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Língua Culta Quem nasce no Acre é o quê?

01/04/2009 por Eduardo de Moraes Sabbag

Faz alguns dias, cheguei da cidade de Rio Branco. Fui ao Estado do Acre ministrar um curso de língua portuguesa a ocupantes de cargos públicos de várias instituições.

 

Quando chego a uma cidade, tenho um hábito de infância: sempre pergunto "quem nasce aqui é o quê?". Aos hospitaleiros amigos do Acre fiz a mesma pergunta, todavia notei certa inquietação na resposta.

 

Quase todos responderam acrEano, com -e, porém observei que a resposta não havia sido espontânea, mas "apaixonada". Alguns responderam indicando que esta era a forma que queriam, mas que não correspondia à que haveria de ser. Outros fizeram comentários entre si, como "segundo os dicionários, aqui vivem acrEanos, porém a ABL quer que aqui vivam acrIanos...".

 

Logo percebi que o problema estava na ortografia da palavra: acreano ou acriano. E mais: a ABL - Academia Brasileira de Letras -, com as novas regras de ortografia, parecia ter apimentado a discussão.

 

Passemos à análise:

 

De há muito, encontra-se nos dicionários as palavras "acreano" e "acriano", indicadoras da naturalidade do habitante do Acre. Trata-se, pois, de palavra de dupla prosódia para o Aurélio e para o Houaiss. A mesma direção foi adotada pelo VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), em sua edição de 2004, admitindo-se as duas possibilidades ortográficas. Nesse passo, as duas formas são vernáculas e corretas, além de dicionarizadas. Diante desse universo tão "democrático", onde estaria a celeuma?

 

A resposta pode ser facilmente descoberta em um rápido passeio pelas ruas da capital Rio Branco. Na organizada cidade tão bem cuidada pelas "margaridas" - mulheres que limpam as ruas com o mesmo esmero que cuidam de suas casas - só se fala "acreano". Nas placas comemorativas do notável centro histórico da cidade, só vi "acreano". Em pesquisa ao emblemático hino nacional do Estado, encontrei "(...) encha o peito de cada "e;acreano"e; (...)". Continuei procurando "acriano", e só achei acrEano... Vi também que a dupla prosódia só habita o dicionário, pois o povo adota apenas uma prosódia: acrEano!

 

Não é de estranhar: estava em um Estado em que o apego às coisas da terra é expressivo. Da palavra "Acre" surgiu "acreano", e foi o que "pegou", o que se enraizou na mente do usuário da língua. A palavra se tornou uma identidade local, assim como tantos outros elementos particulares daquela opima terra. Fale com um acreano e verá o brilho em seus olhos quando se refere a seu nutritivo açaí, a seu perfumado cupuaçu, a sua saborosa banana comprida, a sua inigualável farinha e a sua brasileiríssima castanha. E mais: será difícil encontrar um natural do Acre que não conheça a labuta do seringueiro, as lendas da floresta e a saga de Chico Mendes. Não há dúvida: estava em um Estado em que a brasilidade tem muito viço. É a pura "acreanidade". Se aquele que nasce no Acre tem tudo isso, é, verdadeiramente, um "acrEano" de coração!

 

Entretanto, de terras distantes dali soou a ordem: as duas grafias - acreano e acriano - deverão viver até 31 de dezembro de 2012. A partir dessa data, somente subsistirá a forma acriano. Que bomba!

 

Trata-se de disposição imposta pela Academia Brasileira de Letras, no Novo Acordo Ortográfico, em cuja base V prevê que "os sufixos -iano e -iense mantêm o i nos substantivos e adjetivos derivados, mesmo que as respectivas formas primitivas possuam e: acriano, de Acre (...)".

 

A explicação etimológica é razoável: na palavra "Acre", a sílaba tônica é "A-", enquanto o "-e" da última sílaba (-CRE) mostra-se átono. Dessa forma, a vogal "e" dá lugar à vogal de ligação "i" na formação do termo derivado. Note:

 

 

ACRIANO (ACRE)

Radical

 

Vogal de Ligação

 

Sufixo

 

ACR-

 

-I-

 

-ANO

 

 

O mesmo fenômeno morfológico ocorre em "açoriano", relativo a Açores:

 

AÇORIANO (AÇORES)

Radical

 

Vogal de Ligação

 

Sufixo

 

AÇOR-

 

-I-

 

-ANO

 

 

Igualmente razoável é a indignação daqueles que não aceitam a mudança. Cheguei a ouvir de um culto cidadão rio-branquense com quem conversei: "Uma vogal de ligação que nada une, mas mutila... um acordo que aqui promove desacordo..."

