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Língua Portuguesa Problemas Gerais da Língua Culta

12/09/2007 por Eduardo de Moraes Sabbag

Problemas Gerais da Língua Culta

 

 

Em certa ocasião, um Aluno me procurou e fez o seguinte pedido:

 

- Professor Sabbag, poderia me dar algumas dicas de português? É que vou fazer uma prova dissertativa, em concurso da área jurídica, e não poderei cometer erros. Estou desesperado...

 

Recordo-me de ter respondido ao aflito Aluno:

 

- Meu caro amigo, nossa língua não se resume a meras "dicas", porém anote algumas observações...e não se desespere...

 

Naquela ocasião, dei-lhe conceitos mais objetivos, pensando nas situações de dúvida que ele poderia encontrar no momento da confecção da peça dissertativa. Neste instante, rememoro alguns pontos enunciados, transmitindo-lhe, caro Leitor, nas linhas a seguir:

 

1. Evite a expressão através de usada sem adequação. Essa locução preposicional significa "de um para o outro lado", na acepção de "transpor obstáculo". Portanto, é erronia usar a expressão como indicadora de meio. Em português, as preposições que indicam relações de "meio" são: por meio de, por intermédio de, mediante, entre outras. Note o uso correto:

 

Irei ao outro lado do rio através da ponte;

A bala passou através da parede;

"Laços que se prolongam através das eras". (Alexandre Herculano).

 

Observe o uso inadequado nas situações a seguir discriminadas:

O Autor vem aos autos através do advogado abaixo assinado.

Chegaram a um bom termo através do acordo.

 

 

2. Cuidado com a ortografia, evitando erros que podem comprometer a estética do texto. Grafa-se infra-assinado, com hífen, e supramencionado, sem hífen - essas palavras possuem os prefixos "infra" e "supra", que antecedem o hífen, se a palavra posterior começar com -h, -r, -s e vogal.

 

Ademais, não perca de vista que prequestionamento, socioeconômico e retrocitado são termos grafados sem hífen. De modo oposto, saiba que boa-fé e má-fé grafam-se com hífen.

 

Não titubeie em vocábulos corriqueiros, como exceção, excesso ou excessivo. A grafia de tais palavras é demasiado problemática.

 

Caso pretenda se referir, eventualmente, a um inciso inserido em um artigo, use a forma inserto, com -s. Grafa-se com -c (incerto), se a intenção for mostrar "aquilo que não está certo".

 

 

3. Muito cuidado com o uso de expressões latinas, que devem ser grafadas com aspas, dando-lhes o destaque necessário. É oportuno lembrar que não se acentuam as palavras latinas. Portanto, grafe "data venia", sem acento circunflexo, ao indicar a forma polida de manifestar seu pensamento. Entretanto, saiba que pertence a nosso idioma o termo "vênia", com acento circunflexo - uma paroxítona terminada em ditongo, na acepção de "licença que, por deferência, pede-se a outrem". Exemplo: Com a devida vênia dos senhores, vou me retirar.

 

4. Tome cautela com o uso da crase. Entre as inúmeras regras, procure se lembrar de que não se usa o sinal grave (`) antes de verbo. Portanto, escreva a locução a partir de..., sem crase. Exemplo:

O Direito Civil foi construído a partir da legalidade constitucional.

 

Nesse passo, não omita o sinal nas locuções compostas de palavras femininas: à custa de, à medida que, à toa, às pressas, entre outras. Exemplo: Ele procede à feitura do projeto, à medida que se orienta melhor.

 

 

5. Outro defeito da redação forense, prejudicial à precisão do texto, consiste no abusivo emprego da locução sendo que, com valor conjuncional. Esta expressão pode ser bem empregada, quando for sinônima de "uma vez que", "pois" etc., haja vista representar uma locução conjuntiva causal. Observe o uso inadequado, nas situações a seguir discriminadas, acompanhado da ulterior correção:

 

I- O homem disparou quatro tiros, sendo que duas balas atingiram a vítima.

Corrigindo:  O homem disparou contra a vítima quatro tiros, dos quais dois a atingiram.

 

II- As duplicatas estavam em seu poder, sendo que a quitação foi dada posteriormente.

Corrigindo: As duplicatas, cuja quitação foi dada posteriormente, estavam em seu poder.

 

III- Os réus foram citados, sendo que apenas um deles contestou.

Corrigindo: Os réus foram citados, mas apenas um deles contestou.

 

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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