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ENSAIO Pela liberação irrestrita das drogas. Primeiro diálogo

 

            Eu havia feito uma palestra sobre liberação das drogas. Sou mesmo favorável a que todas elas deixem de ser criminalizadas. A sujeita não assistiu à minha fala, mas me chamou para uma conversa, Meu escritório fica aqui na Avenida, e logo pensei que aquela senhora ao telefone era muito da folgada, que viesse ela até mim.  Mas fui lá, por humilde ou por curioso.

            _ Belas acomodações _ eu disse ao sentar-me à sua frente _ Não imaginava que se tratasse de uma empresa de propaganda. Achei que seria, não sei, uma Ong.

            _ Sou uma publicitária com uma história de vida interessante. Tomas um café ou um vinho do Porto?

            _ Não bebo faz um mês, respondi. Se puder evitar a tentação.

            Ela tomou mesmo um pequeno cálice de vinho e eu um café, ambos trazidos por um copeiro de fraque. O que me fazia querer saber mais sobre minha anfitriã.

            _ Bom o café [menti]. Publicidade, hein?

            _ Na verdade meu sonho, de jovem, era criar comerciais, aquelas campanhas milionárias. Me cortaram oportunidades. Por eu ser mulher, sempre roubavam minhas idéias, e eu então figurava como simples assistente. Anos e anos vendo meus roteiros na televisão, alguns deles rendendo troféus. Aos meus chefes.

            Sempre fracasso quando tento ser simpático, Imagino que não deve ter sido agradável!, porque ela retrucou, seca:

            _ Não, Víctor, você não imagina. Não tem idéia de o que é isso. E me permita chama-lo de você, porque és bem mais novo.

            _ Vamos adiante.

            _ Então eu saí da criação e montei uma agência para captar contas e inovar no marketing, busca de novos mercados. Hoje tenho expertise nisso e sou a maior do ramo. Tudo isto aqui não é herança do pai nem dinheiro do meu marido, entende? Bom, ainda me acho criativa, mas perdi o timing. Passou. [olhou pra um troféu que estava em uma estante, mas não consegui enxergar de que se tratava] Meu filho seguiu esse meu primeiro alento, virou ator. Batalha dura, também. Mudou-se para o Rio de Janeiro.

            _ Adoro o Rio.

            _ Nosso assunto: como te disse, vi o título de uma palestra tua que me interessou: “Argumentos conservadores para a descriminalização das drogas”. Dei uma busca nos teus textos pela internet e fiquei confusa. Você escreve meio cifrado, e com temas difíceis: Defesa da Monarquia Brasileira, do muro do Trump... Não sei quando falas sério.

            “Então...”, e bebi café bem vagarosamente pra pensar no que ia responder, ela tinha sido direta demais. Nunca aceito ser questionado sobre a seriedade do que escrevo, e sinceramente não dou a mínima para enquetes de opinião. “Veja... Eu sempre sou verdadeiro no que escrevo. Diferente de ser panfletário, compreende?”

            _ Não, ela disse quase resmungando. Mas estou disposta a ouvir.

            _ Em geral, os quem dizem lutar pela liberdade de opinião são, sob minha ótica, os mais autoritários. Não aceitam discordância, ironizam a opinião alheia, amam bajulações. Eu quero promover argumentos, não roubar para mim a mente dos meus leitores. Ficou claro?

            _ Quase. Em teus textos falta objetividade, mas não é pra isso que te chamei. Preciso saber: Você realmente é a favor da liberação total das drogas? Não bolou (sem duplo sentido) esse título só pra chamar a atenção, depois frustrar teu público, ne? Em publicidade, isso seria fatal.

            Me ofendi mais um pouquinho:

            _ Escute, senhora, eu creio em muitas coisas: em Deus, em vocações, em Códigos de Honra, em sociedades secretas que controlam nossa agenda, mas escrever acerca disso, sem provas, não faz meu estilo. Até porque posso mudar de opinião. Então, insiro em figuratividades. Às vezes, quando tenho muita certeza, concluo algo. Por exemplo, sobre sistemas de governo, estou convicto de que nosso futuro é...

