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FILOSOFIA Pluto - A Riqueza - Parte II

02/09/2010 por Luciene Félix

Testemunharemos a expulsão da Pobreza, a aflição de uma velha abandonada pelo amante e o zombeteiro Hermes, buscando "emprego", agora que o Olimpo faliu.

 

Ao saber que o deus da Riqueza era cego, Blepsidemo conclui: "Ora aí está, porque nunca foi a minha casa". Constatando banimento, chega a Pobreza: "Oh, empresa temerária, sacrílega e ilegal, o que os desgraçados, tentam fazer!".

 

Altiva, indaga a Pobreza: "sabes quem eu sou?". E prossegue: "A Pobreza é que eu sou, a pobreza que vive convosco, há muitos anos".

 

Blepsidemo avisa que fugirá: "É a Pobreza, oh velhaco, o animal mais daninho que jamais existiu. Qual é a couraça, qual é o escudo que esta enorme patifa não faz pôr... no prego?"

 

Pobreza protesta: "E vós ainda ousais, parelha de imbecis, grunhir, apesar de apanhados em flagrante? Estais convencidos de que não me prejudicais nada?". Mas o camponês está certo de que fez o bem, expulsando-a da Grécia.

 

Ela argumenta que isso é o maior mal que se poderá fazer aos homens e, imbuída de dar-lhes suas razões diz que provará ser a causa de todos os bens e que é graças a ela que vivemos.

 

Crêmilo afirma que Pluto se dirigirá aos bons; fugirá dos maus e ateus e que não há nada melhor para os homens. Pobreza diz que isso não seria útil "Ninguém mais se preocuparia com a arte ou com a sabedoria. Quem quererá trabalhar se vos for possível viver na ociosidade sem vos preocupardes?"

 

Os criados que agüentem, diz Crêmilo. Pobreza quer saber onde Crêmilo os arranjará e ele diz que comprando. Pergunta quem os venderá, se todos têm dinheiro. E ele: "insaciáveis ladrões de escravos". Pobreza esclarece que, sendo rico, ninguém arriscará a traficar e que, desse modo a vida será mais dura.

 

Não haverá quem produza luxos: "de que vale ser rico, estando privado de tudo isso? Comigo, todavia, está à vossa disposição tudo aquilo de que precisais, porque eu fico aqui, como uma patroa que força o trabalhador manual, por meio da necessidade e da pobreza, a procurar meios de vida".

 

Crêmilo lista os infortúnios da Pobreza que, injuriada contesta: "Essa é a vida dos mendigos". E Crêmilo: "Então não é verdade que se diz que a pobreza é irmã da mendicidade?"

 

Ela assegura que sua vida não passa por tais carências, nem há de passar: "a vida do pobre é a de quem poupa e se aplica ao trabalho, a quem nada sobra, decerto que não, mas também nada falta". Crêmilo diz que não sobra nem para o enterro.

 

Convicta de seus predicados até no aspecto físico, salienta que os ricos são gordos: "Ao passo que os meus são magros". Crêmilo retruca: "É talvez com a fome". Pobreza afirma que a moderação mora com ela, que Pluto é a própria insolência. Crêmilo cita os ladrões: furtar e arrombar as casas é o cúmulo da moderação.

 

Imbuída de provar o quanto a riqueza corrompe, Pobreza diz que basta observar os políticos, que enquanto pobres, são justos com o povo, mas basta enriquecerem com o dinheiro público para, imediatamente, se tornarem injustos e conspirarem contra a plebe.

 

Crêmilo reconhece que nisso, tem toda razão, mas roga que não tente se enfeitar, persuadindo-os que é melhor que a riqueza. Senão, diz ele, "como é que todos fogem de ti?". Pobreza exclama que os faz melhores. "Pode ver-se muito bem o que acontece com as crianças. Fogem dos pais, porque estes só querem o bem delas. Conhecer o que é justo é coisa difícil".

 

Irredutível, Crêmilo expulsa a Pobreza, que se vai, ameaçando de que ele ainda haverá de chamá-la. Aliviado, Blepsidemo diz: "Eu quero enriquecer e viver regaladamente com filhos e mulher e, depois de tomar banho, sair reluzente a dar peidos".

