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LÍNGUA PORTUGUESA Os "supersalários": como se escreve o vocábulo?

03/10/2011 por Eduardo de Moraes Sabbag

De vez em quando, a notícia se espalha: "pagam-se supersalários aqui"; "recebem-se supersalários acolá". A palavra, associada àqueles que ocupam os altos escalões do governo, indica privilégios de alguns poucos por aí... E sempre se questiona: quem será que paga a conta?

A resposta dispensa comentários. Pelo menos, para nós, a quem cabe o trabalho - mais prazeroso, diga-se de passo - de verificar um problema de amplitude menor, mas igualmente impactante: a questão da ortografia da palavra. Escreve-se o vocábulo com hífen ou sem? Usam-se dois "esses" (-ss) ou apenas um? O Acordo Ortográfico alterou, por acaso, a escrita da palavra?

Em primeiro lugar, é importante mencionar que o Acordo Ortográfico não alterou a formação de palavras com o prefixo super-. A regra permanece inalterada: haverá o hífen se a palavra posterior iniciar-se por -h ou -r. Na mesma esteira, seguirão os prefixos hiper- e inter-. Por essa velha razão, escrevem-se:

1. Com hífen: super-habilidade, super-homem, super-requintado, super-resistente; hiper-hidratação, hiper-reativo, hiper-requintado; inter-racial, inter-regional, inter-resistente, inter-relacionado.

2. Sem hífen: superaquecido, superdosagem, superfaturado, superlotado, supermercado; hiperativo, hipertensão, hipertrofia; interativo, intercâmbio, intercessão, intermunicipal, internacional.

Entretanto, uma dúvida se impõe: por qual motivo se escreve "supersalário", com um -s (e sem hífen), se devemos escrever, à luz do Acordo Ortográfico, "suprassumo", com dois "esses" (e também sem hífen)?

A resposta não é complicada. A regra que leva à hifenização das palavras formadas pelo prefixo supra- não se confunde com aquela revelada acima para o prefixo super-. Todas as palavras formadas com o prefixo supra- receberão o hífen se o elemento posterior iniciar-se por -h ou idêntica vogal. É o que dispõe o Acordo Ortográfico. Exemplos: supra-histórico e supra-atmosférico. Daí a necessidade de se escrever suprassumo sem o hífen.

Agora, quanto à duplicação da consoante -s, o problema é outro: o novo Acordo impõe que se dobre a letra quando o segundo elemento iniciar por -r ou -s, o que ocorre no presente caso (sumo inicia-se por -s). Daí escrevermos, com correção: suprassenso, suprassolar, suprassegmental (e, da mesma forma: suprarrenal, suprarrealismo, suprarregional).

É relevante mencionar que a regra empregada ao prefixo supra-, acima detalhada, também o será a vários outros prefixos. As palavras em seguida, conquanto esteticamente estranhas, podem bem ilustrar:

 

1. Proto: protossolar e protorrevolução;

2. Extra: extrassecular e extrarregular;

3. Pseudo: pseudossábio e pseudorreação;

4. Semi: semisselvagem e semirrígido;

5. Infra: infrassom e infrarrenal;

6. Intra: intrassubjetivo e intrarracial;

7. Neo: neossimbolismo e neorrealismo;

8. Ultra: ultrassonografia e ultrarromântico;

9. Contra: contrassenso e contrarregra;

10. Auto: autossuficiente e autorretrato;

11. Ante: antessala e anterrosto;

12. Anti: antissocial e antirrábico;

13. Arqui: arquissacerdote e arquirrival;

14. Sobre: sobressaia e sobrerroda.

 

Uma vez esclarecida a diferença, vale a pena observarmos outras palavras grafadas com o prefixo super-, cujo segundo elemento se inicia pela consoante -s:

Se grafamos supersalário, iremos grafar: supersábio, supersafra, supersalgado, supersecreto, supersensibilidade, supersensível, supersimples, supersólido, superstição.

Dessa forma, fica claro que grafaremos "supersalário", sem duplicar o -s e sem colocar um hífen indesejado.

Com relação à pergunta que intitula o presente artigo ("Os supersalários: como se escreve o vocábulo?"), podemos responder de modo "supersimples": o vocábulo se escreve com -v (de vigilância...).

Observação: todas as palavras citadas no artigo foram confrontadas com o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), em sua 5ª edição (2009), já atualizada com o Acordo Ortográfico.

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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