas no truck. Laura conhece estas terras melhor que muito companheiro, se guia como por instinto. Está no sangue”.

            _Sei.

            “Sério. Ela olha assim pra frente, pelo para-brisa, e no encontro das estradas diz somente ‘É pra lá’, como se tivesse um GPS no cérebro. Batata”.

            - Claro.

            “Mas aí a vida de cidadela, longe do pai. Foi tomando o próprio rumo. Tem que namorar, quer sair do interior. Mas olha só, agora entramos no meu caso”

            >> Eu estava em Goiás e entrava no posto de Gasolina. Estava triste já, porque no dia seguinte Laura faria dezessete anos e eu não poderia estar lá com ela, lá na minha irmã. Eu lembro que pensava nisso, entrando no tal posto. Até minha irmã eram mil e quinhentos quilômetros pro Sul, e eu ainda tinha que cumprir seiscentos pro Norte. Sem chance. Bom, eu paro no posto, certo?”

            _ Estou ouvindo. No Posto. Vou pedir um café pra secretária.

            “Desço no posto e um colega me avisa, Vai direto pro restaurante, Gerson!, e eu vou e quem está lá?”

            _Sua filha.

            “Laura, ela mesma. A raposa das estradas. Me dá um abraço, me diz que quis fazer surpresa, foi o dia mais feliz da minha vida. Mesmo”.

             _O café.

            “Mas, claro, Laura me conta o problema. Conheceu um menino e estava grávida, e o rapaz insistia em não ter o filho. Combinaram que o menino não nasceria, comum acordo. Então eles acharam que eu poderia ajudar. Pai é pai”

            _ Ajudar significa...

            “Significa, doutor, que na próxima vez que eu descesse pra Argentina, eu levaria os dois, num lugar onde faz aborto seguro. O rapaz, o pai, que deveria ter seus vinte e cinco anos, já tinha consultado tudo. Só precisariam do transporte para Buenos Aires, e então meu caminhão era a resposta”.

            _ E você iria pra Argentina?

            “Não lhe disse que seguia pro Norte? Mas o que o pai não faz pela filha? Combinei então com Laura que, em no máximo vinte dias, se ainda desse tempo, eu conseguiria frete pra pagar nossa descida. Deu certo. Marcamos assim: eu passaria na casa deles de madrugada, os dois entrariam no caminhão e desceríamos até Buenos Aires. O essencial era que eles não contassem a ninguém sobre a gravidez, e muito menos que iriam viajar. Uma fuga mesmo. Talvez, depois de tirar o filho, ficassem em outra cidade, no Sul. Tudo previsto”.

            _Certo.

            “Não deu uma semana, eu e meu caminhão já estávamos recolhendo os dois pombinhos, na madrugada da cidadela. E foram três dias de viagem até a fronteira”.

            _ Fronteira?, perguntei.

            “Foz do Iguaçu. Uma olhada nas Cataratas. Quem faz uma viagem dessas, merece”.

            _ Vocês foram por Foz?

            “Um passeio, doutor. E olha que terrível. Essas coisas que só ocorrem nos piores sonhos. Presta bem atenção nesta parte... Fomos olhar as Cataratas de noite, pelo lado da represa, que dá uma caminhada difícil, mas a vista é melhor. O barulho noturno das águas. O pai da criança se aproximou tanto da margem, tanto, tanto... que caiu lá dentro e se afogou. Pobre”.

            _ Entendi. Vocês chamaram por socorro?

            “Nada, doutor, nada. Quem pode competir com a natureza? O jovem foi boiando, já afogado, corredeira abaixo. Água, água. E as cataratas foram como uma grande descarga de vaso sanitário. A mais potente descarga do planeta”.

            Eu ri.

            “Então, doutor. Hoje a Laura já dirige meu caminhão, enquanto eu cuido da pequena Iara, que já tem quatro anos”.

            _ Que ótimo. E em que eu posso ajudar?          

            “Quatro anos já faz isso. E agora me chega essa intimação da Polícia. Pode?”

            Olhei para sua tatuagem, imaginei a pequena Iara. Ele me parecia um bom homem.

 

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VÍCTOR GABRIEL RODRÍGUEZ

Víctor Gabriel Rodríguez

Professor Livre-Docente de Direito Penal da Universidade de São Paulo - FDRP; Membro do PROLAM/USP; Autor de “Delação Premiada: Limites Éticos ao Estado”, e do “Caso do Matemático Homicida”, entre outros.

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