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LÍNGUA PORTUGUESA Reforma Ortográfica: O que parece ter mudado, mas não mudou

03/08/2009 por Eduardo de Moraes Sabbag
As novidades do Acordo Ortográfico não são poucas, o que tem levado o falante, diante de certas "encruzilhadas" de ortografia e de acentuação, a se perguntar: "Será que tal palavra foi modificada com a reforma ortográfica?".

Venho percebendo que este tipo de dúvida tem se tornado recorrente. São os mais variados os episódios nos quais elas são suscitadas.
 
Na semana passada, em uma palestra proferida a advogados, fui  chamado a dirimir uma celeuma:

- A palavra PREQUESTIONAMENTO continua sem o hífen? - indagou o ouvinte.

- Sim - respondi a ele -, a palavra já era grafada sem o hífen, embora muitos operadores do Direito insistissem em usá-lo, e agora permanece grafada "tudo junto".

E outro ouvinte aproveitou para tirar dúvida correlata:

- E as palavras PREDETERMINADO e PREEXISTENTE?
- Também continuam intactas - disse-lhe. Permanecem sem hífen.

Faz poucos dias, presenciei um questionamento em sala de aula. Os alunos queriam saber se a palavra SOCIOECONÔMICO havia recebido o hífen com o Acordo? Rapidamente, intervim:

- Meus caros, esta palavra permanece inalterada! Infelizes são aqueles que a hifenizam! - respondi, com certo tom de inconformismo.

Com efeito, mesmo diante dos dicionários, que nos ensinam a grafia desta palavra, quantos ainda utilizam o hífen, criando a inadequada forma "sócio-econômico"...

Em outra passagem, ao telefone, ajudei um amigo juiz de direito.

- As palavras BOA-FÉ e MÁ-FÉ permanecem com o hífen? - perguntou-me o magistrado.

- Sim, permanecem hifenizadas. Aqui não se deu qualquer alteração no Acordo.

E este diálogo ao telefone rendeu outras dúvidas pertinentes. O magistrado inquiriu-me sobre as formas CONTRAMANDADO e SUPRACITADO (ambas, sem hífen) e INFRA-ASSINADO (com hífen). Queria saber se sofreram modificações após a reforma ortográfica.

Disse-lhe:

- Todas permaneceram intactas após a reforma ortográfica. As palavras CONTRAMANDADO e SUPRACITADO sempre foram grafadas sem o hífen. A outra palavra - INFRA-ASSINADO - recebia o hífen, uma vez que a regra impunha (e continua impondo) a utilização do sinal, quando a palavra posterior iniciar-se por idêntica vogal.

Todavia, foi em minha caixa de e-mails que coletei um maior número de dúvidas. Abaixo se registram algumas perguntas e as respectivas respostas:

1. Internauta: - A frase "Ele pôde ter feito, mas não fez", à luz do Acordo Ortográfico, sofreu mudanças?
Minha resposta: - A frase permanece inalterada. Aliás, a dúvida se refere à forma verbal "pôde", que recebe o acento diferencial para se distinguir de "pode". A forma acentuada indica o tempo pretérito perfeito do indicativo, enquanto a forma não acentuada designa o tempo presente do indicativo, ambas na terceira pessoa do singular. O acento diferencial permaneceu neste caso. Daí escrevermos, ainda, com correção, "ele PÔDE ontem" e "ele PODE hoje".

2. Internauta: - Como se grafa a palavra "PÔR-DO-SOL" após o Acordo?
Minha resposta: - O acento diferencial permaneceu em PÔR (verbo). Daí continuarmos escrevendo, com correção, "vou PÔR as mãos nesse canalha!" (com acento) e "luto POR você" (sem acento). A partir desse dado, constata-se que a palavra PÔR-DO-SOL permaneceu com o acento circunflexo, uma vez que o primeiro elemento PÔR designa uma substantivação do verbo, todavia a reforma ortográfica suprimiu os hifens que separavam os elementos. Portanto, após o Acordo, vamos grafar PÔR DO SOL (ou PÔR DE SOL), ambas com o acento circunflexo, mas sem os hifens.

