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Língua Portuguesa Quer ser Promotor de Justiça? Só estudando Concordância...

02/05/2008 por Eduardo de Moraes Sabbag

No dia 13 de abril de 2008, realizou-se a prova preambular para o ingresso na carreira do Ministério Público do Estado de Santa Catarina.

Tradicionalmente, a prestigiosa Instituição solicita, em seu disputado certame, 20 (vinte) questões objetivas de gramática da Língua Portuguesa, com acentuado grau de exigência, demonstrando uma salutar preocupação em cobrar o domínio do português daqueles que aspiram se tornar Promotores de Justiça, naquele Estado. Frise-se que são 20 (vinte) questões de português, entre 90 (noventa) testes possíveis, indicando o significativo peso que a respeitável Banca Examinadora atribui à Língua Portuguesa, nesta fase inicial do processo seletivo.

Analisando a prova, notei testes bem elaborados, que percorrem os principais pontos da gramática, indispensáveis à formação lingüística do usuário da Língua, sobretudo do operador do Direito, que dela depende dia a dia. Destacam-se pontuais testes de acentuação, pontuação, crase, colocação pronominal, regência, concordância, entre outros pontos do Edital, porém todos com uma característica marcante: o candidato deve conhecer o tema proposto e, além disso, não se deixar perder nas alternativas - que são habilmente tendentes à confusão!

Três testes deste concurso me levaram a confeccionar este artigo, em razão, exatamente, da "pegadinha" que encerram em seu teor: o gabarito apontou como correta a opção "nenhuma das alternativas anteriores". Mas qual o problema nisso? Além de os testes serem sucessivos - o que mexe com o equilíbrio emocional do examinando -, contemplam assertivas muito adequadas para uma prova em concurso.

 

Passemos à análise sucinta das questões 17, 18 e 19 da prova respectiva:

 

17ª QUESTÃO: Analise as seguintes orações:

 

I - Remeto-lhe incluso uma fotocópia do recibo.

II - Esses produtos passam a custar mais caro.

III - Vão anexos os pareceres das comissões técnicas.

IV - Os prédios devem ficar o mais afastados possíveis.

V - As meninas iam todas de branco.

 

Assinale a alternativa correta quanto à concordância nominal das frases:

 

A.( ) As proposições I, II e III são corretas.

B.( ) As proposições II, IV e V são incorretas.

C.( ) A proposição III é a única correta.

D.( ) As proposições I e V são incorretas.

E.( ) Nenhuma das alternativas anteriores.

 

 

Comentários: a questão versa sobre concordância nominal. Como se disse, nenhuma alternativa trouxe resposta viável, devendo o candidato optar pela letra "E".

 

Proposição I: Remeto-lhe incluso uma fotocópia do recibo.

A palavra "incluso", de valor adjetivo, na acepção de incluído, concorda em gênero e número com o substantivo a que se refere - no caso, "fotocópia", um substantivo feminino. A propósito, os vocábulos "anexo" e "apenso" seguem a mesma regra.

Portanto, a frase está ERRADA, devendo ser corrigida por "Remeto-lhe inclusa uma fotocópia do recibo" ou, com vírgulas, "Remeto-lhe, inclusa, uma fotocópia do recibo" [1].

 

 

Proposição II: Esses produtos passam a custar mais caro.

O adjetivo "caro", quando ocupa a função de advérbio, fica invariável, conquanto exista registro, entre os escritores clássicos, da utilização de "caro", como advérbio, mas flexionado.

Portanto, afastado o dissenso, a frase está CORRETA, não apresentando impropriedades [2].

 

 

Proposição III: Vão anexos os pareceres das comissões técnicas.

A explicação para a palavra "anexo" pode ser extraída dos comentários feitos à proposição I, em epígrafe.

A frase, portanto, está CORRETA, não apresentando impropriedades [3].

 

 

Proposição IV: Os prédios devem ficar o mais afastados possíveis.

O adjetivo "possível", usado em expressões superlativas, pode variar ou não. De um lado, usa-se "o mais possível", indicando, por exemplo, "o mais (inteligente) possível". Assim, quando a expressão superlativa iniciar-se com a partícula -o (o menos, o mais, o menor, o maior etc.), o singular será de rigor no adjetivo "possível". De outra banda, pode-se usar, caso o contexto admita, a forma plural "os mais possíveis" (por exemplo, "os mais (inteligentes) possíveis").

Portanto, a frase está ERRADA, devendo ser corrigida por "Os prédios devem ficar o mais afastados possível" [4].

 

 

Proposição V: As meninas iam todas de branco.

A palavra "todo", embora se mostre como advérbio, no sentido de inteiramente, completamente, costuma-se flexionar, concordando, por atração, com o termo que modifica. Todavia - é bom frisar -, há registros na gramática, abonando o uso de "todo", neste caso, na forma invariável (Os píncaros dos montes estavam TODO cobertos de neve).

Portanto, afastado o dissenso, a frase está CORRETA, não apresentando impropriedades [5].

 


Note que, no confronto com as alternativas, nenhuma satisfaz os julgamentos das proposições acima comentadas. Diante disso, restou a saída da alternativa "E".

 

Passemos, agora, à 18ª questão da prova:



[1] A frase, ipsis litteris, pode ser observada na Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, de Domingos Paschoal Cegalla, 46ª ed., São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 2005, p. 443.

 

[2] A frase, ipsis litteris, pode ser observada na Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, ibidem, p. 445.

 

[3] A frase, ipsis litteris, pode ser observada na Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, ibidem, p. 443.

 

[4] A frase, ipsis litteris, pode ser observada na Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, ibidem, p. 444.

 

[5] A frase, ipsis litteris, pode ser observada na Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, ibidem, p. 445.

 


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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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