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ENSAIO Roteiro sobre vodcas e revoluções

 

                  O Advogado que usa gravata Azul tem seus sessenta e poucos anos de idade, o advogado de gravata Laranja é algo como dez anos mais jovem. Azul, o mais velho, está vestido com sua beca de seda e acaba de fazer sustentação oral. A câmara deve mostrar apenas o momento em que finaliza a fala e seus colegas o aplaudem, na sala do Palácio. Mas agora ambos estão no café em frente ao Tribunal, e Azul, sem a beca, usa terno escuro. Tem uma barba quase toda branca, bem aparada.


                  Azul retira do bolso do paletó uma garrafinha achatada, de cromo, típica de levar uísque. Destapa-a e bebe um gole. E mais outro. Seu interlocutor, de gravata Laranja, com um pequeno jornal na mão, começa o diálogo:

                  Laranja: Engraçado. Eu te vi de beca, agora com o paletó. Estava lembrando de um texto que li neste jornal... O texto daquele sujeito, nunca lembro o nome dele... De qualquer modo, ele fazia uma proposta absurda: propunha substituir nosso terno por uma roupa básica, como um jaleco mais chique. Você leu?

                  Azul: Eu não tenho tempo pra isso. Mal consigo ver as notícias. [Bebe mais da garrafa]. Ficamos tensos depois da sustentação, agora eu vou relaxando.

                  Laranja: O tal escritor fala, então, desse traje genérico, eu gostei da ideia. Mas agora me ocorreu mandar uma mensagem pra ele, pra dizer que, no tal jaleco jurídico, não pode faltar um bolso interno grande e reforçado. Pra garrafas de uísque como a sua.

 

                                    A câmara mostra que Azul imediatamente se põe cabisbaixo, alcança um copo pequeno no balcão e nele começa a verter a garrafinha. Em close, dela sai um líquido incolor que enche o copo, enquanto ao fundo se ouve a voz de Azul, dizendo lentamente: “Vodca. Minha garrafa é de vodca”. Nota-se a sua mão levanta o copo do balcão e abre o foco: Azul bebe todo o conteúdo de uma só vez. Quando abre seus olhos, nota-se que, surpreendentemente, está a ponto de chorar:


                  Azul: Agora entendi onde você queria chegar com essa história mole de beca genérica. Criticar minha bebida [Cai-lhe uma lágrima]. Pois vou te contar por que nem eu fiquei feliz com o resultado deste julgamento de hoje: ele me importa um amendoim. Nada!

                  Laranja: Não quis ofender, só acho que...

                  Azul: Mas agora vai me escutar, pelo menos pra não me tratar como um bêbado qualquer. Pense em mim como um alcóolatra conflitivo [ri suavemente, mas logo fecha outra vez o semblante]. Ontem, meu filho veio ao escritório. Meu filho! Não o encontrava havia dois anos, e ele aparece do nada, no fim da tarde. Gritando com funcionários, com outros advogados, entra chutando a porta na minha sala. Cena de novela, mas não tem graça na vida real.

                  Laranja: Santo Deus. Ele estava bêbado?

                  Azul: [Falando alto] Pôxa, mas você acha que todo o mal da humanidade é o álcool? Sei lá o que ele usava, problema dele. Estava nervoso, e tinha razão pra isso. [O copeiro do bar oferece bebida, retirando o pequeno copo. Azul, ainda de pé ao balcão, pede um vermute]. Quer saber qual?

                  Laranja: A razão? Claro.

                  Azul: Ele acabava de descobrir que eu havia cancelado o plano de saúde da minha neta. A garotinha, coitada, tem três aninhos, eu mal a conheço. Minha nora (ou como quer que se chame a mãe da menina) teve de interná-la às pressas, quando então avisaram que o plano de saúde da criança estava cortado.

                  Laranja: É uma razão e tanto pra ficar bravo. São filhos.

                  Azul: E neta. Você acha que não me corta o coração? Volta pro meu filho: ele entra berrando no escritório, me xingando de tudo quanto é mau predicativo que você conheça, dizendo que eu sou o avô cruel, o burguês que estava a ponto de matar a própria descendência.

                  Laranja: O que você respondeu?

