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MEDIDA DE SEGURANÇA Psiquiatria do Trabalho

07/01/2015 por Antonio José Eça

No rastro da “psiquiatria administrativa”, nosso tema anterior, vamos conversar um pouco sobre a psiquiatria do trabalho, sua, por assim dizer, irmã.

 

Na psiquiatria do trabalho, haverá sempre um questionamento básico que seria o de saber até que ponto o exercício de tal trabalho influenciou no mal mental do paciente; mas não só isto, pois deve ser levado em conta que se pode discutir também:

 

- a ocorrência de contágios, que podem atrapalhar o desenvolvimento de uma profissão ou de uma ocupação; há, por exemplo, a descrição de casos que contam terem sido enfermeiros e médicos contaminados quando exerciam funções em hospitais de moléstias infecciosas, que por isso, ou mais, por medo disto, foram afastados de tal ocupação. Também se descreve (e alguns até conhecem casos assim), que em outros tempos, muitos dos pneumologistas de antigamente, chegaram a contrair tuberculose (e é fácil de entender porque – embora, é bem verdade, a permanência nos dispensários de tuberculose, ao contrário, tenha feito com que se aprimorassem no trato de tais patologias, fazendo-os se aprimorar na especialidade - pessoalmente, um dos nossos professores de pneumologia era um desses).

 

- há também a eventual existência de doenças mentais especificamente profissionais e acidentarias; em sofrendo um acidente, tal ocorrência pode alterar o encaminhamento da vida profissional de alguém, fazendo com que seja afastado ou precise ser readaptado a um novo trabalho, por ter sofrido uma lesão ou alteração qualquer que alterou seu psiquismo. Por outro lado, há as alterações ocupacionais ou profissionais, que passam pela eventual contaminação por produtos tóxicos, que venham a fazer mal diretamente ao psiquismo do trabalhador, mas de maneira diferente dos contágios mencionados atrás, (que iriam poder deixá-los com doenças físicas e paralelamente com reação psíquica de receio a este fato), já que esta estaria ligada diretamente a profissão, (por exemplo, a contaminação que pode ocorrer em trabalhadores de fabricas de baterias de automóveis, onde podem respirar vapores de chumbo, nocivos diretamente ao psiquismo, com o desenvolvimento de psicoses especificas).

 

Entretanto, mais importante, pelo menos a nosso ver, é que também há a desadaptação ao trabalho como um todo, onde se vai estudar o que pode fazer um trabalhador apresentar uma desadaptação qualquer ao trabalho que estaria desenvolvendo. Dela faz parte a eventual capacidade (ou mais importantemente, a incapacidade) laboral por motivos de ordem mental, isto é, se fulano tem ou não condições psíquicas de desenvolver tal ou qual trabalho; é comum um indivíduo pretender se dedicar a uma profissão ou a uma atividade dentro desta profissão e repentinamente se ver colocado em outra situação dentro do próprio trabalho, à qual não se adapte; por exemplo, temos um amigo, que, de fiscal de ICM que trabalhava em campo (na rua), foi colocado no trabalho interno, onde não se adaptou, pois segundo suas palavras, sentia que havia voltado para trás (já que tinha saído do trabalho em um banco - totalmente no escritório - que abominava) e que sentia que “haviam cortado sua asas”; deprimiu-se, foi medicado, afastado por um pequeno período e depois de ter pleiteado o retorno a atividades externas, conseguiu isto e não mais teve nenhuma alteração. Também já vimos casos de policiais que estavam adaptados á uma determinada unidade da polÍcia, que ao serem transferidos, não se adaptaram ao trabalho novo.

 

Novamente volta o psiquiatra do trabalho a correr o risco de ser crucificado: neste tipo de caso, quando um desses psiquiatras fala ao administrador que determinado indivíduo deve ser devolvido á uma função como a que anteriormente desenvolvia, passa esse profissional médico a correr o risco de ser execrado em praça publica, pois o indivíduo entrou na corporação e não pode escolher a colocação que quer, mas sim tem que aceitar a que lhe dão! Pois é, ao que parece, alguns senhores administradores não chegaram a conhecer a máxima que fala sobre a colocação “do homem certo no lugar certo”... Porque um senhor Promotor de Justiça que não gosta do crime tem que ser obrigatoriamente mandado para uma Vara Criminal? Porque (no nosso exemplo anterior), um fiscal de ICM tem obrigatoriamente de cumprir trabalhos internos? Porque um policial militar que entrou na corporação para ser bombeiro precisa ser mandado para o policiamento de trânsito?

 

Difícil entender a “lógica da obrigatoriedade”... quem entender, que explique; para nós, trata-se de truculência pura: Eu mandei e você tem que obedecer. Mas depois não se reclame do indivíduo estar mal e não trabalhando mais a contento; com certeza, a culpa não será do psiquiatra......

E isso.

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ANTONIO JOSÉ EÇA

Antonio José Eça

Médico psiquiatra; Mestre em psicologia. Professor de psicopatologia forense, medicina legal e criminologia. Autor de Roteiro de Psiquiatria Forense, Editora Saraiva.

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