Página Inicial   >   Colunas

MINHA TRAJETÓRIA NOS CONCURSOS RICARDO ALEXANDRE é Procurador do Ministério Público de Contas de Pernambuco

01/07/2009 por Ricardo Alexandre
Carta Forense - Em que momento decidiu se enveredar pelos concursos públicos?

Ricardo Alexandre - Quando perdi a paciência com a insegurança da iniciativa privada e percebi que o mundo dos concursos públicos combinava mais com meu estilo de não gostar de pedir emprego para ninguém. É sensacional entrar de cabeça erguida na repartição e assinar seu termo de posse como conseqüência exclusiva do esforço pessoal.

CF - Quando iniciou seu preparo? Qual metodologia usou?

RA - Meu primeiro concurso foi para um cargo de nível médio, o de Técnico de Finanças e Controle da então Secretaria Federal de Controle (hoje CGU).
Na época, as pessoas me diziam que para passar num concurso público federal eu precisaria acertar todas as questões da prova e trabalhei com este objetivo. Quando estudava direito e contabilidade, mesmo acertando as questões, eu achava que era pouco, pois iria concorrer com alguns "contadores e advogados". Isso me causava grande medo, mas me incentivava a estudar mais, a decorar mais, a me preparar com mais afinco. Resolvia muitas provas de concursos anteriores e praticamente memorizava todos os dispositivos legais e constitucionais que poderiam ser cobrados na prova (consegui isso porque o programa era relativamente pequeno).
Dediquei meu tempo quase-que-integralmente às matérias que nunca havia estudado (direito e contabilidade). Sei que isso é meio óbvio, mas incrivelmente tem gente que segue o caminho inverso. Como o sujeito ama direito administrativo, ele adora estudar a matéria. Talvez seja uma maneira de massagear o ego, lendo o que já se sabe, mas é absolutamente improdutivo.

CF - Quanto tempo demorou para ser aprovado no primeiro concurso?

RA - Felizmente fui aprovado no primeiro concurso (TFC). Sei que isso é incomum, mas aconteceu! Para minha felicidade! Credito isso ao fato de, nos estudos, nunca achar que era suficiente o nível já adquirido, pois eu iria concorrer com os "advogados e contadores". Depois descobri que passar em concurso público era uma habilidade que se adquire com treinamento e não tem necessária correlação com a atuação prática numa determinada profissão.

CF - O Ministério Público sempre foi seu foco principal?

RA - No início meu foco era o cargo de Auditor-Fiscal da Receita Federal. Passei neste concurso em 2002, exerci o cargo por três anos e já neste período decidi lutar por uma vaga no MP. Sempre fui muito focado. Não queria genericamente o Ministério Público. Queria especificamente o Ministério Público junto a algum Tribunal de Contas. Para mim o cargo era este! Além de ingressar já na Capital do Estado, na maioria dos casos o membro do MP de Contas já é empossado como Procurador, no "fim da carreira" e não tem que perambular entre entrâncias até chegar à Capital.

CF - O senhor sofreu alguma cobrança de familiares e amigos pelo resultado pretendido?

RA - Claro! Quem estuda para concursos já tem que se preparar para isso! Tem que conversar muito para que as pessoas que lhe são próprias entendam que você deu um "pause na vida". Tudo passa a ser "concursocêntrico". Quem quer casar pensa: "depois da aprovação". Quem quer ter filho fala a mesma coisa, quem quer fazer uma viagem especial com a família, quem quer adquirir um imóvel etc.
É difícil para quem está ao nosso lado conseguir entender. Várias pessoas ficam lhe colocando para baixo com questionamentos idiotas, como o seguinte: "E se você não passar nunca?".
Bem já escutei coisas como esta e não dei atenção. Apenas conversei com as pessoas que mais me importavam e trabalhei. Muitos dos que me faziam as perguntas imbecis, após minha aprovação, vieram me pedir dicas de livros, de preparação e etc... Claro que eu dei! E com o maior orgulho!
Então, meu colega "concurseiro", deixe de lado quem quer colocar você para baixo. Este provavelmente está sentindo uma inveja antecipada pelo seu futuro sucesso. Aqueles que entram no mundo do concurso e seguram a barra que é o "pause na vida" sempre têm sucesso, cedo ou tarde. Basta lembrar que, conforme magistralmente sintetizou Wiliam Douglas, concurso é uma fila. Quando você decide entrar, algumas pessoas estão à sua frente e serão atendidas primeiro, saindo da fila. Mas se você não desistir, sua vez chega!
Pode ter certeza que quando chegar a hora de novamente "dar o play" na vida, as imagens vão parecer mais brilhantes e mais belas.

CF - Depois de aprovado, como foi sua rotina de Procurador do Ministério Público de Contas?

RA - Fui membro do MP de Contas do Rio Grande do Norte e depois, via concurso, assumi o mesmo cargo em Pernambuco.
Meu primeiro impacto foi ver o mundo de outra forma. Tinha chegado ao cargo dos meus sonhos e agora podia pensar em um dia "tirar férias" sem que fosse para estudar. Organizei meu gabinete com uma assessoria escolhida tecnicamente arregacei as mangas e parti para desvendar o que me esperava.
No início tive uma dificuldade com o exercício da tal da independência funcional. Eu era Auditor-Fiscal da Receita Federal e era acostumado com a absoluta vinculação no exercício das minhas atribuições. Confesso que inicialmente achei a liberdade um peso, pois a avaliação criteriosa de eficiência, eficácia, economicidade de programas de governo é fascinante, mas é algo complicado de se operacionalizar.
Hoje acredito que não saberia mais trabalhar sem a maravilhosa independência funcional.