3. Internauta: - A acentuação dos ditongos abertos em ANÉIS, ANZÓIS e CÉU sofreu modificação com o Acordo?
Minha resposta: - Antes do Acordo, acentuavam-se todas as palavras que apresentavam ditongos abertos "éu", "éi" e "ói". Exemplos: chapéu, papéis, herói.
Após a reforma ortográfica, o acento agudo desapareceu apenas no caso de paroxítonas, ou seja, aquelas palavras cuja sílaba tônica é a penúltima. Exemplos: IDEIA (antes, "idéia"); PARANOIA (antes, "paranóia"); HEROICO (antes, "heróico"). Daí se falar que nas oxítonas, formadas pelos ditongos citados, nada mudou, permanecendo o acento. Exemplos: ANÉIS, ANZÓIS, CHAPÉU, PAPÉIS, HERÓI, entre outras. O mesmo se deu com os monossílabos, que permaneceram com o acento: DÓI, MÓI, RÓI, CÉU, RÉU.

 4. Internauta: - A acentuação dos hiatos em JUÍZES, SAÚDE e FAÍSCA sofreu modificação com o Acordo?
Minha resposta: - Antes do Acordo, acentuavam-se as vogais "i" e "u" sempre que formavam o hiato com a vogal anterior, ficando isolados na sílaba ou seguidos de -s. Exemplos: ba-ú; preju-í-zo; a-tra-í-do; fa-ís-ca. Após a reforma ortográfica, o acento agudo desapareceu apenas nas situações em que as mencionadas vogais formam hiato com um ditongo anterior. Exemplos: FEI-U-RA (ditongo "ei", na sílaba "fei-"); BO-CAI-U-VA (ditongo "ai", na sílaba "cai-"); BAI-U-CA (ditongo "ai", na sílaba "bai-"). Portanto, a acentuação dos hiatos em JUÍZES, SAÚDE e FAÍSCA não sofreu modificação com o Acordo.

5. Internauta: - A frase "Eles têm dúvidas sobre a reforma ortográfica", à luz do Acordo, sofreu alteração?
Minha resposta: - A frase não sofreu alteração. É que o acento diferencial permaneceu em algumas formas verbais afetas ao verbo "ter":  "TEM" (terceira pessoa do singular do presente do indicativo) e "TÊM" (terceira pessoa do plural do presente do indicativo). O acento diferencial se manteve neste último caso. Daí escrevermos, ainda, com correção, "ele TEM dúvidas" e "eles TÊM dúvidas".

Como se notou, são inúmeras as encruzilhadas diante das quais o usuário da língua se põe quando pretende aplicar as novas diretrizes impostas pelo Acordo Ortográfico. A bem da verdade, os desafios impostos pela reforma serão bem superados, em bom trocadilho, com a "superação da dúvida". Esta é sempre salutar. Como dizem os chineses, "a dúvida é a antessala do conhecimento". Aliás, "antessala" já grafada "de acordo com o Acordo", para que não pairem dúvidas...

Comentários

  • Rafaely Rossandra Barradas Santos
    08/04/2010 11:11:38

    Adoro as suas mat'rias Professor Sabbag, nÆo fui sua aluna, mas leio todas as suas mat'rias na Carta Forense.O modo como voc^ explica a Gram tica, deixa ela at' mais f cil..Parab'ns.

  • denise aparecida estevÆo ramos de campos
    06/08/2009 17:48:19

    Eterno Professor Sabbag Fui sua aluno em 2005 no Prima. Sou jornalista e trabalho na Imprensa Oficial do Estado. Tamb'm advogo um pouco. Vivo .s voltas com as letrinhas... Adorei a mat'ria sobre o Acordo Ortogr fico. Parab'ns! Abra╬os.

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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