Página Inicial   >   Colunas

LÍNGUA PORTUGUESA Previsões gramaticais

02/07/2013 por Eduardo de Moraes Sabbag

O presente artigo versa sobre flexão verbal. Não venho aqui tratar de um daqueles verbos “esotéricos”, relegados ao ostracismo, no meio dos milhares que permeiam nosso léxico. Pelo contrário, vamos revisitar o recorrente confronto entre os verbos VER e VIR. Mais precisamente, trataremos do verbo PREVER.

 

O motivo? Na última semana, uma dúvida de aluno despertou minha atenção, motivando-me a escrever sobre o tema: “devemos falar ‘quando eu prever’ ou ‘quando eu previr’?”.

 

O verbo “ver”, no sentido de “enxergar, notar pela visão”, oferece conjugações simples, sem grandes celeumas, exceto em algumas flexões pontuais. Exemplos: quando se está no modo indicativo, devemos falar, no tempo presente, “eu vejo (hoje)” e “nós vemos (hoje)”; no pretérito perfeito, “eu vi (ontem)” e “nós vimos (ontem)”; no futuro, “eu verei (amanhã)” e “nós veremos (amanhã)”. Por amor à precaução, deixemos registrado, desde já, no modo subjuntivo, o tempo futuro: “quando eu vir (o filme)” e “quando nós virmos (o filme)”.

 

De outra banda, o verbo “vir”, na acepção de “aproximar-se, chegar”, indica flexões não menos automáticas, tirante alguns casos que reputo pertinente revelar: no modo indicativo, devemos falar, no tempo presente, “eu venho (hoje)” e “nós vimos (hoje)”; no pretérito perfeito, “eu vim (ontem)” e “nós viemos (ontem)”; no futuro, “eu virei (amanhã)” e “nós viremos (amanhã)”. Igualmente, por amor ao zelo, vamos já registrar, no modo subjuntivo, o tempo futuro: “quando eu vier (da China)” e “quando nós viermos (da China)”.

Resumidamente, chegamos ao seguinte quadro comparativo:

 

 

O quadro em epígrafe sinaliza conclusões curiosas. No modo indicativo, a flexão “VIMOS” do pretérito perfeito do verbo VER é a mesma do presente do verbo VIR. Portanto, devemos falar “nós vimos o filme ontem” e “vimos, pela presente, (hoje) requerer o ofício”. Observe:

 

 

Em tempo, à luz do quadro comparativo inicial, evidencia-se que não devemos confundir o modo subjuntivo. Se queremos mandar um abraço a um amigo, que poderá ser encontrado por você, diremos: “quando você o vir, mande-lhe meu abraço” (e não “quando você ‘ver’ ele...”). Por outro lado, se desejamos pedir chocolates àquele visitante que retornará da bela Gramado, afirmaremos: “quando você vier, traga-me os chocolates” (e não “quando você ‘vir’ de...”).

Feitas as observações preliminares, abrimos espaço para enfrentar o tema central de nossa discussão – o verbo PREVER.

A notícia é muito boa. Sua conjugação respeita, do começo ao fim, as flexões do verbo VER. O que se conjugar lá, repetiremos aqui. Vamos aos exemplos, propositadamente simétricos: no modo indicativo, devemos falar, no tempo presente, “eu prevejo (hoje)” e “nós prevemos (hoje)”; no pretérito perfeito, “eu previ (ontem)” e “nós previmos (ontem)”; no futuro, “eu preverei (amanhã)” e “nós preveremos (amanhã)”. Ainda, no modo subjuntivo, revela o tempo presente: “quando eu previr (o ocorrido)” e “quando nós previrmos (o ocorrido)”.

Nessa medida, teremos os seguintes resultados:

 

 

Por todo o exposto, já temos subsídios bastantes para ajudar aquele aluno, em seu dilema. Lembra-se dele? Falaremos “quando eu prever” ou “quando eu previr”? A resposta correta é “quando eu previr”, exatamente pela mesma razão por que falamos “quando eu vir (o filme)” ou “quando você o vir, mande-lhe meu abraço”.

 

Entretanto, antes de nos despedirmos, vale a pena deixar claro que a regra apresentada estende-se para os verbos derivados do primitivo VER, como REVER e ANTEVER. Nessa medida, diremos com exatidão:

 

1.    “Quando ele ‘revir’ os textos, terei condições de os ler”;

2.    “Se o relator ‘revir’ a sua posição, poderemos ter a procedência do pedido”;

3.    “Se ela ‘antevir’ o futuro, todos ganharemos muito dinheiro”.

A exceção existente – e quase sempre elas pintam por aí... – ocorre com o verbo PROVER, no sentido de “abastecer, munir-se”. Aqui o futuro do subjuntivo não seguirá a flexão do verbo primitivo VER. Teremos, pois, o seguinte resultado:

1.    “Quando ele prover a casa de alimentos, pagar-lhe-ei o que devo” (e não “Quando ele ‘provir’...);

2.    “Se ele prover os hipossuficientes, ganhará votos” (e não “Se ele ‘provir’...).

 

Diante disso, não façamos previsões erradas: dizendo “se eu previr”, “se eu revir”, “se eu antevir” e, finalmente, “quando eu prover”, não precisaremos “rever” a gramática. Já estaremos “providos” do conhecimento gramatical necessário. Em suma, vale a regra: prevendo...e provendo...

Comentários

BEM-VINDO À CARTA FORENSE | LOG IN
E-MAIL:
SENHA: OK esqueceu?

EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

Site | Facebook / Twitter

NEWSLETTER

Receba nossas novidades

© 2001-2019 - Jornal Carta Forense, São Paulo

tel: (11) 3045-8488 e-mail: contato@cartaforense.com.br