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FILOSOFIA Pluto - Aristófanes - A quem a Riqueza acompanha?

02/08/2010 por Luciene Félix

"É ilusão achar que enriquecer torne os homens melhores;

A virtude não está relacionada à riqueza ou pobreza".

 

O comediógrafo grego Aristófanes, em sua obra "Pluto - A Riqueza" (388 a.C.), ilustra como os espertos se apropriam da riqueza.

Cego, Pluto, o deus velho e maltrapilho, foi privado de poder escolher a quem distribuir a Riqueza: "Foi Zeus que me fez isso, por má vontade aos homens. Quando eu era rapaz, ameacei que só me dirigiria aos justos e sábios e honestos. E ele fez-me cego, para que não distinguisse nenhum deles. É assim que ele inveja os bons".

Na peça, o impagável escravo Carião acompanha seu senhor, Crêmilo, um modesto agricultor que, preocupado com o futuro de seu único filho, decide consultar o Oráculo de Apolo, a fim de saber se, para obter êxito na vida, convém que o rapaz permaneça bom e justo ou deve moldar-lhe o caráter para canalha e injusto.

O oráculo ordena que Crêmilo siga o primeiro transeunte que encontrar à saída do Templo e que o persuada a ir até sua casa. Ele então se empenha para que um velho e cego mendigo (Pluto!) os acompanhe.

Carião interpreta o oráculo por sua conta, assevera que Crêmilo deve educar o filho na maneira tradicional: "Porque até a um cego parece evidente o quanto importa nada fazer de útil nos tempos que correm".

O camponês aborda o mendigo e indaga quem ele é: "Eu sou Pluto". Carião não se contém: "Tu, Pluto, com essa aparência desgraçada!". Após ouvir o porquê do deus da Riqueza viver assim, Crêmilo diz que Zeus só é honrado justamente pelos bons e justos, ao que Pluto concorda.

Ele pergunta então se, caso voltasse a enxergar, o deus da Riqueza fugiria dos maus e procuraria os justos, ao que ele promete que sim, sem dúvida, pois há muito tempo não os vê. Crêmilo diz que ele próprio, mesmo enxergando muito bem, também não avista nenhum.

Tanto Crêmilo quanto seu fiel escravo Carião insistem não haver melhor caráter que eles: "Isso é o que todos dizem. Mas quando, verdadeiramente, me apanham e se tornam ricos, simplesmente ninguém os excede em patifaria", diz Pluto.

Prometem levá-lo ao templo de Asclépio (deus da Medicina), mas Pluto, temente a Zeus (tenho um medo dele que me pelo), receia voltar a ver.

Decidido a fazê-lo rever seus conceitos, Crêmilo diz: "Ó, a mais covarde de todas as divindades! (...) Fique calmo. Eu provar-te-ei que tens muito mais poder do que Zeus".

Dialéticos, numa sintonia hilariante, Crêmilo começa inquirindo: "Por que é que Zeus reina sobre os deuses?". E Carião: "Pelo dinheiro, porque tem muitíssimo". Crêmilo: "Aí está! E quem é que lho dá?". Carião, encostando-se a Pluto: "Este aqui".

Pluto fica mudo e eles prosseguem dizendo que os sacrifícios feitos em honra a Zeus buscam as graças de Pluto: "Rezam para enriquecerem sem demora. Não é este sujeito então a causa (..)?"

Crêmilo explica que é por Pluto que agradam ao soberano do Olimpo: "tu sozinho destruirás a força de Zeus (...) se há alguma coisa de brilhante, belo e agradável aos homens, é graças a ti que acontece. Tudo está submetido à riqueza".

Carião reitera que ele, por exemplo, é escravo por causa de meia dúzia de patacas: "eu que antes era livre". E Crêmilo prossegue: "E dizem que as prostitutas de Corinto quando um pobre, por acaso, as tenta, nem sequer lhe prestam atenção. Mas se é rico, logo lhe oferecem o ..".

Carião auxilia Crêmilo dizendo que os rapazes, por amor ao dinheiro, fazem o mesmo: "Não os honestos, mas os venais". Ironicamente, esclarecem que os honestos pedem cavalos, belos mantos: "Talvez, envergonhados de pedir dinheiro, cobrem de uma crosta de palavras bonitas a sua desvergonha".

Empenhadíssimos, Crêmilo e Carião se intercalam: "Graças a ti foram descobertas, entre os homens, todas as artes e manhas" e listam ocupações. Pluto está estarrecido: "Infeliz de mim! Quanto tempo isso me escapou!".

Carião e Crêmilo se entusiasmam ao perfilar que o dinheiro é a mola propulsora de tudo e de todos: "E o Grande Rei [chefes de Estado], por quem se dá ares, senão por ti? E a Assembléia [política], não é por causa dele que reúne? E então? E não és tu que dás de comer em Corinto ao exército mercenário? (...) E as alianças [com ditadores] não são graças a ti? Não é por ti que Laís [a mais bela prostituta de Corinto] é amante de Filônides [desajeitado, mas muito rico]?

Concluindo, Crêmilo aponta: "E os negócios não se resolvem todos, graças a ti? Tu és de tudo o agente exclusivíssimo, quer do bem, quer do mal, fica-o sabendo". Dizendo que até a guerra, não vencem os justos, os que têm razão, mas àqueles sobre quem Pluto pousa.

O deus fica espantado: "Sozinho, sou capaz de fazer tanta coisa?"

Crêmilo: "muito mais do que isso, de tal modo que jamais alguém está cheio de ti. De todo o resto nos saciamos (...). Mas de ti nunca ninguém ficou cheio. Se alguém recebe treze talentos, muito mais deseja receber dezesseis. E quando os alcança, quer quarenta ou diz que a vida não merece ser vivida."

Pluto fica convencido: "Só receio uma coisa... Como dessa força que vocês dizem que tenho, virei eu a tornar-me senhor".

Crêmilo diz que a Riqueza é covarde; Pluto revida: "Isso foi um arrombador qualquer que me caluniou. Uma vez, conseguindo entrar em casa (...), encontrou tudo fechado. E então chamou a minha previdência... covardia".

O agricultor assegura que Pluto voltará a enxergar e pede que Carião vá chamar outros camponeses para que participem da parte de Pluto. E, virando-se para o deus da Riqueza diz: "E tu, Pluto, a mais poderosa de todas as divindades, entre aqui para dentro comigo! Esta é a casa que tu precisas encher de riquezas hoje, com justiça ou sem ela".

O deus Pluto confessa que se aborrece profundamente: "Se entro, por acaso, em casa de um homem econômico, imediatamente me esconde embaixo da terra. E se algum amigo honesto vem pedindo-lhe um dinheirinho, nega jamais ter-me visto. Mas se, por acaso, entro em casa de um maluco, dado a putas e a ao jogo, saio pela porta afora nu, num instante".

Crêmilo o tranqüiliza dizendo que isso ocorre porque ele nunca encontrou um homem equilibrado como ele. Apressado, convida-o a conhecer sua mulher e seu filho: "(...) que é quem mais amo, depois de ti". "Bem o creio", diz Pluto. E Crêmilo: "Por que é que se não há de dizer-te a verdade?"

Aristófanes revela que o deus da Riqueza, não agracia, necessariamente, honestidade e Justiça. Manipulado por quem o venera, sucumbe à ardilosidade dos astutos.

Comentários

  • Mauro Bavaresco
    10/07/2014 15:31:47

    Muito interessante e oportuno o texto. Parabéns.

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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