                  [A câmara mostra em close um copo cheio de gelo sendo servido a Azul, em que se verte um vermute muito vermelho. Ouve-se sua voz firme, enquanto se abre o plano:]

                  Azul: Sou um profissional. Nessas horas, temos que manter o cérebro irrigado de sangue, mas frio como uma pedra de gelo. Não é fácil. Eu disse que ele não tinha o direito de me exigir nada, porém que ainda assim eu responderia, porque sou pai. Falei o que tinha que ser falado: que era muito fácil ser comunista, ativista, progressista e não sei mais o quê, com trinta e tantos anos de idade, enquanto o pai, velho advogado, paga-lhe o condomínio, a escolinha da neta e o plano de saúde pra família inteira. Ah, e a mulher dele dá aulas de alemão como escrava, para honrar as demais contas da casa.

                  Laranja: Seu filho não trabalha?

                  Azul: É esse o ponto a que ele foi. Gritou que não é um vagabundo, que faz serviços voluntários, mantém um jornal ou algo assim, constrói casas, com o próprio trabalho braçal, como servente. Porque isso é honrado. Porque, segundo ele, “eu me irrito porque vejo que meu filho é povo, é proletário”.

                  Laranja: Bom, não tem nada mesmo de desonra...

                  Azul: Eu disse então que ele deveria pensar o mesmo quando vai ao hospital. Que ele frequentasse o SUS, onde vai o povo, em lugar do luxuoso seguro-saúde bancado por advogados rico e alcóolatra. Bom, o ‘alcóolatra’ eu não falei, acresci agora em tua homenagem. Você imagina a fera que ele virou.

                  Laranja: Você foi cruel demais. Com a filhinha dele naquela situação.

                  Azul: Só com minha neta naquela situação é que ele veio para o diálogo. Do contrário, não olharia na cara deste patriarca burguês. A garotinha está bem, não se preocupe, pois este opressor caucionou vinte mil reais no hospital. [Bebe mais e fala pausadamente:]. Meu caro Laranja, eu um dia faltarei a ele, já estou cansado. Esta carcaça não vai durar muito, você sabe. Se eu morro hoje, ele transfere todo meu patrimônio para a ‘Causa’. A ‘Causa’, que roubou dele até a educação.

                  Laranja: Roubou educação?

                  Azul: Veja [Respira fundo]. Minha teoria é que a Causa se apropriou do meu investimento. Toda a solidariedade que meu filho hoje proclama foi, na verdade, plantada em sua mente pelos padres e pelas freiras do colégio que eu lhe paguei. E paguei muito. É pura caridade cristã, apropriada.

                  Laranja: Dessas ideologias entendo quase nada, não posso opinar. Só vou dizer algo um pouco forte: se você está sentido que o fim está próximo, é hora de ser generoso com tua fortuna. Não levarás teu dinheiro pro céu.

                  Azul: Nem minha garrafa de vodca, nem meu vermute. Por isso vou gastar tudo com a dissolução do meu fígado, já que o investimento no meu filho foi todo perdido.

                  Laranja: Não diga isso. Você mesmo afirmou, o dinheiro que você investiu no colégio de padres foi o que o fez assim solidário. Olhe ao redor, gente como teu filho está fazendo um mundo melhor.

                  [Azul bebe um trago de seu copo de vermute, já pela metade]:

                  Azul: Caro Laranja, você entendeu zero de o que acabo de dizer. Te explico: ontem mesmo fez um século da Revolução Russa. E Lênin decerto não passou décadas pedindo dinheiro pro pai ou explorando a mulher. Depois dele, quem? Me diz: quem? [Faz longa pausa, esperando resposta]. Eu sou mais um que pagou o imposto de revolução não houve, foi esse meu investimento fracassado. Daquele banana do meu filho, o mundo não espera mais nada.

                  A cena termina com o copo do vermute alçado, com o líquido já róseo pela água do gelo, e a voz de Azul, firme, de fundo:

                  Azul: Muita saúde à minha neta! Meu primeiro cheque de vinte mil, pra nova geração revolucionária.

 

[Fim]      

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VÍCTOR GABRIEL RODRÍGUEZ

Víctor Gabriel Rodríguez

Professor Doutor de Direito Penal da Universidade de São Paulo - FDRP; Membro da União Brasileira de Escritores, autor de Fundamentos do Direito Penal Brasileiro, pela Editora Atlas, e do livro Caso do Matemático Homicida, pela Editora Almedina. E-mail: victorgabrielr@hotmail.com

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