 

Eis que entra um denunciante (Sicofanta): "Infeliz de mim, como estou perdido! Submerso num destino cheio de infelicidades". Ele afirma ter perdido tudo por causa desse deus que há de voltar a ser cego, se a justiça não o abandonar.  Crêmilo inquiri: "Por ventura, era tu dos patifes e dos arrombadores?".

 

O denunciante protesta a insolência. Um Justo pergunta se é lavrador e ele diz que não é assim tão maluco. Negociante, então? "Sim, finjo sê-lo, quando convém". O Justo prossegue: "Se não aprendeste um ofício, como ganhavas a vida, se nada fazias?"

 

O denunciante se diz curador dos negócios da cidade e de todos os negócios particulares. O Justo fica indignado. E ele: "Não me diz respeito prestar serviços à minha cidade, pateta, na medida das minhas forças?". Diante do desdém, o denunciante insiste: "É socorrer as leis existentes e não deixar passar, se alguém prevarica". E o Justo: "Então a cidade não estabelece expressamente que os juízes superintendam nessa matéria?".

 

Altivo, o denunciante pergunta: "E quem é o acusador?", ao que o Justo responde: "Quem quiser".  Ele afirma que esse tal é ele, que nele vêm a dar os negócios da cidade. Carião diz que o denunciante, que agora foge, não merece o que come.

 

Entra uma coroa desolada, perguntando por Pluto: "Acabo de sofrer ofensas terríveis e contra a lei". Crêmilo fica curioso e ela prossegue: "Eu tinha um mocinho por amigo, pobrezinho, mas bem apessoado. Ele tudo fazia ao meu serviço com delicadeza. E eu, pela minha parte, servia-o em todos os seus desejos".

 

Confessa que o rapaz não pedia muito porque tinha nela um acanhamento excepcional. Crêmilo a assegura que: "É de fato um homem com um amor muito excepcional". Agora rico, o desavergonhado lhe escreveu que "outrora eram poderosos os milésios" e sumiu. Crêmilo não se contém: "Dantes, levado pela pobreza, comia de tudo".

 

Inconformada, diz que o rapaz vinha todos os dias: "E dizia que eu tinha as mãos lindíssimas...". "Principalmente, quando exibiam as vinte dracmas", ironizava Crêmilo. Ingênua, continua nostálgica: "... que a minha pele cheirava bem, que meu olhar era terno e belo...!".

 

Crêmilo conclui que o sujeito, "sabia comer os recursos de uma velha no cio". Ela insiste que é injusto que não receba recompensa nenhuma. Crêmilo pergunta se, por acaso o rapaz não retribuía a cada noite. Ela diz que sim, mas que havia prometido jamais abandoná-la enquanto fosse viva... "E agora crê que tu já não vives".

 

Eis que, passa o rapazinho e a cumprimenta cerimoniosamente: "As minhas saudações! vetusta amiga". Isso a mortifica: "Infeliz de mim, pela insolência com que sou tratada". Crêmilo diz parecer que há muito tempo não a vê. "Qual muito tempo, ó infeliz! Ele esteve em minha casa, ontem!".

 

O jovenzinho troça, perguntando se a velha quer brincar um pouco. Quando ela se anima, ele diz: "Quantos dentes tens". Crêmilo arrisca: "talvez uns três ou quatro". E o jovem: "Paga! Só é portadora de um molar". Empolgados, fazem pilhérias.

 

Chega Hermes, avisando que Zeus está furioso porque ninguém sacrifica coisa alguma aos deuses. Carião afirma que os deuses mal se preocupavam com o povo. Aflito, diz Hermes: "Com os outros deuses pouco me ralo, eu é que estou perdido e destruído (...).

 

Hermes implora: "Não guardes ressentimento. Mas recebei-me, pelos deuses". Carião se espanta: "O quê? Achas correta a tua deserção?" Ao que ele responde: "Pátria é toda a terra onde alguém é feliz".

 

Enumera seus talentos o deixam entrar: "Como é bom ter muitas invocações! Não é sem razão que todos os juízes se apressam a fazer-se inscrever em muitas letras".

 

Chega o Sacerdote de Zeus, morto de fome, pois no templo só entram para fazer as necessidades: "Portanto, também eu creio que vou mandar passear Zeus Salvador e ficar aqui mesmo".

 

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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