            _ Fale-me sobre as drogas _ e olhou os ponteiros de seu lindo Cartier prateado.

            _ Quero por fim totalmente à proibição. Só isso, nada de outro mundo. Estudo os argumentos para um livro. Uma trilogia sobre moralidade no Estado.

            O copeiro entrou pela sala, sem bater à porta, com outro café para mim e mais um cálice de vinho doce. Tenho certeza de que ela não o havia chamado, mas a pausa foi providencial à minha interlocutora. Olhava o cálice como se fosse o Santo Graal, para me dizer:

            _ Eu briguei com meu único filho, o ator, quando ele tinha doze anos. Justo eu, a publicitária, não aceitei suas opções sexuais inovadoras. Ele saiu de casa recém emancipado, rumo ao Rio, e daí foram anos sem falar comigo. Sem um sinal de vida.

            _ Triste.

            _ Fui encontrá-lo três anos depois, algemado a um leito do Miguel Couto, já paralítico. Fora comprar drogas no morro, quando houve uma da polícia invasão e ele tomou um tiro. Fuzil. Sobreviveu, mas sem os movimentos das pernas.

            _ Mais triste.

            _ Custou uma nota pra mudar o B.O. e retirar dele a acusação de tráfico, pra trazê-lo pra um hospital aqui em São Paulo. Ele continua cadeirante, e sabe o que me disse?

            _ Não.

            _ Que agradece pelo disparo que recebeu, porque me fez aparecer de volta na vida dele.

            _ Triste também. Quer dizer, não sei. Bonito?

            Eu não tinha muito mais o que dizer, mas ela sim:

            _ Então tenho motivos para patrocinar um movimento para acabar com essa maluca guerra às drogas. Você tem um perfil pra começar isso, distante daqueles nóias que fazem Marcha da Maconha só pra poder fumar em (maior) paz. Quero investir dinheiro alto nessa campanha.

            Tomei a liberdade de levantar-me. Muito café:

            “Essas tuas idéias, senhora, eu já tive, sem te roubar trouféus. Tenho um pensamento sistemático, isso é o que minhas doze horas de leitura diárias me concedem. Fiz um vídeo já sobre descriminalização, estou redigindo um texto, mas pra isso precisa paciência, gestação. Devo zelar por meu nome, minha carreira, e tenho muitos pretensos amigos esperando um tropeço meu pra me retirar meu único patrimônio, a credibilidade. E olhe lá”.

            _ Ah, é?

             “Minha cautela é imprescindível, pra que eu não seja também um aríete na mão  das sociedades secretas. Vou a meu tempo e conseguirei a descriminalização, para a auto-afirmação da América Latina. Porém racional e cautelosamente, evitando apodrecer as estruturas. Pra não ser como aqueles que roubam bilhões em nome de um pretenso bem comum, como se houvesse bem maior que aquele que a corrupção destrói”.

            _ Entendo, ela resmungou, terminado o vinho.

            Agora, sim, eu tinha o que dizer:

            _ Não, não entende. Desta vez, sinto, é a senhora quem não entende. Se entendesse, eu digo, o vosso filho, por quem nutro o maior respeito, estaria preso em Bangu, como decerto seus comparsas que não dispuseram de uma mãe rica pra negociar com a polícia.

            Ela se assustou, com um, Espere, Víctor!, que eu tive amainar:

            “Tranquila, eu não estou gravando nosso diálogo. Não é porque discordamos que eu vou te trair. Como te disse, sou viciado em Códigos de Honra, não (Graças a Deus) em crack ou notas de cem. Vamos descriminalizar as drogas, mas deixa a tempestade passar. Te ligo depois. Saudações corinthianas”.

            Mas eu gostei bastante dela, sim. Já disse, adoro mentes inquietas.

***

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VÍCTOR GABRIEL RODRÍGUEZ

Víctor Gabriel Rodríguez

Professor Doutor de Direito Penal da Universidade de São Paulo - FDRP; Membro da União Brasileira de Escritores, autor de Fundamentos do Direito Penal Brasileiro, pela Editora Atlas, e do livro Caso do Matemático Homicida, pela Editora Almedina. E-mail: victorgabrielr@hotmail.com

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