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Língua Portuguesa Português estreme de dúvidas

05/09/2018 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

Não é incomum encontrarmos nos textos jurídicos a expressão “estreme de”, escrita, assim mesmo, com -s.

 

À primeira vista, a grafia causa impacto, talvez por estarmos mais acostumados ao vocábulo “extremo”, escrito com -x.

 

Embora os termos tenham grafia semelhante, os sentidos são bem dessemelhantes. Passemos à análise diferenciadora.

 

O adjetivo “estreme”, grafado com -s, transita com maior frequência na expressão “estreme de”. Quando se diz, por exemplo, que um argumento é ESTREME DE DÚVIDAS, quer-se afirmar que o argumento é despido de dúvidas, ou seja, que ele é puro, indubitável, indiscrepante ou sem contradições. Curiosamente, a errônea expressão “extreme de dúvidas”, com -x, transita por aí, com imensa tranquilidade, como se existisse em nosso vernáculo. Há que se ter cautela!

 

Além disso, não se pode perder de vista que ESTREME pode ser uma das flexões verbais do verbo “estremar”, também grafado com -s, na primeira pessoa do presente do subjuntivo (que eu estreme). De igual modo, admite-se ESTREMO, como a flexão verbal na primeira pessoa do presente do indicativo do mesmo verbo (eu estremo). Em tempo, frise-se que o termo ESTREMO também pode se enquadrar como substantivo masculino, na acepção de “limite”. Exemplo: Foram estabelecidos os estremos do território.

 

Com relação à significação do verbo ESTREMAR, destacam-se as seguintes acepções:

 

 

1. Delimitar, balizar ou demarcar uma propriedade rural com “estremas” (marcos divisórios):

Os fazendeiros estremarão a área com cercas, a fim de conviverem pacificamente.

 

2. Separar, servindo-se de marco divisório:

A montanha estrema os dois vilarejos.

 

3. Diferençar, discriminar:

O vestibular serve para estremar os vencedores dos vencidos.

 

 

Resumindo, o vocábulo ESTREME pode ser adjetivo ou verbo, podendo servir para formar a corriqueira expressão “estreme de dúvidas”, ou, ainda, para indicar a flexão verbal (Espera-se que ele estreme o terreno com o muro a ser construído). Como se viu, ele convive com o outro vocábulo – ESTREMO –, sendo este um substantivo e, também, uma flexão verbal.

 

Por outro lado, o verbo EXTREMAR, escrito com -x, tem sentidos diversos, podendo indicar:

 

 

1. A “ideia de intensificação ou exaltação”:

A queda do ditador egípcio foi comemorada pelo povo com alegria extremada.

 

2. Na forma pronominal (extremar-se), a acepção de “assinalar-se ou distinguir-se”:

O combatente extremou-se como o mais destemido no campo de batalha.

 

 

Ademais, o termo EXTREME pode ser uma das flexões verbais do verbo “extremar”, igualmente grafado com -x, na primeira pessoa do presente do subjuntivo (que eu extreme). De modo idêntico, admite-se EXTREMO, como a flexão verbal na primeira pessoa do presente do indicativo do verbo (eu extremo).

 

Nesse rumo, também se destaca o termo EXTREMO, como adjetivo ou substantivo:

 

1. Como adjetivo: na acepção daquilo que é “o mais afastado, distante ou longínquo”. Exemplo:

Chegamos ao ponto extremo da montanha.

 

2. Como substantivo: com o sentido de “o maior grau ou auge”. Exemplo:

Este é o extremo da bondade humana.


Diante de todo o exposto, convém apreciarmos o quadro mnemônico abaixo, para uma adequada memorização:

 

GRAFIA

VOCÁBULOS

CLASSIFICAÇÃO MORFOLÓGICA

 

 

 

 

 

 

COM -S

 

ESTREMAR

 

 

- VERBO: (de)limitar

 

 

 

ESTREME

 

- VERBO: que eu estreme (pres.subj.)

 

- ADJETIVO: expressão “estreme de dúvidas

 

 

ESTREMO

 

- VERBO: eu estremo (pres.indic.)

 

- SUBSTANTIVO: limite

 

 

 

 

 

 

 

 

 

COM -X

 

EXTREMAR(-SE)

 

 

- VERBO: intensificar

 

 

EXTREME

 

 

- VERBO: que eu extreme (pres.subj.)

 

 

 

 

EXTREMO

 

- VERBO: eu extremo (pres.indic.)

 

- SUBSTANTIVO: o maior grau

 

- ADJETIVO: distante

 

 

Em bom trocadilho, terminamos dizendo: ao conseguir “estremar” estas difíceis variações, a aprendizagem do tema ficará realmente “estreme de dúvidas”.

 

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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