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CRÔNICAS FORENSES Os guarda-chuvas

03/09/2010 por Roberto Delmanto

Ouvi esta estória de meu sogro Elias Machado de Almeida, que foi um renomado engenheiro civil, deputado estadual constituinte e, acima de tudo, um grande idealista, tendo, durante a Revolução de 32, integrado a segunda diretoria do MMDC.

Ela é do tempo em que os bondes eram o principal meio de transporte em São Paulo. Não poluentes e limpos, percorriam as principais vias da cidade, sendo usados por toda a população, independentemente da classe social, mesmo porque, na época, poucas famílias possuíam automóveis, todos importados. Até os desembargadores se utilizavam do bonde, já que, então, não existiam carros oficiais no Judiciário.

Um deles, dos mais eminentes, cultos e íntegros, sempre que ia para o Tribunal e depois voltava para casa, o fazia de bonde. Certo dia, ao sair de sua residência, levava como de costume seu guarda-chuva, pois, São Paulo, naquele tempo, era conhecida como "a terra da garoa". Pegou o bonde, sentou-se e colocou o guarda-chuva do seu lado.

Antes de descer, próximo do Tribunal, apanhou-o de volta. Ia descendo do bonde quando um cidadão, que estava sentado no mesmo banco, lhe disse que o guarda-chuva era dele. Só aí, o desembargador percebeu que, por engano, estava levando o guarda-chuva do vizinho. Desculpou-se com este e pegou o seu próprio guarda-chuva, indo para o Tribunal.

No fim da tarde, após a sessão da sua Câmara, onde proferiu alguns dos seus brilhantes votos, antes de tomar o bonde que, pelo mesmo trajeto de ida, o levaria para casa, resolveu passar pela loja que vendia e consertava guarda-chuvas, para pegar os da esposa e da filha, ali deixados para conserto.

Após apanhá-los, tomou o bonde, levando no braço os três guarda-chuvas. Estava prestes a descer, perto de sua residência, quando sentiu que alguém lhe tocava no ombro. Ao voltar-se, viu que se tratava do mesmo cidadão com quem tivera, naquele dia, o incidente da troca de guarda-chuvas, o qual, encarando-o, lhe disse com ironia: "foi boa a sua féria hoje, hein!"

O desembargador identificou-se ao cidadão, explicando-lhe que os três guarda-chuvas eram o seu, o da mulher e da filha. Mas, ao descer do bonde, não teve certeza de havê-lo convencido de que falava a verdade...

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ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas, O Gesto e o Quadro, A Antessala da Esperança, Momentos de Paraíso-memórias de um criminalista e Causos Criminais, os quatro primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar”

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