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LÍNGUA PORTUGUESA Que língua! Tantos quês...por quê?

03/10/2014 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

O aluno estava ofegante. Havia subido as escadas, que levam à sala de aula, à minha procura, com uma dúvida que parecia o afligir. Tratava-se da frase que intitula o presente artigo e que fora solicitada em prova de língua portuguesa em concurso a que ele se submetera:

 

“Que língua! Tantos quês...por quê?

 

Algo o perturbava: os acentos circunflexos (quês / quê). Além disso, não se conformava com o plural “quês” e desconhecia a razão da separação na forma “por quê”.

 

Ao ouvir a frase, adiantei-lhe, de pronto:

 

–   Meu caro aluno, a frase está correta.

 

Seu olhar demonstrou certa dose de espanto e decepção. Talvez tivesse, por qualquer motivo, acreditado na incorreção da frase...

 

–   Sim, há precisão na forma – insisti. O tema, todavia, é bastante complexo. A palavra “que”, meu amigo, é uma das mais difíceis de se analisar no português. Essa palavrinha, aparentemente singela, provoca celeumas diversas, em virtude de suas múltiplas funções sintáticas.

 

Passei, portanto, a esclarecer:

 

–   Na frase inicial “Que língua!”, o termo sublinhado apresenta-se como pronome indefinido, ao se ligar a um substantivo em frase exclamativa. Exemplo: “Que frio terrível!”

Quanto à frase seguinte – “Tantos quês...por quê?” –, é prudente lembrar a letra da canção “Meu Bem Querer”, do Djavan:

 

“Meu bem querer / Tem um quê de pecado...”.

 

O termo aparece acentuado, pois se trata de substantivo. Nesse caso, como monossílabo tônico, receberá o acento circunflexo.

 

A forma “quê” – complementei – ocorrerá em diversas hipóteses: (I) com a letra “Q”, que deve ser escrita com acento – “quê”; (II) quando se exprime sentimento ou emoção, por meio de uma interjeição: “Quê! Você de novo!”; (III) quando se tratar de pronome indefinido pronunciado tonicamente, em frases interrogativas: “A produto é feito de quê?” ou “Isso tem gosto de quê?”; (IV) com a expressão “um não sei quê”: “Em seu semblante, havia um não sei quê de irônico.”

 

O aluno ouvia atentamente, esperando sanar todas as dúvidas. Assim, dispus-me a elucidá-las, com paciência:

 

–   Note bem: a forma “por que”, separada, ocorre em virtude da junção da preposição “por” com o pronome interrogativo “que”, equivalendo a “por qual motivo” ou “por qual razão”. Nesse passo, diga-se que o fato de surgir no final da frase, imediatamente antes de um sinal de pontuação –ponto de interrogação, no caso – torna o termo tônico, avocando-se-lhe o acento circunflexo (quê).

 

E perguntei ao aluno:

 

–   Você não se lembra da emblemática canção “Carinhoso”, de Pixinguinha e João de Barro?

 

“Meu coração, não sei por quê, bate feliz quando te vê.”

 

O aluno acenou afirmativamente, demonstrando captar a explicação. Estava certo de que o tema era complexo. Resolvi, então, provocá-lo com uma indagação:

 

–   Como compreendeu algumas funções do “que”, deixe-me ver se supera este teste:

 

“Qual a função da palavra ‘que’ na frase ‘Que vida boa que você tem!’

 

O aluno pensou e não conseguiu responder ao teste. De fato, a pergunta era capciosa. Dei-lhe a resposta:

 

–   Partícula de Realce ou Expletiva, isto é, o termo pode ser retirado da frase sem prejuízo ao sentido. Poder-se-ia dizer, omitindo-se a palavra: “Que vida boa você tem!” Aparece quase sempre na locução “é que”. Observe a frase elucidativa de Machado de Assis:

 

Que suplício que foi o jantar!”.

 

O primeiro “que” é pronome indefinido; o segundo, por sua vez, é partícula expletiva.

 

Na ocasião, aproveitei para enriquecer o diálogo com outro exemplo:

 

–   Veja os versos de Casimiro de Abreu, para os quais se têm as mesmas classificações supramencionadas – pronome indefinido e, depois, partícula expletiva:

 

Oh! Que saudades que eu tenho / Da aurora da minha vida, / Da minha infância querida (...)

 

O aluno, que ouvia com atenção, anunciou sua partida:

 

–   Professor, muito obrigado. Foram providenciais as explicações. Tenho que ir...

 

Enquanto o aluno se afastava, despedi-me, sem perder a chance do complemento:

 

–   A propósito, nesta frase “tenho que ir” o termo “que” é preposição, sabia? Pode ser substituído por “de”, vindo ao lado dos verbos “ter” e “haver”.

 

O aluno acolheu a regra derradeira e, valendo-se de emblemático verso da MPB, sugeriu, com pontualidade, Gilberto Gil:

 

Se eu quiser falar com Deus, tenho que ficar a sós.

 

Elogiei a argúcia e rebati, ratificando-o com Chico Buarque:

 

Alguém vai ter que me ouvir / Enquanto eu puder cantar”.

 

Sorrindo, ambos exclamamos: “Que língua!

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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