Página Inicial   >   Colunas

FILOSOFIA Retórica e Ética

04/01/2011 por Luciene Félix

O respeitável cidadão Ateniense, Górgias de Leontinos (séc. V) é considerado por Platão, criador e personificação da arte da retórica. Rhetor, segundo Werner Jaeger, é o nome para designar o estadista que num regime democrático precisa, sobretudo, ser orador.

No discurso sobre a arte da retórica intitulado "Górgias", Sócrates dialogará com Górgias, Polo e Calicles. Dentre sérios apontamentos, lamentará que não se ensine a virtude política "por não existirem especialistas dela que fizessem profissão do seu conhecimento" e explicita porque o Estado deve ser governado por um educador moral.

Ele começa desvendando a essência da retórica: "é a capacidade de sugerir aos ouvintes uma mera aparência de certeza e de sugestionar a massa ignorante, com o encanto daquela aparência sedutora, em vez de convencê-la pela verdade".

Górgias diz que é "uma prova da grandeza da sua arte que ela erga a simples força da palavra à posição de instância decisiva no mais importante de todos os campos da vida, o da política".

O discurso adequado confere poder a quem o profere. O poder, sobretudo nos domínios político-econômicos é o objeto desta arte. Sócrates anseia por fazer ver o perigo do abuso deste poder.

Se um atleta usar sua força física para estrangular pai e mãe, quem poderá culpar seu treinador? Pressupomos que tanto mestres quanto discípulos saibam o que é bom e justo. Mas para a retórica são indiferentes as questões morais. E mesmo assim, se pretende techné (técnica/saber/aptidão/prática/especialidade/arte) ao que Sócrates refuta, pois techné implica Areté (excelência).

O estadista Calicles declara o direito do mais forte como moral suprema, afinal, assim é a natureza. Mas Sócrates apresenta a retórica política como "a imagem ilusória de uma verdadeira [techné] arte, que por sua vez faz parte da verdadeira arte do Estado".

Ele diz que a vida do Homem divide-se em vida da alma e vida do corpo e cada uma dessas instâncias requer uma arte (techné) a velar por elas. O cuidado da alma cabe ao Estado (pólis/política) e o do corpo, à ginástica. Obviamente, pode haver a alma sadia e a doente; E corpo, saudável ou enfermo.

O ramo da política que vela pela alma sã é a legislação: "enquanto a alma enferma reclama os cuidados da administração prática da justiça". Igualmente, da manutenção do corpo apto, se encarrega a ginástica e do doente, a Medicina.

Sócrates afirma que estas quatro artes [legislação /justiça/ginástica/Medicina] encaminham-se para a consecução do melhor e para a conservação da alma e do corpo.

A cada uma dessas variantes, ele faz corresponder quatro imagens ilusórias a embotar o Homem: 1) à legislação, a sofística; 2) à justiça, a retórica; 3) à ginástica, à "e;arte"e; da perfumaria e, 4) à Medicina, a "e;arte"e; culinária.

Estas variantes, segundo ele, não tem como télos (objetivo, propósito) a consecução do melhor no Homem, mas aspiram somente a lhe agradar. Está demarcado o lugar da retórica: para a alma humana é o equivalente à arte culinária para o corpo, não constitui verdadeira techné.

Toda techné tende para o melhor, indicando a sua relação em ordem a um valor e, em última instância, ao mais alto de todos os valores: o Bem.

A arte da retórica é de grande influência na política porque: "A ânsia de poder é uma tendência enraizada fundo demais na natureza humana. Mas, se o poder é uma coisa grande, terá de se reconhecer que a força que nos ajuda a obtê-lo tem suma importância também".

No estado de natureza, o Homem obtém o poder pela força. É a lei do mais forte a subjugar o mais fraco. Héracles se apropria dos bois de Gerião: "os bens dos fracos são por natureza presa do forte".

No Estado governado pelos mestres da retórica, fortes são aqueles cujo discurso comove e convence. Se não forem éticos, deixar-se-ão pautar pelo mesmíssimo princípio que rege o enlameado Homem em estado de natureza. Será tido como "e;natural"e; que, com o aval do Estado, as manobras econômicas, com suas vantagens sedutoras, ocultando perigos, escravizem injustamente a grande massa de geriões.

A arte da persuasão como instrumento da vontade de poder, movida pela cobiça e falta de escrúpulos só pode ser enfrentada por uma Paidéia (educação) acalentada no seio do próprio Estado. Sócrates opõe a filosofia da educação à filosofia da força. Enxergava nessa Paidéia, o critério da felicidade humana, contida na kalokagathia (amor belo) do justo.

O conceito que Calicles tem da natureza do Homem, e que serve de base à sua teoria do direito do mais forte, baseia-se na rasa equiparação do bom ao que é agradável e dá prazer.

Há o que é justo no sentido da natureza e o que é justo segundo a lei. E o que é justo na natureza coincide com o que proporciona prazer. Assim, o mais forte agora é o retórico, devendo, portanto, dominar: "O problema é saber se também o homem que nasceu para dominar deverá dominar a si próprio". Eis o peso e a força do laureado.

Assim como o corpo tem seu cosmos (ordem) que é a saúde, também na alma existe uma ordem: "denominamos lei e baseiam-se na justiça, no domínio de si próprios e no que chamamos virtudes".

O Estado deve diferenciar-se da massa hedonista, pois para esta "o bom coincide com o que é agradável aos sentidos". E qual seria a conduta humana que a multidão adotaria se, em seu conceito, o melhor tipo de vida é a agradável e prazerosa?

Dialético, Sócrates exige que as sensações de prazer sejam divididas em boas e más "o bom não é igual ao agradável [é bom adquirir uma formação, mas talvez seja desagradável locomover-se diariamente, por anos e cumprir as tarefas inerentes ao curso] nem o mau ao desagradável" [cabular aulas é um mal nem sempre desagradável].

O conceito de opção da vontade e do objetivo final da vontade se apresentará como sendo o Bem. Luta-se contra a apaideusia, que é a ignorância quanto aos bens supremos da vida. Eis a verdadeira magnitude do ethos moral de Sócrates, ele "rasga completamente o véu que cobre o abismo cavado entre ele e o hedonismo".

A grandeza de um estadista não deve estar em satisfazer seus próprios apetites e os da massa, mas em "infundir às suas obras um determinado eidos (forma) tão perfeito quanto possível", diz Jaeger.

A justa medida, a moderação (sophrosyne) se faz presente em todas as virtudes e a alma refletida e disciplinada é a alma boa. A palavra grega "bom" (agatós) abarca o sentido ético e é o adjetivo correspondente ao substantivo Areté, designando toda a classe de virtude ou excelência.

Justiça é a harmonia que faz corresponder a virtude humana à virtude cívica. Quando se divorciam, o Estado se degenera, torna-se indigno de sua autoridade. Enquanto não atentarmos a isso, os fortes (de boa lábia) continuarão a se apropriar e gerir como bem entendem os parcos e árduos bens de Gerião.

Comentários

BEM-VINDO À CARTA FORENSE | LOG IN
E-MAIL:
SENHA: OK esqueceu?

LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

NEWSLETTER

Receba nossas novidades

© 2001-2019 - Jornal Carta Forense, São Paulo

tel: (11) 3045-8488 e-mail: contato@cartaforense.com.br