 

Se a "ordem" oficial veio da ABL, não se pode perder de vista que de lá também veio a disposição segundo a qual "o emprego do -e e do -i, assim como o do -o e do -u, em sílaba átona, regula-se fundamentalmente pela etimologia e por particularidades da história das palavras (...)". A prevalecer esta disposição, assiste razão aos incorformados que buscam patentear "acreano" em vez de acriano. De outra banda, vingando a lógica gramatical, que se põe sobrepairante a sentimentos e paixões, prevalecerá a vogal de ligação "i", contra todos e contra tudo... Que dilema!

 

Em sala, expliquei o tema. Não busquei convencer. Nem mesmo a ABL convenceu até agora... Se o nome da mudança é "acordo", pelo menos, no Acre, não o vi. Todavia, notei que naquele povo não é a vogal de ligação que o diferencia, mas o apego e a paixão às coisas de sua maravilhosa terra. No embate da ortografia, em que a morfologia desafiou a paixão, o tempo apontará o vencedor.

Comentários

  • Sonia Bernardette Moreira Gerstmann
    07/04/2014 11:45:42

    Senhores Acadêmicos, por favor revejam esta posição. Os ACREANOS são brasileiros que desde Plácido de Castro AMAM este País e FAZEM QUESTÃO de ser BRASILEIROS!!!!!

  • irio mariano
    06/04/2014 12:31:22

    Quem nasce na Acre é lutador, e guerreiro.

  • arnaldo moreno
    05/04/2014 11:01:23

    Como é bom ser acrEano. Como é maravilhoso poder declarar a quem desejar impor uma regra nova por conta de um acordo que não acorda com nossas aspirações que o acordo que se dane. AcrEano é quem nasce, vive, ama o Acre e seus costumes e tradições, seu linguajar acrEano. Quanto mais o tempo passa, mais acrEano me sinto. Venha ser acrEano.

  • Milkis Barros
    29/03/2014 06:55:53

    Meu avô lutou na revolução e não dispediçarei a sua luta, me desculpe a ABL mas vou ser ACREANA até a morte, já somos de LUTA desde sempre...

  • Suelen Borges
    14/03/2014 16:23:43

    parabens por seu comentario, foi muito bonito, e admiravel a maneira como conheceu a paixao do acrEano pelo ACRE.

  • Débora Cristina Marinho
    14/03/2014 13:10:25

    Foi lindo o que você escreveu. Me deixou emocionada. E como uma Boa "AcrEana" jamais mudarei a forma de pronunciar essa palavra! Ao fazer essa mudança a Academia Brasileira de Letras, não se preocupou nem um pouco com os aspectos culturais de nosso Estado! Mas como bons AcrEanos, já estamos acostumados com o desrespeito do resto do pais, desde a celebre frase "O Acre existe?" Mas adorei seu Artigo, fico Imensamente feliz por suas palavras e espero que volte mais vezes a nossa terrinha!! =]

  • karen
    14/03/2014 12:04:48

    Sou acrEana até morrer.

  • Luiz Carlos Ribeiro Santos
    14/03/2014 09:30:36

    Ilustre Mestre! Nasci acreano e morrerei acreano, independente de acordo ou desacordo. Escreverei acrIano nos documentos oficiais, mas acrEano nos documentos particulares.

  • Álvaro Mendes
    13/03/2014 23:22:05

    É uma lastima ver pessoas querendo mudar o nome sem consulta porque é da academia. Pra mim estes que se dizem letrados deveriam aprender a respeitar um povo e sua gente . sE NÃO Há respeito não tem valor em seguir estes. Somos ACREANOS SIM DE CORAÇÃO.

  • Damiana Avelino
    13/03/2014 22:34:53

    Irei até o final de meus dias sendo acreanaaaaaaaa e ponto! cadê a linguística frente a tudo isso!!! Aff...

  • Francisco Fontenele
    13/03/2014 22:22:08

    ACREANO IRÁ PREVALECER SEMPRE (QUEIRAM OS ACADÊMICOS SERÃO MESMO ACADÊMICOS). SE JÁ VENCEMOS UM PAIS TAMBEM VENCEREMOS ESTA ABL

  • Estanislau
    13/03/2014 20:53:33

    Bem quanto a mim... Vou continuar sendo Acreano doa a quem doer..... Como falou o nobre professor é uma questão de paixão ... Será só mais uma briga, pois o Acre é único estado da Federação que pediu para fazer parte da federação ... Pediu !!!!! Ao contrário dos outros estados que foram convidados .... Sem contar a ferrenha briga com o estado boliviano ..... !!!!

  • sara
    13/03/2014 20:25:26

    Muito bom!!!!

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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