CF - Quais as  atividades típicas do cargo?

RA - No MP de Contas atuamos mais como "custus legis" (fiscal da lei) emitindo pareceres nos processos que tramitam no Tribunal de Contas. As matérias mais abordadas são Direito Administrativo e Direito Financeiro.
Também podemos recorrer das decisões do Tribunal e provocar órgãos externos quando são necessárias providências alheias à competência do Tribunal de Contas, como no caso de descobrirmos atos que configuram crime, hipótese em que formulamos representação ao Ministério Público comum, titular da ação penal pública.

CF - Qual foi o momento mais engraçado ou curioso da sua carreira até agora?

RA - Acho que o mais engraçado foi quando assumi meu primeiro cargo, o de Técnico de Finanças e Controle, na Delegacia Federal de Controle na Paraíba. Eu vinha da área de telecomunicações e de repente me botaram num birô e me deram, lápis, caneta, borracha, perfuradores e outros materiais semelhantes. Como eu era acostumado com bancadas repletas de equipamentos eletrônicos, senti como se tivesse voltado à escola.
O mais curioso é que de direito eu só sabia o que havia estudado para prova e o que havia aprendido no curso de formação para o cargo e.... mais nada!
Lembro que um dia um colega de repartição falou: "Ricardo, você viu um processo cujo interessado é o "e;Espólio de Fulano de Tal"e;"? Minha resposta foi: "É, eu vi um processo de um cara com esse nome esquisito.... Espólio... isso é lá nome de um pai botar no filho?" Todo mundo riu achando que era uma piada. Percebendo minha ignorância, dei uma espiada no dicionário e descobri que "Espólio" não era um engraçado nome de gente!
Acho que a situação demonstra algo que sempre tento dizer aos meus alunos. Para passar no concurso não é necessário ser um grande conhecedor do direito. Vc precisa apenas ser um grande conhecedor de como as matérias enumeradas no edital são cobradas nas provas. Isso é uma habilidade que se adquire e se treina.

CF - E o mais triste?

RA - Concurseiro sempre tem história triste para contar. Na preparação não se investe apenas dinheiro em livros, cursos etc. Se investem sentimentos, sonhos. Já falei que concurseiro "dá um pause na vida".
Em todos os concursos de que participei, entrei achando que aquela disputa era a mais importante da minha vida. Em 1997, eu não havia concluído o curso superior e fiz o concurso para Técnico do Tesouro Nacional (hoje, Analista Tributário da Receita Federal, de nível superior) e fiquei fora das vagas por um ponto. Fiquei muito deprimido, parecia que o mundo tinha vindo abaixo. Ora, cheguei tão perto! Quando eu ia dormir, eu conseguia ver a prova, enxergar o enunciado das questões que eu tinha errado, mesmo sabendo da matéria.
Depois comecei a trabalhar minha mente, imaginando que os que os que estavam na minha frente, naquele momento, eram os únicos melhores que eu na busca daquele cargo e que, portanto, se eu mantivesse o ritmo de estudo, no concurso seguinte eu seria o primeiro colocado. Não deu outra: fui o primeiro no concurso de 1998, o último para nível médio!

CF - Quando um acadêmico ou bacharel toma a decisão de ingressar numa carreira pública, qual o primeiro passo a ser dado?

RA - O primeiro passo é escolher a carreira. Parece óbvio, mas muito concursando é promíscuo! Tenta agarrar todo concurso que aparece à sua frente. A conseqüência prática é que ele estuda as mais diversas matérias, mas não se torna realmente preparado para enfrentar provas aprofundadas de nenhuma delas.
Conheço gente que começa a se aprofundar em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho visando a concursos da carreira trabalhista. Quando, de repente, surge o edital do concurso para Delegado da Polícia Federal, a criatura larga tudo e vai se aprofundar nas mais exóticas especificidades do Direito Penal. Resultado? Não consegue ser aprovado em nenhum dos concursos.

CF - O que deve esperar o concursando na hora de optar pela carreira de Procurador do Ministério Público de Contas?

RA - Muita concorrência! A instituição é relativamente nova, de forma que em alguns Estados ela nem existe, como inconstitucionalmente ocorre em São Paulo e na Bahia. Quando o concurso é realizado, são pouquíssimas as vagas disponíveis, pois normalmente a carreira é composta de menos de dez cargos por Estado, com raríssimas exceções.
Assim, se o concursando quer ingressar no MPC deve tratar de, antes de qualquer edital, aprofundar-se bastante no estudo de Direito Constitucional, Administrativo e Financeiro e Controle Externo. Claro que estas matérias são importantes em diversos concursos, mas para ser aprovado para Procurador do MPC o peso e a profundidade das provas destas matérias é normalmente maior que em outros certames.

Comentários

BEM-VINDO À CARTA FORENSE | LOG IN
E-MAIL:
SENHA: OK esqueceu?

RICARDO ALEXANDRE

Ricardo Alexandre
Procurador do Ministério Público de Contas de Pernambuco Professor da Rede LFG e de cursos preparatórios para concursos em diversas capitais. Autor do livro "Direito Tributário Esquematizado" publicado pela Editora Método

NEWSLETTER

Receba nossas novidades

© 2001-2020 - Jornal Carta Forense, São Paulo

tel: (11) 3045-8488 e-mail: contato@cartaforense.com.br