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FILOSOFIA Os Sete Enforcados: paradoxo das finalidades e dos efeitos das penas

05/03/2014 por Luciene Félix

Na obra do francês Victor Hugo, “O último dia de um condenado” (1829), vivenciamos as angústias de um condenado à morte (edição de novembro/2012).

 

Agora, trazemos “Os sete enforcados”, a mais impressionante novela do jurista e escritor russo Leonid Andreiev (1871-1919), que explicita sete psiques de sete pessoas sentenciadas ao enforcamento.

 

As coisas nos acontecem, mas também “acontecemos” às coisas, portanto, é digno de nota que, mesmo tendo recebido a mesmíssima pena capital, cada um dos personagens encarará a iminência do fim de suas existências de modo distinto, o que nos permite refletir de outro modo quais podem ser as finalidades ou quais podem ser os efeitos de uma pena.

 

São cinco homens e duas mulheres. Dois desses homens recebem a pena de morte por terem praticado homicídio; já os demais pelo planejamento de, num ato terrorista, matar um Ministro.

 

O rude camponês Ivan Ianson e o não menos tosco, Michail Golubetz, o Michka, também conhecido como “O cigano”, ambos condenados por assassinato, distinguem-se dos terroristas.

 

Alcoólatra, Ivan Ianson, que matou o patrão e tentou estuprar a patroa, parece não ter a menor noção do alcance de seus crimes, tampouco da pena. Simplório de tudo, o que faz é mover-se com a lentidão de uma lesma e repetir, cabisbaixo, o tempo todo: “Não deveis enforcar-me.”. Alheio, ele simplesmente se recusa a acreditar no inevitável: que será enforcado!

 

Já Michka, o cigano, que até se orgulhava de seus crimes: “saque a mão armada, seguido do assassínio de três pessoas”, considera sua sentença justa, justíssima. Com inescrupulosa altivez, proclamava; “Nós, os de Orel, somos todos de ‘cabeça quente’... Somos os pais de todos os ladrões do mundo! Isso nem se discute!”.

 

Devido ao seu instinto maternal nato, durante toda vida, a jovem Tânia Kovaltchuk só pensava e fazia tudo pelos outros. A comoção pelo sofrimento dos companheiros eclipsava a consciência de seu terrível destino. Esse genuíno altruísmo fazia-a esquecer-se de que também fora condenada, de que, em breve, também deixaria de existir.

 

Sofria ao lembrar que um dos comparsas estava sem tabaco e, que o outro, talvez não conseguisse o chá forte de que tanto gostava: “(...) a ideia de que um homem não pudesse fumar, na vigília da sua morte, era para ela insuportavelmente penosa”. Sua preocupação era dar alento aos colegas, pensava neles, o tempo todo: “Como seria acolhido, nas outras celas, aquele obstinado e doloroso apelo da morte?”, indagava.

 

Já a outra moça do grupo, Mússia, sentia-se feliz: “(...) procurava emocionada justificar diante de si mesma como exatamente a ela, tão moça ainda, tão humilde, que fizera tão pouco, fora designada a morte mais bela, a que podia ser considerada como um privilégio dos mártires”. Questionava o merecimento dessa “distinção”, que cegamente tomou para si. Sua fé nessa perspectiva era tão, mas tão enraizada, que “(...) o seu único desejo é o de explicar, de provar que não é uma heroína, que morrer não é uma coisa terrível, que não deve ser lamentada, que ninguém se deve afligir por ela.”. Eis aqui, mais um vislumbre do quão forte é o que cremos, seja lá no que for.

 

Absorta em sua confusão, pergunta: “É possível, é possível que eu mereça que me lamentem? E um júbilo indizível invade-lhe a alma. Já não há dúvida! Eleita! Eleita entre todos! Tem direito a figurar entre os heróis que, de todos os países, de século em século, voam para as alturas do céu através das chamas, das execuções capitais. Que serena paz! Que infinita felicidade! Tem a impressão de livrar-se, imaterial numa luz divina.”.

 

Mússia experimentava essa sensação única e filosofava: “Como não existe imortalidade, quando ela [Mússia] já era imortal? De que outra imortalidade, de que outra morte se poderia falar, quando ela já está morta e igualmente imortal, viva dentro da morte, como se fosse viva dentro da vida?”.

 

Estava tão convicta que, em seus devaneios afirmava: “Podem-me enforcar, mas não morrerei. Como posso morrer, quando já sou imortal?”. Por fim, dormia tranquila, diz o narrador, sorrindo em sua imortalidade.

 

O também condenado à forca, Sérgio Golovin, fora dotado de serenidade na alegria de viver, “em virtude da qual todos os pensamentos maus ou funestos para a vida desaparecem com rapidez e deixam incólume o organismo.”. Seu apetite manteve-se voraz e ingeria, além da sua parte, também a dos companheiros, já avessos aos alimentos.

 

Entristecendo-se pelo plano ter sido mal combinado, disse consigo mesmo: “Agora há uma coisa que é preciso fazer bem, é morrer.”. E recobrou a alegria. Sim, a alegria, pois era assim que se dedicava diariamente à ginástica, para manter o corpo forte e robusto.

 

Com o tempo, caiu em si e ponderou: “Para que o corpo morra mais facilmente é preciso debilitá-lo e não fortalecê-lo.”. Questionando-se se temia mesmo a morte, concluiu: “O que sinto é perder a vida. É uma coisa admirável, digam o que quiserem todos os pessimistas.”.

 

E Sérgio Golovin padecia: “A morte ainda não estava ali e a vida já parecia ausente (...) sofria, não por ver a morte, mas por ver a vida e a morte ao mesmo tempo.”. Repetia para si que era preciso conformar-se. E ponto.

 

Apavorado, Vassili Kaschirin “(...) terminava a sua vida na angústia e no terror.”. Quando o medo tornou-se insuportável, tentou rezar; mas, sentindo amargo rancor pelos preceitos religiosos alimentados na casa do pai, não tinha fé.

 

Em sua infância, certa vez, ouvira três palavras que o impressionaram, que guardou e às quais se fiou o tempo todo: “Consolo dos aflitos!”. Murmurava essas três palavras e sentia-se imediatamente aliviado. Temendo cada vez mais, o mistério insondável da morte que se aproximava, repetia em tom suplicante: “Consolo de todos os aflitos, desce até mim, sustém-me.”. Aos poucos, a loucura se infiltrava.

 

Werner falava alemão, francês e inglês, vestia-se bem e tinha excelentes maneiras: “De todos os terroristas, era o único que podia aparecer em sociedade sem risco de se denunciar.”. Diz-se que também tinha uma qualidade muito rara: ignorava o medo. “Não conhecia o terror, como há quem nunca tenha conhecido uma dor de cabeça.”

 

Decidiu receber a morte com calma, viver até o fim como se nada tivesse acontecido ou fosse acontecer: “Só assim poderia demonstrar o seu profundo desprezo pelo suplício e conservar a sua liberdade de espírito.”.

 

Surpreendeu a todos, no entanto, dizendo que os amava: “Sim, agora amo! Não é preciso dizer a ninguém, que eu tenho vergonha, mas amo apaixonadamente meus irmãos!”.

 

Aos pares, foram enforcados. E, depois, “O sol surgiu lá em cima, sobre o mar.”.

 

Após os carrascos deitarem os cadáveres nos caixões, todos “(...) voltaram pelo mesmo caminho que pouco antes tinham trilhado com vida.”.

A pena e a morte são o que são. Enquanto que nós, somos isso, aquilo... Tudo. E nada.

Tags: Filosofia

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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