Página Inicial   >   Colunas

ENSAIO Por uma ciência jurídica sem notas de rodapé

Interrompi a seqüência de cartas para pensar se vale seguir escrevendo a um leitor inexistente. Melhor, falarei a verdade (raramente o faço): minha "e;terceira carta ao amigo narcotraficante"e; versava sobre uma descrição um pouco chateada do mundo em que vivo, porque eu iria cuidar da censura científica. Aliás, vou fazê-lo, no mês próximo ou no outro. Ia utilizar o texto epistolar (affe!) para dizer que na vida de cientista nem tudo são flores, também há muita política, muita aparência, e muita censura. Iria falar de obras proibidas por uma lista consuetudinária que despreza autores indexados, ainda que por semi-milagre venham a escrever algo de qualidade, ou  -  como se no verso da lista maldita - enaltece autores ainda quando publicam algo que, mesmo com fundo jurídico, não atinge qualidade superior a uma redação do ensino médio. Deveria lançar essas assertivas em um texto mais organizado, de um modo mais sutil na conversa com o amigo narco, na comparação dos submundos dele e meu com aquelas claves, mas aqui tudo se transformou em uma mera introdução. A obrigação de publicar aqui um texto regradamente mensal [Paulo, nosso editor, tem altivez para entender o que digo como mais uma nota metalingüística de nosso cotidiano, característica de meus textos, e não como um reclamo pessoal] faz com que a seleção do tema tenha idas e vindas, ao talante da conveniência, dos fluxos mentais e da coragem. Da falta de coragem. Eu só faço de vez em quando narrar esse processo, e acho que só nisso inovo. Outra reflexão minha que talvez o leitor de nada aproveite, perdoem.


O que eu queria dizer é que, quando abortei ao menos por este mês a ideia de tecer essas considerações, me ocorreu cuidar de algo diferente, mas nessa diferença notei que voltara a tangenciar o mesmo tema, como naquelas histórias de força centrípeta, de que quanto mais fugimos mais nos prendemos a um centro convergente. Porque veio parar em minha mesa uma publicação científico-jurídica, é isso que agora quero relatar, mas não é fácil, vamos ver se consigo descrever esse objeto, ou ao menos descrever o que notei dele. Era um jornal jurídico que trazia um artigo com várias palavras em negrito, com o que considerei natural começar a lê-lo pela decodificação dos negritos espargidos no papel, já que acho que é para isso que eles servem: chamar a atenção antes do início da leitura. Caso eu esteja equivocado, a alternativa é que os negritos sejam úteis para fixar na nossa mente aquelas palavras que demandaram mais tinta, o que, no caso específico, faria a hipótese ainda mais absurda. Certo então, e o que estava em negrito?, Estavam em negrito apenas nomes dos doutrinadores citados naquele texto. Destaque absoluto a eles.


Então captei o último grito da moda científica, atualizem-se: o nome dos autores em caixa alta é coisa da estação passada, o chique é o negrito. Não vou dizer se o texto era ou não bom (na verdade, nem preciso fazê-lo), mas ali tudo de golpe fez muito sentido, que minha indignação pela escrita científica superou a forma disfarçada que eu tentava assumir e se fez explícita, direta: as bitolas da ciência estão atingindo níveis insuportáveis, e agora eu dispunha da prova concreta, porque a quantidade de tinta no papel demonstrava a nítida inversão de valores - o que o texto a mim sugeria é que, se algo dele houvesse de sobrar em minha mente, que fora o nome das autoridades citadas e não alguma ideia coesa que o autor ali pudesse me passar. Nem poderia passar muito, na verdade.


Logo tive uma subida de ânimo e quis entender que aquilo que me parecia vassalagem não era de fato mais que uma humildade (nobre, portanto) de reverência às autoridades, mas desisti dessa interpretação-poliana quando me veio muito mais concreta a imagem daquele texto como a de uma página da Wikipedia: cada negrito era um hiperlink que, se o impresso em papel permitisse, me conduziria de imediato às webpages dos autores mais interessantes, mais renomados e mais originais, aqueles que de fato mereceriam meu dispêndio de tempo de leitura. Aliás, ainda nessa interpretação, até que a intenção do autor é de novo altruísta, porque queria me enviar de imediato a algo de maior qualidade.


E, como não fujo ao exercício de um constante censurado, me sinto na obrigação de ressaltar que serei o último ser humano a desprezar a metodologia científica. Na introdução [pausa para uma mensagem do patrocinador] ao meu último livro, fiz questão de enunciar que a descrição da metodologia é para mim - sempre foi - mais relevante que o próprio texto-conteúdo. Por isso não ignoro a importância da referência bibliográfica, do encaminhamento ao leitor à confirmação das fontes ou à ampliação do conhecimento, este que em qualquer dissertação, longa ou curta, é espacialmente limitado. Então não é disso que estou falando aqui, porque disso todos falam, cuido de como os recursos legítimos em sua origem se transformam tão facilmente em mera crosta, aparência, tão ao gosto dos... Enfim, já me fiz claro.


Sabes qual meu sonho? Meu sonho é compor um texto livre, sem citar a ninguém nem a mim mesmo, sem usar as receitas de bolo que dão começo, meio, fim e muito tédio aos escritos científicos, sem assumir o tom professoral de quem dá aulinhas, mas a sinceridade de quem reflete, revelando que naquelas linhas o único real é a dúvida imensa, a vontade de deixar passarem cem anos antes de dar por publicável qualquer parágrafo. Para isso a estratégia seria conseguir fazer no meio do discurso uma quebra de foco, desviar o centro gravitacional da narrativa-dissertação sem a autorização do leitor, apenas para mostrar empiricamente que é possível romper expectativas estruturais sem perder a coerência, porque ela é muito mais do que isso. Seria mais original e mais útil que muitas teses doutorais ou artigos que infestam nossa bibliografia, mas me falta capacidade e coragem. E, porque ainda não sou homem para essa empreitada, me contento redigindo sugestões toscas para uma obra de toda a vida, que consistiria muito mais em deixar decantar o que escrevo para ver se tem essência, e que muito provavelmente, óbvio, jamais farei publicar. Acho que disse isso já alguma vez.

 


Comentários

BEM-VINDO À CARTA FORENSE | LOG IN
E-MAIL:
SENHA: OK esqueceu?

VÍCTOR GABRIEL RODRÍGUEZ

Víctor Gabriel Rodríguez

Professor Livre-Docente de Direito Penal da Universidade de São Paulo - FDRP; Membro do PROLAM/USP; Autor de “Delação Premiada: Limites Éticos ao Estado”, e do “Caso do Matemático Homicida”, entre outros.

NEWSLETTER

Receba nossas novidades

© 2001-2019 - Jornal Carta Forense, São Paulo

tel: (11) 3045-8488 e-mail: contato@cartaforense.com.br